O que são as soft skills e como desenvolvê-las

Especialistas falam como é possível melhorar as suas habilidades emocionais no trabalho

(Foto: Jud Mackrill/Unsplash)

No mundo da gestão de pessoas e do RH, soft skills são vistas como “habilidades comportamentais” ou “interpessoais” enquanto as “hard skills” são encaradas como“habilidades técnicas” para uma determinada função. Para Guilherme Spadini, psiquiatra e professor da The School of Life, a definição tradicional de soft skills envolve aquelas habilidades não específicas de um trabalho ou expertise. “No fundo, são as habilidades emocionais. É saber lidar com pessoas, ter boa capacidade deliderança, resiliência, lidar com emoções no trabalho. Soft skills são úteis no dia a dia e servem para qualquer coisa que o profissional for fazer – seja no trabalho, seja na sua vida pessoal”.

Um outro jeito de encarar as soft skills é pensá-las como aquelas habilidades que a inteligência artificial não é, ao menos por enquanto, capaz de replicar e que envolve a forma como o ser humano sente as emoções, as expressa e lida com elas, afirma Alessandra Lotufo, CIO da Bossa, companhia de aprendizagem e conteúdo, da consultoria de cultura e estratégia BMI. “É como a gente reage aos problemas, se relaciona, expande nossas relações de trabalho e sociais, como pensamos a respeito do mundo, nos comportamentos. Mas nosso comportamento reflete nossas preferências e quando desenvolvemos novas capacidades, ganhamos mais flexibilidade para lidar com adversidades e pessoas ao nosso redor, e conseguimos viver uma maneira que também nos estressa menos”.

Há seis anos, o Fórum Econômico Mundial vem perguntando a empregadores do mundo todo quais habilidades eles consideram cruciais em sua força de trabalho, independentemente do cargo ou expertise técnica. Os resultados são publicados em um relatório sobre Futuro do Trabalho que o WEF publica anualmente. De 2015 para 2020, a principal habilidade requerida é a capacidade de resolver problemas complexos. Pensamento crítico, criatividade, capacidade analítica também sempre figuraram no topo das mais desejadas.

Ao longo dos anos, porém, a lista foi trazendo outras competências, ainda mais relacionadas à rapidez das mudanças pelas quais os mundos dos negócios estão sujeitos, pela maior automação nos processos produtivos, pelo avanço da tecnologia na vida das pessoas, empresas e forma de fazer negócios. Habilidades de autogestão, capacidade de aprender sempre, resiliência, tolerância ao estresse, inteligência emocional e flexibilidade cognitiva começaram a aparecer com força na lista das habilidades mais desejadas aos profissionais nos últimos anos.

Por que as soft skills ganharam importância?

Na visão de Lotufo, as soft skills ganharam relevância na hora de avaliar, contratar e desenvolver profissionais diante da complexidade dos cenários que o mundo vive e da inserção de tecnologia, moldando comportamentos e negócios. “Hoje temos que lidar com muito mais gente em poucos minutos, somos acionados em termos emocionais muito mais, somos mais exigidos culturalmente e cerebralmente. Precisamos ter habilidades mais expandidas para lidar com maior pressão e transitar nesse mundo de modo mais saudável”. Nesse sentido, a tal fala daresiliência (“capacidade de se recobrar facialmente”), é uma habilidade crucial para acompanhar o ritmo contemporâneo e inteligência emocional é necessária para conseguir decifrar as coisas ao redor, racionalizá-las, ser capaz de fazer novas leituras e ter uma visão sistêmica do entendimento do mundo, afirma.

“Essas habilidades são o maior diferencial hoje para os profissionais porque a habilidade técnica está cada vez mais nivelada por cima. No mercado de trabalho, você contratar uma pessoa que sabe fazer o que precisa é básico. O que tem feito diferença, de ser bem visto do trabalho ou promovido, tem sido mais soft skills”, diz Spadini.

Em uma entrevista recente para o podcast CBN Professional, realizado pelo Valor com a CBN, o CEO da Siemens Pablo Fava disse que a engenharia lhe ajudou a desenvolver a capacidade de lógica e de raciocínio. “Mas na carreira precisei desenvolver meu quociente emocional. Hoje, acredito que um dos fatores-chave para um bom líder, é ser referência neste aspecto. Hoje gasto 70% do tempo entre clientes e pessoas, aprendendo a me relacionar bem com elas, e é o que mais importa para a minha posição de CEO”.

O que a pandemia mudou na reflexão sobre soft skills?

Em um artigo recente para o Valor, a colunista de carreira Vicky Bloch, professora da FGV e fundadora da Vicky Bloch Associados, analisou que muitas empresas, líderes e profissionais se deram conta na pandemia que esse é esse lado “soft” que faz os negócios funcionarem.” É o que azeita, o que acolhe, o que dá o tom, o que engaja, o que faz com que você queira fazer mais. É o que forma os melhores líderes. Isso vale em todos os níveis da governança, do supervisor de fábrica ao conselheiro de administração”, escreveu. Para Bloch, os CEOs que têm essas habilidades chamadas “soft” são aqueles que conseguem negociar com seus funcionários, ouvem as pessoas e suas novas necessidades, olham com atenção para a questão da volta ao espaço físico de trabalho.

Na pandemia, o descontrole emocional acabou atingindo tanto líderes como liderados, mostrou pesquisa da The School of Life com 491 profissionais brasileiros, de diferentes regiões – 296 líderes e 195 liderados. A pesquisa
mostra que 52,03% dos gestores e 58,46% dos empregados, por estarem abalados emocionalmente, em algum momento, deixaram de produzir ou se engajar no trabalho.

Em termos de soft skills que eles acreditam ser necessárias para o pós-pandemia, os líderes colocaram em primeiro lugar o espírito empreendedor (27,36%), já os liderados citaram a confiança (33,33%). Mas o que chama a atenção é que, em ambos oscasos, a segunda habilidade mais desejada por 23,65% dos chefes e 24,62% dosempregados é a calma. Comunicação, resiliência e confiança foram outras habilidades mais citadas.

Quais são soft skills nos novos modelos de trabalho pós-pandemia?

Uma pesquisa realizada pelo LinkedIn com 1.000 profissionais mapeou quais são as habilidades eles consideram mais importantes diante da possibilidade de um retorno ao escritório. Comunicação e inteligência emocional apareceram no topo da lista, seguidas por aprendizado contínuo, capacidade de adaptação e criatividade.

Além de a pandemia ter levado organizações a repensarem o papel do escritório,quais habilidades o novo momento exige e quando fará sentido estarpresencialmente, a experiência com home office mostrou que é preciso esenvolver habilidades para liderar à distância e que gestão remota não é uma competência inata. Uma pesquisa da Bossa, empresa da consultoria BMI, realizada no fim de2021, sugere quais são as características comportamentais mais importantes para ter boa performance no trabalho a distância: autonomia, proatividade, criatividade, automotivação, autodisciplina, concentração, planejamento, flexibilidade, comprometimento e responsabilidade.

“Todas são competências que consideram que nosso cérebro se relaciona diferente com a tela e que nós, como líderes ou liderados, precisamos de mais elementos para compreender de forma mais articulada o que quem está do outro lado da tela quer dizer. Ter sensibilidade para isso, e melhorar a comunicação, são fundamentais para o gestor à distância”, diz Lotufo.

Como desenvolver as soft skills?

Ter a capacidade de se relacionar melhor, ser mais criativo, controlar melhor as emoções – todas estas consideradas soft skills – depende da prática e de treino, defende Spadini. “Essas habilidades são treináveis e digo isso porque tem gente que é talento ou é ter simplesmente bom senso. Mas não, trata-se de desenvolvimento – um desenvolvimento contínuo e de médio e longo prazo”.

Para o psiquiatra, essa jornada começa com autoconhecimento. É preciso perceber os pontos fortes e os fracos e, para isso, há a necessidade de olhar para dentro e pensar em si mesmo. Só com essa avaliação, algumas habilidades já começam a ser desenvolvidas como: pensamento crítico ou a abertura para ouvir o que outros pensam de você e, assim absorver, acolher possíveis críticas e ir se conhecendo melhor, diz. Esse processo não se finaliza com a leitura de um livro, afirma Spadini, e demanda calma para se colocar no mundo de outra forma, entrar em contato com as emoções, conseguir elaborá-las melhor e entender onde estão as dificuldades, as fragilidades, as vulnerabilidades. Workshops, palestras, leituras, trilhas de desenvolvimento da empresa oferecidas com objetivo de se autoconhecer melhor, lidar melhor com as emoções e desenvolver alguma habilidade interpessoal específica são úteis e agregam neste processo, afirma.

Uma vez mapeada onde estão aspectos emocionais ou interpessoais para serem trabalhados, Lotufo defende que os profissionais podem buscar ou estabelecer trilhas de aprendizado. Um dos caminhos, diz, é viver experiências significativas que te levam a uma reflexão mais profunda, buscar atividades que te tiram da zona deconforto sobre como agir automaticamente em determinada situação, se envolverem interações que seja possível desenvolver a comunicação.

Qual é o limite dessa reflexão?

Para o psiquiatra, essa reflexão interna e mapeamento dos aspectos a serem desenvolvidos não pode virar “um superestresse” ou uma “corrida por desempenho. “Às vezes, por isso a importância do autoconhecimento, nem todo mundo vai desenvolver tudo, mas se você sabe jogar estrategicamente com seus pontos fortes e fracos, ter calma para admitir onde erra e é difícil e onde precisa pedir ajuda, isso já é habilidade mais importante, tendo isso o resto você vai lidando e vendo como pode desenvolver algo específico”.

Com relação à liderança, Diana Gabanyi, diretora da The School of Life, defende que essa reflexão precisa ser levada ainda mais a fundo, para reconhecer as fraquezas dos pontos fortes, como lida-se com elas e isso se reflete na gestão da equipe. “Em muitos workshops que fazemos com lideranças de empresas hoje focamos muito na abertura do líder em demonstrar suas vulnerabilidades para ser capaz de acolher melhor a si mesmo e os outros”. Se o ambiente de trabalho não favorecer essa reflexão e busca por desenvolvimento de habilidades interpessoais – seja porque o chefe ou ambiente são tóxicos – Spadini recomenda que o profissional não deixe debuscar isso por ele mesmo. “Na pior das hipóteses, desenvolver habilidades emocionais melhores vai te dar força, paz de espírito, além de foco, para buscar outro emprego”.


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