O que foi o Plano Cruzado? Entenda o fracasso do principal programa antes do Plano Real

Plano Cruzado teve duas etapas e fracassou para economistas e ex-ministros na luta contra a inflação

Antes do Plano Real entrar em vigor em 1994 e domar a crise causada pela inflação no país, brasileiros conviviam com a oscilação do preço de bens, produtos e serviços no dia a dia. Em 1986, após a posse do presidente José Sarney, o governo tentou resolver o problema de oscilação de preços por meio do Plano Cruzado. Mas, afinal, o que foi o Plano Cruzado e por que ele fracassou?

Economistas e ex-ministros consultados pela Inteligência Financeira afirmam que o fracasso do Plano Cruzado se deu pela falta de ajuste fiscal e âncora cambial, além de uma política desastrada de congelamento de preços. Em duas fases, ao invés de atenuar a hiperinflação, os preços da economia brasileira saltaram de 80% em 1986 para 363% no ano seguinte.

O que foi o Plano Cruzado?

O Plano Cruzado foi um pacote de medidas econômicas adotado pelo primeiro ministro da Fazenda durante o governo Sarney, o empresário Dilson Funaro. O plano foi responsável pela mudança da moeda nacional do cruzeiro para o cruzado, na tentativa de combater a inflação da época.

O governo Sarney colocou a primeira fase do Plano Cruzado em prática em 28 de fevereiro de 1986. No mês anterior, segundo dados do Atlas Histórico da FGV, a inflação havia atingido 517%, obrigando o governo a instituir a substituição da moeda em resposta.

Assim, o plano determinou que mil cruzeiros teriam o valor de um cruzado.

Mas não foi apenas a mudança de moeda que define o Plano Cruzado. O decreto autorizando a implementação da medida, assinado por Sarney e Funaro, determinava o congelamento de preços, salários e aluguéis.

Além disso, a desindexação de títulos do Tesouro da inflação, substituindo a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), pela OTN (Obrigação do Tesouro Nacional), foi outro marco do Plano Cruzado.

De acordo com o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, outros países fora da América Latina enfrentavam a hiperinflação com ações semelhantes.

“Havia experiências que estavam dando certo de congelamento de preços. Quando o Brasil fez o Plano Cruzado, Israel tinha combatido a inflação, que chegou a 400% por lá”, afirma o ex-ministro.

“Só que depois verificamos que Israel tinha características que não eram transponíveis para o caso brasileiro.”

Cruzado II

Em novembro, com o desabastecimento provocado pelo aumento de demanda com oferta insuficiente, o governo lançou a segunda etapa do Plano Cruzado.

Se o problema era a oferta, o governo Sarney editou decretos para aumentar a taxa de produtos não discricionários, como gasolina e álcool. O preço de itens como bebidas chegou a subir 100% em 1986, segundo a Fundação Fernando Henrique Cardoso (FHC).

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Além disso, o Cruzado II permitiu o reajuste de preços defasados. Mas as medidas não reverteram a inflação.

Em dezembro, um mês após o início do Cruzado II, o IPCA saiu de 89% para 275%, de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Por que os Planos Cruzado e Cruzado II fracassaram?

Economistas e ex-ministros apontam que o fracasso dos Planos Cruzado e Cruzado II envolve uma mistura de falta de política de ajuste fiscal com o congelamento de preços “de forma repentina”.

“Por que que não deu certo? Porque os planos de congelamento vinham de surpresa e não podia ser de outra forma”, explica Nóbrega. Ele afirma que da forma como foi feita a paralisação dos preços na economia levou a um aumento repentino da demanda.

Isso porque o congelamento levava a inflação a baixar. “O poder de compra parava de ser corroído, havia até alguma recuperação dele como no Plano Cruzado”, aponta o ex-ministro da Fazenda. Ao mesmo tempo, o governo incentivou ainda mais a demanda com um aumento de salários em 15%.

“Em segundo lugar, havia outro problema. Como era uma interrupção instantânea do processo inflacionário, formavam-se desequilíbrios. Por exemplo, empresas que tinham reajustado seus preços com autorização pelo governo um mês antes do congelamento ficaram defasadas.”

“Então, se as empresas obedecessem ao congelamento, elas quebrariam.”

Além disso, o Plano Cruzado fracassou porque o governo Sarney não “estava disposto” a fazer um ajuste fiscal. A avaliação é de outro ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira. Ele substituiu Dilson Funaro após a saída do empresário da pasta.

“O Cruzado foi um desastre. Esse é o nome da coisa, porque era uma boa ideia, mas o governo Sarney não estava disposto a fazer o ajuste fiscal, que era necessário conjuntamente”, afirmou à Inteligência Financeira (confira a entrevista completa).

Bresser substituiu Funaro, e, em junho de 1987, anunciou o Plano Bresser. Maílson da Nóbrega, que entrou na Fazenda após a renúncia de Bresser, decretou o Plano Verão em janeiro de 1989. Nenhum dos dois planos, subsequentes ao Cruzado, conseguiu domar a inflação no Brasil.