Futebol Feminino pede passagem: estamos prontos para ouvi-las?

Enquanto nos EUA o público médio é de 5 mil pessoas por partida, no México são 3 mil. No Brasil, não temos dados

Estádio de Wembley, Inglaterra. Dia 6 de Abril de 2023. Primeira disputada da chamada “Finalíssima”, competição que coloca frente a frente as seleções campeãs da América do Sul e da Europa. 83.132 pessoas presentes à partida. A partida disputada entre Inglaterra e Brasil terminou empatada em 1 a 1, e foi vencida pelas inglesas nos pênaltis.

Até você ler “as inglesas” tudo parecia uma cena de futebol masculino, mas estamos falando de futebol feminino. A modalidade pede passagem e cresce ano após ano, mostrando que em algum momento pode atingir a viabilidade econômica.

Futebol feminino no Brasil

Talvez nem todos saibam, mas o Brasil já tem competições nacionais organizadas em 3 séries (A, B e C), os Estados possuem competições locais, e alguns clubes já se destacam com uma boa organização e desenvolvimento.

Os casos mais conhecidos são Corinthians, Ferroviária, Santos, São Paulo, Palmeiras, e isos tem incentivado outros clubes, como o Flamengo.

Além deles, o futebol feminino nacional possui clubes dedicados à modalidade, como o Kindermann de Santa Catarina, por exemplo, que disputa a Série A junto com o Real Ariquemes.

E quando descemos para as Séries B e C encontramos ainda mais clubes que se destacam pela modalidade, como o Taubaté, o 3B da Amazônia e tantos outros.

Evolução estrutural X orgânica

Tudo certo, estamos num processo evolutivo, renovando a Seleção Brasileira, que depois do empate com a Inglaterra, venceu a Alemanha num amistoso.

Mas quanto dessa evolução é estrutural e quanto é orgânica?

Pergunto – e esta é uma crítica antiga que faço – pelo fato de não termos jamais visto um projeto de implantação e desenvolvimento do futebol feminino no Brasil.

O que tivemos foi a obrigação pelos órgãos de organização do futebol dos clubes masculinos também terem equipes femininas. E a decisão de contratar uma treinadora experiente e qualificada para a Seleção.

Claro, com isso vieram as necessidades, como a criação de um calendário nacional para justificar minimamente a existência dos clubes, e em 2023 chegamos à criação da Série C nacional. Mas ainda assim não temos um conjunto de informações sobre a modalidade que nos permita saber de onde partimos, onde estamos e qual o objetivo. Ou seja, aquele famoso planejamento.

Se cortarmos para a Europa veremos que todas as ligas e federações nacionais destacam em seus anuários os números das competições nacionais.

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Público, renda, audiência, movimentações financeiras. A UEFA faz um belo apanhado da modalidade no continente, e a FIFA consegue anualmente comparar a evolução no mundo.

Falta informação no Brasil

No Brasil não temos nada. Não há informações. Nem os clubes conseguem divulgar dados mais detalhados sobre a modalidade. Quantas atletas qual o custo, qual o salário, quanto movimenta em publicidade, a audiência. Fica tudo escondido como se fosse um segredo.

No relatório anual da FIFA é possível extrair algumas informações. Por exemplo:

  • 98% dos clubes da Série A possuem categoria de base feminina;
  • Temos 40% de treinadoras, contra 60% das ligas que vemos mais mulheres comandando equipes (Inglaterra) ou nenhuma, como na Alemanha;
  • O estudo mostra o projeto do Palmeiras como exemplo de sucesso, e destaca a evolução das competições no Brasil;
  • No Brasil, apenas 68% dos clubes têm uma estratégia clara em seus regulamentos para o desenvolvimento do futebol feminino;
  • As equipes femininas no Brasil têm em média 4 patrocinadores exclusivos, contra 21 nos EUA, 7 na Inglaterra e 4 na Espanha, por exemplo;
  • A receita média anual das equipes femininas é de US$ 600 mil, considerando as 30 maiores ligas do mundo, com gastos salarias de US$ 344 mil anuais por elenco, sempre base 20/21;
  • Enquanto nos EUA o público médio era de 5 mil pessoas por partida, no México tínhamos 3 mil, na Alemanha e na Itália 800 pessoas, e no Brasil não temos dados;

Ou seja, temos dados soltos, genéricos, e que poderiam ser mais bem estruturados e divulgados para permitir que o mercado brasileiro tivesse mais acesso, entendesse as necessidades, as dificuldades, as fortalezas, e pudesse olhar o futebol feminino além do básico.

Inclusive para endereçar as demandas de maneira correta. Quando vemos que a média de gastos salariais anuais no mundo é de US$ 344 mil e os clubes alcançam em média US$ 600 mil de receitas fica clara a distância em relação ao futebol masculino.

A questão do planejamento

Assim como é no vôlei, no basquete e em outras modalidades masculinas e femininas, mas que diminuíram a distância e encontraram seu ponto-de-equilíbrio justamente porque tiveram um planejamento, porque buscaram seu mercado, se posicionaram e se consolidaram.

Se olharmos pelo retrovisor é nítido que deixamos a fase de sonhar com o futebol feminino para trás. Não há motivos para desconfiança, e sim para idealizações em relação a um futuro promissor.

Mas precisamos ir além da boa vontade e ter um plano claro, público e com dados, para despertar mais interesse de pessoas e empresas, capaz de solidificar o futebol feminino como um negócio.