Análise: Centrão em viés bolsonarista

Continuidade dos pagamentos das emendas de relator é a única disputa que realmente interessa ao bloco

Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Ciro Nogueira e Arthur Lira vestiram literalmente a camisa da reeleição de Jair Bolsonaro para assistir do palanque montado no Rio de Janeiro, neste domingo (24), à nova investida do aliado contra as instituições.

“Convoco todos agora para que no 7 de Setembro vá às ruas pela última vez. Esses poucos surdos de capa preta têm que entender o que é a voz do povo. Tem que entender que quem faz as leis é o Poder Legislativo e o Executivo. Todos têm que jogar dentro das quatro linhas da Constituição”, discursou.

A fala não estava no roteiro sugerido pelo entorno político da campanha, mas tampouco surpreende o bloco partidário convencido de que não conseguirá frear a ofensiva bolsonarista contra o Judiciário. Paradoxalmente, não há declaração contra a urna eletrônica que faça o centrão apostar as fichas em uma ruptura democrática.

O estica e puxa institucional rende ao bloco acostumado com negociações de bastidor uma janela de oportunidade para atravessar a única disputa que de fato os interessa: a continuidade dos pagamentos de emendas de relator do orçamento federal.

A moeda da moderação em troca da blindagem contra a interferência da corte soaria ainda mais necessária a partir de setembro. Coincidentemente, é o mês em que a tensão entre Poderes deve atingir o patamar mais elevado diante dos atos convocados para o feriado do dia 7, e que ainda marca a chegada da ministra Rosa Weber à presidência do Supremo. Alheia às negociações políticas, a magistrada foi quem puxou a ofensiva para suspender a liberação das emendas, no ano passado.

A tese de que retórica golpista não vai dar em nada revela uma operação arriscada de profissionais da política vinculados ao bolsonarismo mais do que gostariam. A consequência a curto prazo da aliança é acompanhar a distância a montagem de um eixo de governabilidade de um eventual governo Lula 3 sustentado por um outro centrão, desta vez liderado por PSD, MDB e União Brasil.

Restaria, portanto, manter-se no comando do jogo político pela força, controlando a liberação de verbas federais aos redutos eleitorais. No jargão burocrático de Brasília, manter RP-9 do jeito como está, fiadora da governabilidade de todo e qualquer governo. Jair Bolsonaro sintetizou o retrato do país no ato da convenção.

“Eu sei que a figura mais importante aqui hoje sou eu. Mas se não é o Arthur Lira, esse cabra da peste de Alagoas, não teríamos chegado a esse ponto”, disse.

(Por Bárbara Baião, analista de Congresso do JOTA em Brasília)