Análise: Desistência de Doria abre caminho para candidatura de Tebet, que enfrenta dificuldades

Impacto da desistência de tucano nas campanhas de Lula e Bolsonaro é residual

João Doria, ex-pré-candidato do PSDB à Presidência da República (Foto: Divulgação)

A desistência do ex-governador João Doria (PSDB) da disputa presidencial nesta segunda-feira (23/5) traz consequências imediatas e alguns desafios para a terceira via, consórcio de partidos centristas — PSDB, MDB e Cidadania — que buscam apresentar uma alternativa à polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

A desistência de Doria joga, em primeiro lugar, muita responsabilidade sobre esses partidos, que já escolheram a senadora Simone Tebet (MDB) como a candidata ungida do grupo. Doria, que era um obstáculo, joga no colo dos dirigentes partidários o peso de viabilizar a candidatura de Tebet, que enfrenta resistências dentro de seu próprio partido. O MDB, como se sabe, prefere apoiar Lula no Norte e no Nordeste, enquanto que no Sul e no Sudeste possui alinhamento com Bolsonaro.

Portanto, as dificuldades da terceira via não terminam aqui. Pelo contrário, começa agora a corrida para viabilizar a candidatura da senadora.

O segundo efeito prático é na eleição para o estado de São Paulo, este sim muito relevante. O governador Rodrigo Garcia, candidato tucano à reeleição, fica agora bastante livre agora para construir alianças com partidos de diversos espectros políticos. Ele também se livra do principal peso para sua candidatura, que era um alinhamento com Doria, muito rejeitado em São Paulo.

Garcia disputa com o ex-ministro Tarcísio Freitas (Republicanos), candidato de Bolsonaro ao Palácio dos Bandeirantes, uma posição no segundo turno, possivelmente para enfrentar Fernando Haddad (PT). O caminho de Garcia fica agora bem desimpedido para que ele avance nas tratativas com partidos e expanda seu arco de alianças para as convenções partidárias.

Já para as campanhas de Lula e Bolsonaro o impacto da desistência de Doria é bastante residual. Os principais partidos da terceira via estão rachados nacionalmente. Cada estado quer seguir sua própria direção, sem ter que responder a uma candidatura nacional que possivelmente crie algum tipo de dificuldade ou embaraço para as alianças e para os parlamentares. No fundo, são os parlamentares que representam o interesse primordial das legendas hoje: eleger maiores bancadas para ter mais acesso ao fundo partidário e relevância no xadrez político.

A principal pergunta que ficará é se a senadora Simone Tebet tem condições de se viabilizar como candidata de centro e alternativa à polarização. Suas chances são muito reduzidas, não só pelas dificuldades partidárias mencionadas, mas também pela cena eleitoral que está colocada neste ano, com dois candidatos de dois polos muito sólidos. Bolsonaro e Lula possuem um piso de votos muito alto, o que dificulta a migração de sufrágios desses polos. Até Ciro Gomes (PDT), que tem um recall muito alto e uma penetração nacional muito mais forte que Tebet, tem tido muita dificuldade de romper essa polarização.

Portanto, é muito improvável que outra alternativa de centro, incapaz de unir partidos que formam essa frente de terceira via, consiga se transformar num verdadeiro fenômeno eleitoral, necessário para vencer as eleições ou ter condições de competir.

A terceira via oferece para o eleitor uma alternativa muito diferente do que representam as candidaturas de Lula e Bolsonaro, mas existe uma espécie de dissonância entre o interesse das pessoas e a pauta da terceira via, que é uma pauta de equilíbrio, de bom senso, enquanto os dois polos estão buscando o embate, procurando o confronto barulhento e ruidoso, além de muito ideológico, dificultando as coisas para uma candidatura alternativa.

(Por Fábio Zambeli, analista-chefe do JOTA em Brasília)

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