Milei avança

Desafios existem, o custo do ajuste é bem severo do ponto de vista social, mas a agenda Milei avança

Momentos de crise criam oportunidades. Esse tem certamente sido o caso da Argentina sob a presidência Milei. O governo embarcou em uma ambiciosa agenda de estabilização e reformas.

Ainda que o processo venha sendo doloroso do ponto de vista social, até o momento a população parece preferir a tentativa de ruptura liberal de Milei a um retorno ao intervencionismo peronista.

Apesar da erosão natural da aprovação de qualquer governo, passado o período inicial de lua de mel, a confiança no governo ainda estava em 50% em maio, segundo pesquisa da Universidad Di Tella, patamar elevado para os padrões argentinos.

Na parte Macro, o governo vem implementando um forte ajuste fiscal e uma política cambial que tem contribuído para reduzir a inflação, ainda que ela siga em patamares extraordinários.

Perspectiva fiscal

Do lado fiscal, o ajuste tem vindo basicamente pela redução das despesas primárias em termos reais.

Estas caíram 27,0% no trimestre findo em maio, ante igual período do ano anterior. Pagamentos de pensões caíram 24,2%, salários do funcionalismo 17,1%, e gastos em investimento contraíram 80,5%, dado o congelamento de projetos.

Subsídios ao consumo de energia declinaram 22,6%, despesas com programas sociais 13,7%, e transferências para as províncias 74,4%. Cabe registrar que o ajuste fiscal tem sido ajudado pelo próprio processo inflacionário, visto que a inflação acaba corroendo o valor real das despesas, cuja indexação tende a ser imperfeita.

Do lado monetário, apesar de praticar taxas de juros reais fortemente negativas (40% ao ano vs inflação de 276%, expectativa em torno de 140%), as taxas nominais superam o ritmo pré-determinado de depreciação, 2,0% ao mês, em ambiente de controle de capitais.

A repatriação de recursos detidos no exterior por argentinos, para fazer face ao aumento do custo de vida, tem permitido ao banco central manter a taxa de depreciação gradual. Essa política tem conseguido reduzir a inflação, de um máximo mensal de 22,6%, em dezembro de 2023, para 5,1% na última divulgação.

Taxa de câmbio real

Ocorre que a desinflação tem sido alcançada ao custo de uma forte apreciação da taxa de câmbio real.

O índice da taxa de câmbio real subiu de 84,5, em novembro de 2023 (setembro de 2023 = 100), para 151,4 em dezembro, depois da desvalorização do peso.

Em maio deste ano, o índice já estava de volta a 99,0, e o Itaú projeta 96,0 no final de junho. Ou seja, o ganho de produtividade já foi perdido.

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As reservas líquidas aumentaram, mas se situam em apenas $1 bilhão. Com isso, o plano se aproxima de uma bifurcação: para remover os controles de capitais, visando poder voltar a acessar os mercados internacionais, bem como facilitar a atração de investimentos estrangeiros, seria importante acelerar o ritmo de depreciação da moeda, mas isso realimentaria o processo inflacionário, talvez poderosamente.

O programa inclui, além de iniciativas de estabilização macroeconômica de curto prazo, uma ampla gama de reformas microeconômicas que visam elevar o potencial de crescimento da economia.

O governo teve uma importantíssima vitória legislativa recentemente: a aprovação da Lei de Bases no senado. Essa lei inclui diversas medidas, como a reorganização da administração pública, reforma trabalhista, privatização, política de investimento, entre outras.

Desafios existem, o custo do ajuste é bem severo do ponto de vista social, mas a agenda Milei avança. Até aqui, a terapia de choque está funcionando.