Transição climática ágil pode elevar lucro de bancos

Segundo estudo da consultoria Bain, instituições financeiras que saírem na frente podem ver resultados aumentarem até 30%

Campo de usinas eólicas, energia renovável, tecnologia verde
Bancos que apostam em carteiras “verdes” – investimentos em tecnologias verdes nascentes, ou apostas em cenários prováveis que requerem um grande compromisso (hidrogênio verde, por exemplo) – são considerados pioneiros no cenário de transição climática. – Foto: Thomas Richter/Unsplash

Os bancos podem ver seu lucro aumentar até 30% se fizerem uma transição ágil para uma economia de baixo carbono ou correm o risco de o resultado encolher caso demorem demais para tomar providências, mostra estudo da consultoria Bain & Company.

A pesquisa dividiu os maiores bancos globais em três grupos: “pioneiros”, aqueles que lideram a transição climática; “seguidores”, que adotam as mudanças um pouco depois; e “atrasados”, os estão relutantes em implementar as medidas necessárias. Considerando que todos os outros fatores atingissem do mesmo modo todas as instituições financeiras, os pioneiros veriam o lucro subir de 25% a 30% entre 2021 e 2050. Os seguidores, entre 5% e 10%. E o lucro dos atrasados cairia de 10% a 20%.

Segundo a Bain, os bancos pioneiros vão transferir uma porcentagem muito maior de suas carteiras para ativos verdes – podendo chegar a 85% em 2050. Com isso, os custos de financiamento e o risco desses competidores poderão ser muito menores que os dos concorrentes mais lentos, que serão penalizados pelos investidores devido à maior exposição a indústrias e a projetos tradicionais. O estudo estima que os “retardatários” deslocarão apenas de 40% a 50% de seu portfólio para ativos verdes nos próximos 30 anos.

As emissões financiadas representam pelo menos 95% da pegada de carbono geral de um banco, segundo a Bain. Por isso, a consultoria recomenda que as instituições dimensionem essas emissões adequadamente na carteira de crédito e adotem uma estratégia ampla para que a transição resulte, no fim das contas, numa melhora da lucratividade.

A Net Zero Banking Alliance, uma aliança de bancos que detêm 40% dos ativos do setor, se compromete a alcançar a neutralidade das emissões até 2050. Itaú Unibanco, Bradesco e Santander fazem parte desse grupo.

“[…] Uma transição climática bem-sucedida exige, portanto, que os bancos adotem uma estratégia de longo prazo com ações de médio prazo ancoradas em um horizonte de pelo menos cinco a dez anos. Isso é uma mudança do atual descompasso entre o horizonte de planejamento estratégico típico dos bancos, de dois a três anos, e a transição climática, que é muito mais longa”, aponta o estudo.

Mesmo para os pioneiros, os resultado não virão no curto prazo. A pesquisa estima que eles só começarão a perceber um diferencial de lucro entre 2025 e 2030, num processo que deverá ganhar tração nos anos seguintes até que, entre 2040 e 2050, fique mais perceptível. “Esperamos que os reguladores e os governos se alinhem gradualmente aos requisitos de transição. Até que isso aconteça, cada banco deve decidir sobre seu desejo de adotar uma abordagem pioneira.”

A pesquisa não tem dados específicos do Brasil, mas Silvio Marote, sócio da área de serviços financeiros da Bain, afirma que o país está mais ou menos no meio do caminho. Fica atrás do Reino Unido, por exemplo, um dos mais avançados na área, mas à frente de outros países que nem fazem parte do Acordo de Paris. “O Brasil sempre pode olhar os dois lados da moeda. Por um lado, não tem metas setoriais definidas, e assim não tem clareza de como medir e fazer para chegar lá. Por outro lado, está avançando com a regulação, estabelecendo alguns prazos”, diz.

Uma das principais dificuldades das instituições financeiras é calcular as emissões das suas carteiras. De uma base dos 45 maiores bancos do mundo, apenas 21 divulgam as emissões atuais, e de forma parcial. Mais da metade informa os dados para menos de 25% do portfólio. Esses mesmos se comprometeram com metas públicas intermediárias para 2030.

As métricas também diferem. Uns usam a exposição na carteira, outros a intensidade das emissões e uma parte as emissões absolutas. “A medição das emissões de carbono acaba por ser bastante complicada e varia substancialmente dependendo da granularidade e detalhe dos dados disponíveis”, diz o estudo.

“Nossa análise mostra que a pegada de carbono para portfólios semelhantes pode variar em mais duas vezes em qualquer direção, dependendo da granularidade dos dados disponíveis e da metodologia de medição. A maioria dos bancos atualmente conta com dados de emissões com pouca granularidade para grandes parcelas de suas carteiras, o que lhes permite fazer apenas medições intermediárias ou genéricas.”

Para a Bain, fazer a transição para um sistema de medição mais apurado exigirá um grande esforço, mas vai valer a pena. A consultoria aponta que a baixa granularidade de dados aumenta o risco de subestimar ou superestimar as emissões e, assim, definir metas erradas. “Os bancos precisam investir nos processos, ferramentas, dados e parcerias que lhes permitirão melhorar a granularidade de seus dados e rastrear com precisão as emissões financiadas.”

Para Marote, dificilmente os bancos adotarão exclusões amplas, deixando de financiar setores como um todo. “Alguns bancos até têm essas políticas, mas um caminho que certamente existirá é ajudar essas empresas mais poluentes na transição.”

Bárbara Moral, gerente sênior da Bain, concorda com essa visão. “Nas discussões que estamos tendo com os bancos, nos projetos de que participamos, percebemos que existem muito mais nuances do que falar apenas do macro setor. São discutidos tecnologias e projetos específicos dentro dos setores.”

O estudo defende que, apesar do horizonte longo, o processo de tomada de decisão dos bancos não seja lento. Segundo a consultoria, o ideal é ter flexibilidade. Isso inclui investimentos pequenos que podem ser acelerados rapidamente (como em tecnologias verdes nascentes), mas também apostas em cenários prováveis que requerem um grande compromisso, mas também podem oferecer retornos interessantes (hidrogênio verde, por exemplo).

Nesse caminho, existe o risco de os bancos apostarem em tecnologias que não serão vencedoras, pondera Marote. “Mas os bancos têm diferentes formas de participar disso, não só adicionando risco aos balanços. Eles podem ajudar na captação de recursos com outros tipos de investidores”, diz.

Para a Bain, um dos componentes mais importantes para uma transição climática eficaz é uma governança forte. Segundo a consultoria, o executivo que supervisionar o processo deverá ter autoridade suficiente e posicionamento adequado para ter sucesso. “Tempo especialmente dedicado para discutir a transição com o comitê executivo e o conselho de administração, incentivos que favoreçam o progresso das emissões e comunicações aos acionistas que transmitam o valor da transição ajudarão a manter a empresa no caminho certo”, diz o estudo.


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