Mercado acionário positivo pode não durar

Gestores avaliam que capital externo tende a não ser combustível contínuo

Bolsa de Valores de São Paulo, a B3 (Foto: Rafael Matsunaga/Wikimedia)

O primeiro mês de 2022 pintou um quadro animador para o investidor que permaneceu na Bolsa, depois dos resultados decepcionantes de 2021. O Ibovespa acumulou alta de quase 7%, e mais de 11% em dólar. O estrangeiro já colocou US$ 4,5 bilhões em ações brasileiras, um terço de tudo que entrou no ano passado na B3. Ajudou até na valorização do real, que voltou a ser cotado a R$ 5,40 por dólar.

Mas essa festa pode não se prolongar, alertam gestores. De fora vêm os ventos contrários do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e sua brusca mudança no script monetário. No Brasil, a campanha eleitoral não deve dar trégua. O vaivém das pesquisas e as sinalizações de quem potencialmente conduzirá a economia a partir de 2023 são elementos que podem agitar os mercados.

Com a Selic em alta, deixar o dinheiro na renda fixa atrelada à taxa básica ou ao CDI é um ponto de conforto. Mas os profissionais de investimentos veem oportunidades na renda fixa longa, em títulos atrelados ao IPCA, públicos ou privados.

Quem vinha compondo a carteira com ativos internacionais, a exemplo do índice S&P 500 da bolsa americana, precisa estar preparado para tempos mais conturbados, segundo Bruno Magalhães, sócio-fundador da Sterna Capital. A mudança da rota monetária por parte do Fed pressupõe um dólar mais forte e saída de dinheiro das bolsas, incluindo das emergentes.

Papéis públicos e privados atrelados à inflação estão entre as recomendações para carregar na carteira
Nas projeções no mercado americano, já estão embutidas diversas altas das taxas de juros. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, não tentou dissuadir os investidores sobre a disposição para um ajuste forte, e ainda sinalizou a redução do balanço da autoridade monetária. Isso significa não só tornar o custo de capital mais caro, como também retirar liquidez da economia, aponta Magalhães.

Ele prevê que o S&P 500, que vinha sendo negociado a uma relação preço/lucro de 22 vezes quando bateu os 4.700 pontos, volte para os níveis pré-covid, perto de 18 vezes. “Apesar da correção já vista em janeiro, o mercado pode cair mais, taticamente estamos mais vendidos lá fora”, diz Magalhães.

E um cenário de aperto monetário nos Estados Unidos não ajuda o Brasil nem outros emergentes. O fluxo recente que se observa para esses mercados pode ter data de validade, afirma o gestor. Desde meados de dezembro, foram 25 pregões em que o estrangeiro comprou bolsa brasileira. O Ibovespa, que chegou a 101 mil pontos no início de janeiro, fecha o mês acima de 112 mil pontos. “Olhando para frente, não sou fã do Ibovespa nesses níveis, ainda mais com os juros de longo prazo perto de 11,5% e a dinâmica de crescimento sendo revisada semana a semana.”

Apesar da alta da Selic, o gestor lembra que, pela primeira vez em mais de duas décadas de regime de metas, as expectativas para a inflação já começam um novo ano acima do objetivo do Banco Central (BC). A cereja do bolo vem com a discussão sobre corte de impostos para combustíveis e energia, que, se concretizado, fragiliza ainda mais o quadro fiscal e deixa uma herança inflacionária adiante. O resultado é que não deve ter redução de juros já neste ano e o BC tende a puxar o início do afrouxamento monetário mais para frente, afirma Magalhães.

O câmbio depreciado fez a alegria de exportadores e foi ponto de atração para o capital externo, mas o Brasil não está sozinho nesse fluxo. O dólar caiu para a faixa dos R$ 5,40, só que há eleições no meio do caminho, não dá para se fiar em valorizações adicionais, diz o gestor. Num mundo de retirada de estímulos fiscais e monetários, com riscos não desprezíveis lá fora ou no Brasil, o investidor deve se ater à cartilha da diversificação, diz Han Kim, responsável pela gestão de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management.

Com os juros em alta, a renda fixa faz parte desse mix. Entre as recomendações da gestora estão títulos públicos e privados atrelados à inflação. Para papéis de crédito, Kim alerta que o investidor não pode deixar de fazer contas, sob o risco de encarteirar um ativo que não compensa o risco. “Será que o papel com vencimento próximo ao de uma NTN-B [Notas do Tesouro Nacional série B] tem mesmo mais spread? Em alguns momentos há tanta demanda que o spread é negativo, não há razão para comprar por comprar”, diz.

Mesmo com a rota ascendente dos juros, a gestora sugere exposição em bolsas, ciente de que vai haver mais vaivém. “Vale a pena ter lá fora e aqui, mas tem ano eleitoral no Brasil, e em qualquer país costuma ser um período mais volátil.” Ela acrescenta que a alta de taxas pelo Fed é para conter a inflação, que tem sido alimentada pelo crescimento econômico. “É bom ter as duas alocações, mas não é tudo ou nada.”

O essencial, prossegue, é fazer um balanceamento de risco adequado a cada perfil e alongar o horizonte de investimento para mais de dois anos. “Pode parecer chavão, mas em momentos de volatilidade aparecem oportunidades mesmo. O investidor não precisa ter pressa para fazer alocação. O CDI mais alto é mais confortável, não necessariamente tem que colocar o dinheiro em algo com menor liquidez”, afirma Kim. “Tem que ter calma na hora de alocar para sobreviver aos momentos de queda.”

Com baixo crescimento no Brasil e a Selic em alta, a bolsa talvez não seja o melhor ativo para se carregar ao longo de 2022 num multimercado, diz Fabricio Taschetto, sócio-fundador da Ace Capital. Em janeiro, o Ibovespa lidera a performance entre os mercados acionários globais, graças ao combustível do capital estrangeiro. “É um dinheiro de curto prazo, não acho que vá continuar em fevereiro, e daí volta a ser a bolsa que se viu no ano passado, mais devagar.”

A combinação de Selic na casa dos 12%, em meio ao esforço do BC para conter a inflação, torna o real uma aposta melhor do que a bolsa, avalia Taschetto. Para quem faz gestão de recursos de terceiros, um serve de hedge para o outro.

Em estratégias ligadas a juros, ele acha que, depois de as taxas futuras encostarem nos 13%, o próximo passo é o mercado cortar as projeções, desde que não haja “nenhum B.O. [ocorrência] grande com a eleição”. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, o gestor espera um BC mais pró-aperto, com uma alta de 1,50 ponto percentual na Selic, levando a taxa referencial da economia para 10,75% ao ano, sinalizando aumento adicional no encontro seguinte.

Depois de um 2021 difícil, em que os multimercados macro penaram para entregar retornos acima da inflação, Taschetto avalia que em 2022 as condições são mais favoráveis para que os gestores obtenham ganhos reais para os seus cotistas. Para a pessoa física que faz investimento por conta própria, ele vê as NTN-Bs longas como uma boa alocação de risco. A renda fixa tende a prevalecer como as melhores alternativas de retorno. O dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40 é para comprar, e entre R$ 5,70 e R$ 5,80, para vender. Ele lembra que do processo eleitoral virá muito ruído, o que significa que a valorização do real não deve ser contínua.

O câmbio e a bolsa destoaram do ambiente macroeconômico em janeiro e é difícil imaginar que um cenário favorável para os ativos brasileiros se prolongue, diz Mario Schalch, gestor da Neo Investimentos. Num período em que o presidente do Fed prepara o terreno para uma atuação monetária mais restritiva, é de se esperar muita volatilidade vindo desse tema, afirma. “E o Brasil, claramente, é um elo fraco nesse sistema todo.”

Mesmo com posições consideradas atrativas na carteira quando o dólar estava nos R$ 5,70 e o Ibovespa perto de 100 mil pontos, a decisão do gestor da Neo foi reduzir a exposição nessas classes. “Em termos absolutos, com o câmbio a R$ 5,40, a bolsa a 110 [mil pontos], os juros a 10,5%, 11%, o juro real entre 5,5% e 6%, não dá para dizer que os ativos não estão baratos”, afirma Schalch. “Mas com tantas incertezas, a volatilidade ao longo do tempo, pode haver pontos melhores de entrada.”

Em bolsa, o gestor tem preferido combinar posições compradas (apostando na alta) e vendidas (na queda) em consumo contra shopping centers, por exemplo. A mesma tática ele tem usado com o dólar versus moedas que podem ficar para trás nesse ciclo de aumento de juros nos Estados Unidos. “Não tem nenhuma posição grande que dependa de um cenário específico. Estamos mais atentos a questões micro de cada mercado.”

Com a Selic caminhando para os 12% e o juro real em quase 6% nas NTN-Bs, há muita oportunidade para a pessoa física que não tem que se preocupar com a atualização dos ativos a preços de mercado, diz Schalch – num fundo, as oscilações aparecem diariamente nas cotas. Ações de primeira linha que ficaram muito descontadas também merecem ser consideradas na carteira.

A base mais alta do CDI também coloca os fundos multimercados numa posição mais favorável para proporcionar ganhos acima da inflação para os investidores. “Do mais conservador, que pode alocar em Selic e NTN-B, até quem aceita um espectro de risco maior, tem oportunidades interessantes para os multimercados, os fundos de ações alocarem os recursos do investidor. Não precisa ficar unicamente defensivo por causa do cenário mais difícil.”

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