Trabalhador quer semana toda em home office, aponta pesquisa

Estudo do FGV Ibre aponta que, no pós-pandemia, trabalhadores gostariam de ficar mais tempo em trabalho remoto do que os empregadores parecem dispostos a permitir

(Foto: Yasmina H/Unsplash)

Embora o trabalho remoto na pandemia tenha predominado entre pessoas de faixas de renda mais altas, a percepção positiva da modalidade, com ganhos de produtividade, é disseminada entre funcionários de remunerações diversas. Essaa valiação diverge, no entanto, da leitura dos empresários sobre as vantagens do regime, e o resultado é que, no pós-pandemia, trabalhadores gostariam de ficarmais tempo em home office do que os empregadores parecem dispostos a permitir.

Essas são as conclusões de quesitos especiais incluídos na Sondagem do Consumidor de setembro da Fundação Getulio Vargas e avaliados em um estudo das pesquisadoras Claudia Perdigão e Viviane Seda Bittencourt, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).

Entre as 3.383 famílias consultadas, quase metade (49,6%) tinha pelo menos uma pessoa trabalhando ao menos um dia da semana em regime remoto ou de homeoffice, contra 22,9% em 2019. Pouco mais de 30% atuavam totalmente remoto, mas essa proporção aumenta conforme a renda: é de 43,3% entre os que ganham acima de R$ 9.600 por mês, ante 17,8% para consumidores com ganho mensal de até R$ 2.100. Na faixa derenda mais baixa, por sua vez, 43,3% declaram trabalhar totalmente presencial, enquanto 26,8% não estavam empregados.

Considerando a avaliação dos indivíduos que tiveram experiência com trabalho remoto antes da pandemia, 55,2% observaram aumento da produtividade, contra13,9% que sentiram redução, resultando em um saldo positivo de 41,3%. O melhor resultado líquido está entre as famílias com renda entre R$ 4. 800,01 e R$ 9.600 (57,3%), mas mesmo aquelas com ganhos de até R$ 2.100 tiveram um bom saldo (41,4%).

Há, no entanto, diferença de percepção entre empregados e empregadores sobre os impactos da nova organização do trabalho na pandemia. Entre os empresários, 21,6% avaliaram que a produtividade sofreu aumento, enquanto 19,4% relataram queda. Existe também uma dissonância entre o que os funcionários acham que ganharam de produtividade e o que se mensura, por exemplo, no Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado ao FGV Ibre.

Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador da área de Economia Aplicada do instituto, lembra que, no pico da pandemia, houve melhora nos indicadores d eprodutividade mais por um efeito de composição — ficaram mais desempregadosos trabalhadores menos qualificados e produtivos. “Nossa ideia era que isso não se sustentaria assim, porque, mesmo naquele momento, nos dados da Pnad Covid só10% dos postos de trabalho foram utilizados de modo remoto, sendo que calculamos um potencial de cerca de 17%, ajustado pela infraestrutura domiciliar disponível para o trabalho em casa. Acho que o ponto que o estudo ressalta agora é esse viés de produtividade”, diz ele.

Para os pesquisadores do FGV Ibre, a percepção maior de ganho de produtividade entre funcionários pode estar ligada à noção de bem-estar. A mobilidade urbana, dizem, é um dos fatores que mais afeta esse sentimento, e o trabalho remoto possibilita uma disponibilidade maior de tempo, gerando maior qualidade de vida e, consequentemente, uma visão mais favorável do regime por parte dos consumidores.

Não à toa, 37,5% deles mostraram interesse em permanecer no regime de homeoffice cinco dias da semana ou mais, sendo essa a maior preferência para todas asfaixas de renda. Mas são exatamente as famílias de menor poder aquisitivo — que tiveram menos possibilidade de trabalhar nesse regime devido à natureza dos trabalhos que realizam, muito ligada a serviços — os que mais gostariam de ficar a semana toda atuando remotamente (53%).

“O tempo de deslocamento é muito grande, principalmente nas faixas de renda mais baixas. Apesar de elas não terem ficado tanto em home office, são as que mais ganham em relação a isso”, diz Viviane Seda Bittencourt.

Os empregados reconhecem, no entanto, que seus empregadores devem pensar diferente: 27% projetam que suas empresas determinarão o retorno ao regime totalmente presencial. Considerando os valores médios, os trabalhadores desejam permanecer em home office por 3,1 dias, ao mesmo tempo em que esperam 1,9 dia de trabalho remoto planejado pelos empregadores.

Pesquisa com empresários indicou que, no pós-pandemia, a média de dias porsemana em que os funcionários devem permanecer em trabalho remoto é de 1,7 dia para áreas administrativas e de 0,7 para operacionais. “O que ele [trabalhador] gostaria é diferente do que ele acha que a empresa vai fazer, que, por sua vez, está mais próximo ao que as empresas estão se propondo mesmo”, nota Barbosa.

Se, por um lado, algumas empresas conseguiram reduzir custos com o trabalho remoto na pandemia, por outro, o distanciamento físico do ambiente de trabalho pode prejudicar também a capacidade de vigilância por parte dos empregadores,s ugerem os pesquisadores.

Além disso, observa Viviane, absorver novos funcionários, treinar e avaliar empregados também podem ser tarefas mais desafiadoras à distância. “Para quem já está em uma posição de liderança acaba sendo mais fácil do que para uma pessoa que ainda está galgando espaço”, diz.

Outro ponto é que existem questões legais e contratuais que ainda precisarão ser ajustadas para o trabalho híbrido pós-pandemia, apontam Viviane e Barbosa. “A Justiça vai obrigar as empresas a pagar internet, manter vale-transporte, alimentação? A questão da infraestrutura é um desafio. A economia de custo pode se perder em processos. É uma incerteza que talvez fomente parte das empresas a voltar presencialmente”, afirma Barbosa. Quem deve conseguir se manter mais tempo em trabalho remoto é o funcionário mais qualificado, que tem maior poder de barganha, sugere Viviane Bittencourt.


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