Qual a relação do carbono com os seus investimentos?

Só para se ter uma ideia, eventos climáticos extremos geram perdas em torno de US$ 2,97 trilhões

Você sabia que o carbono pode ter relação com seus investimentos? De que maneira? Eu te conto.

Mas antes, vale lembrar que ao longo dos últimos anos, o Fórum Econômico Mundial tem apontado em seus relatórios que os eventos climáticos extremos são uma das três principais ameaças para o planeta no curto prazo, junto com doenças infecciosas e crises associadas ao meio de vida das populações.

Reforçando essa preocupação, uma publicação feita pela United Nations Office for Disaster Risk Reduction mostrou que entre 2000 e 2019, os eventos climáticos extremos geraram perdas econômicas em torno de US$ 2,97 trilhões.

Aquecimento global

Sabe-se que as mudanças no ciclo do carbono, principal gás responsável pelo aquecimento global, ocorrem naturalmente no ciclo da Terra há milhões de anos.

Porém, a ação do ser humano vem acarretando, nos últimos 150 anos, mudanças relevantes neste ciclo. O relatório publicado pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), em agosto de 2021, mostra que as emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas foram responsáveis por aproximadamente 1,1ºC de aumento médio na temperatura em comparação com o período pré-industrial, o que representa mais do que todo o aquecimento observado nos últimos 2000 anos e conclui que, em média, nos próximos 20 anos, a temperatura global deverá atingir ou exceder 1.5ºC de aquecimento.

Um aumento de 1,5ºC ainda representa riscos econômicos e humanos significativos, em especial para regiões com maior vulnerabilidade, como zonas costeiras ou regiões que já enfrentam escassez hídrica. No entanto, neste cenário é menos provável que os impactos causados pelas mudanças no clima sejam irreversíveis.

A importância da descarbonização

Levando em consideração nossa trajetória de emissões atuais e previsões demográficas, podemos dizer que o atingimento de um cenário 1,5ºC depende fortemente do desenvolvimento e escalabilidade de tecnologias de sequestro e captura de carbono.

Nasce assim a importância do tema e a jornada pela transição energética, sendo a descarbonização um passo relevante nessa frente.

Desafios e oportunidades

Mas quais os desafios e oportunidades nessa temática?

Temos por exemplo a precificação do carbono: ao colocarmos um preço nessas externalidades passamos a estimular os diversos agentes a adotarem práticas alinhadas a uma economia mais eficiente em carbono.

Atualmente os valores referentes à emissão de gases de efeito estufa, na maioria das jurisdições, estão bem aquém das referências encontradas em cenários científicos, aqueles que estimam um preço de carbono que seria coerente com o atingimento de um cenário de 1,5ºC. Segundo relatório do Banco Mundial, os valores cobrados pelo carbono são usualmente inferiores a USD 40/tonCO2eq, com poucas geografias chegando a superar os USD 100/ tonCO2eq.

Podemos encontrar mercados voluntários de carbono, onde os participantes não possuem uma obrigação legal de adquirir ou gerar esses créditos, de modo que suas transações ocorrem tipicamente em um formato bilateral sem a intervenção de uma autoridade reguladora e com finalidade principalmente reputacional.

Leia a seguir

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Um dos motivos para o crescimento de mercados voluntários são os compromissos assumidos pelas empresas para atingir metas para compensar suas emissões.

A neutralidade de carbono é alcançada quando nenhum CO2 é acrescentado à atmosfera. Isto pode envolver a eliminação de emissões, a sua remoção e/ ou a sua compensação.

Existe uma ambição importante para que esses esforços envolvam não somente o Escopo 1 e 2, mas abranjam também a cadeia de fornecedores e clientes (Escopo 3), a fim de apoiar a meta de limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC.

Pacto do Clima

Em 2021 o Pacto do Clima de Glasgow foi aprovado, um marco que trouxe o formato pretendido para um amplo mercado de créditos de carbono internacional – item previsto no Artigo 6 do Acordo de Paris.

Ele criou os pilares para que as trocas de créditos possam ocorrer, tendo como base as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) de cada um dos países membros. Em 2022, durante a COP27, teve início o desenho para alguns dos desafios relevantes desta iniciativa, tais como quantificar, qualificar e comercializar os créditos.

Brasil

Nesse contexto o papel do Brasil pode ser relevante, tendo a possibilidade de ser um protagonista quando pensamos em mercado de carbono: segundo estudo da Câmara de Comércio Internacional (ICC) juntamente com a consultoria WayCarbon o potencial de geração de receita com créditos de carbono para o Brasil pode chegar a US$ 100 bilhões até 2030, dada sua capacidade de suprir essa crescente demanda.

O decreto que definiu as diretrizes do Mercado Brasileiro de Redução de Emissões foi publicado no último ano, revelando os setores que terão participação e abrindo espaço para o envio de propostas de metas setoriais. Nesse momento foi criado o Sistema Nacional de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Sinare), onde serão registradas e assim inventariadas as emissões e suas respectivas transações enquanto créditos de carbono.

Atenção de empresas e investidores

Todos esses movimentos, locais e globais, reforçam a necessidade de as empresas passarem a incorporar, de maneira mais pragmática, as questões climáticas em sua estratégia e planejamento.

A transparência em relação aos impactos das mudanças climáticas também requer atenção de empresas e investidores.

Quando pensamos em investimentos devemos ter o médio e longo prazo como nosso horizonte. A descarbonização já é uma realidade e tem o potencial de impactar setores e empresas de diferentes formas. Nesse momento, é relevante nos questionarmos sobre o alinhamento do nosso portfólio a essa temática.