Campos Neto vê arcabouço como ‘razoável’, mas alerta para tramitação

Presidente do Banco Central comentou ainda que 'números de inflação cheia estão melhores, mas núcleo está bastante resiliente'

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou que o projeto de arcabouço fiscal apresentado ao Congresso é “bastante razoável”, mas disse que é preciso observar como vai se dar o processo de aprovação e a celeridade da votação.

“Acho que foi uma boa indicação que estamos avançando na direção certa”, avaliou.

Campos reiterou que não há uma “relação mecânica” entre a aprovação da nova regra fiscal com a política monetária.

Sobre o debate no governo em relação à mudança das metas de inflação, Campos disse que a recomendação da autoridade monetária é de que “não é um bom momento” e que “não deveria ser feito”.

Segundo ele, o BC não teria uma reação imediata de cortar juros e, em seu ponto de vista, a medida aumentaria o prêmio de risco.

“Achamos que não é algo que o BC decide [mas o governo], o mandato é muito claro”, ponderou, em inglês, em reunião organizada pelo European Economics & Financial Centre (EEFC), em Londres, no Reino Unido.

Campos ressaltou que aumentar as metas passaria uma ideia ao mercado de que o objetivo é “ganhar alguma flexibilidade” e ressaltou que na diretoria há membros que “pensam diferente”.

‘Trabalho do BC está sendo feito’

O presidente do Banco Central afirmou também que o índice cheio da inflação brasileira está caindo, mas núcleo (que exclui itens mais voláteis) está “bastante resiliente”, recuando em ritmo lento. Ele ressaltou que é “consenso nos bancos centrais” de que “o trabalho ainda não está feito” e que é preciso “ser persistente”.

“O índice cheio de inflação está muito poluído por mudanças tributárias que estão acontecendo, então quando olhamos o núcleo, está em torno de 8%, o que ainda é muito alto. Em termos de hiato, não vemos mudança, mesmo que a economia esteja desacelerando”.

“Há consenso nos bancos centrais de que o trabalho ainda não está feito e precisamos ser persistentes [na política monetária]. Quando olhamos nossas projeções, temos 5,8% para 2023 e 3,6% para 2024, 3,2% para 2025 e, obviamente temos um contexto de números melhores, mas ainda longe da nossa meta”, disse Campos Neto.

“Sempre dizemos que a decisão se baseia em três dimensões de dados, olhamos para a inflação corrente, para o hiato do produto e para as expectativas”, elencou.

Segundo ele, a maior preocupação está nas expectativas de inflação, mesmo para 2025 e 2026, que são prazos mais longos.

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“Há um questionamento sobre por que temos expectativas de inflação nos médio e longo prazos subindo se as surpresas inflacionárias no curto prazo são positivas. Acho que a questão aqui é que algum ruído foi criado na mudança de governo; quando olhamos porque a inflação desancorou no longo prazo, parte da explicação está relacionada ao pacote fiscal que foi aprovado [em referência à PEC da Transição] e parte ao governo falar sobre mudar as metas”, opinou.