Maior parte das ações na Bolsa acumula queda desde início de 2021

Das 100 ações do IBrX, 64 têm perda no período

Fôlego por recompra de ações se mantém e operações já se aproximam de total de 2020

A bolsa brasileira vem tentando nos últimos dias um movimento de recuperação que já levou o Ibovespa de volta para a linha dos 108 mil pontos, maior nível registrado em maio. Mas, quando se olha para o desempenho específico das ações, o que se vê é que a maioria dos papéis não se reergueu do tombo vivido no ano passado. Levantamento feito pelo Valor Data mostra que, das 100 ações que compõem o IBrX – índice que reúne as 100 ações mais líquidas da bolsa, amostra um pouco mais ampla, portanto, do que a do Ibovespa -, 64 acumulam queda desde o início de 2021. Somente neste ano, 49 mostram desvalorização.

Desde o ano passado, no entanto, o IBrX acumula uma perda de 8,04%. Mas, neste ano, o indicador já mostra um ganho de 3,52%. Esse contraste entre o desempenho específico dos papéis e a variação dos índices é uma demonstração de que o cenário macroeconômico local e, sobretudo, o ambiente externo bastante incerto justificam um olhar muito mais seletivo por parte dos investidores. “Depois dessa queda é possível dizer que o Brasil está barato, mas deve continuar assim enquanto tivermos um ambiente hostil lá fora e lidarmos com a variável eleição, que está pesando cada vez mais sobre o mercado”, define o sócio e gestor de ações da Trafalgar Investimentos, Igor Lima.

No ranking das maiores quedas desde o início de 2021, os destaques são ações ligadas à economia local, em especial as de varejo, como Magazine Luiza (-82,15%), Via (-81,93%) e Americanas (-68,01%), que vinham de um período de sobrevalorização e agora sofrem com o aumento da concorrência. Há também os papéis ligados ao setor de tecnologia, caso de Locaweb (-73,70%).

Segundo Lima, o ponto comum entre todas elas é o fato de que são empresas de crescimento, ou seja, a avaliação desses papéis leva em consideração que haverá um crescimento mais intenso no futuro, o que torna o peso da taxa de juros de longo prazo muito maior. E, embora o ciclo de alta da Selic, que afeta a curva de juros como um todo, esteja perto do fim, há muitas dúvidas sobre o espaço para uma queda da taxa nos próximos meses, especialmente diante do momento mundial de aumento de taxas de juros.

“Alguns indicadores apontam para a inflação cedendo de forma consistente, enquanto a atividade está mais forte do que se esperava. O que joga contra é o juro lá fora. É difícil hoje alguém, seja estrangeiro ou brasileiro, tomar decisão de tomar muito risco adicional, porque é um vento muito externo contra e muito forte”, diz Lima.

Alexandre Sant’Anna, gestor de renda variável da ARX Investimentos, diz que, em um horizonte maior de tempo, já aparecem oportunidades nos setores mais ligados à economia doméstica. No curto prazo, entretanto, o profissional não vê gatilhos que possam desencadear uma rotação de carteiras em direção aos papéis mais ligados ao ambiente local. “A inflação e os juros ainda devem permanecer altos pelos próximos meses, então vejo dificuldade em termos uma reprecificação importante no patamar desses ativos”, diz.

Jennie Li, estrategista de ações da XP, diz que o ambiente internacional, neste ano, tem muito peso sobre a bolsa. Ela observa que o cenário macroeconômico local é desafiador, com as projeções de inflação caminhando para um nível acima de 8,5% neste ano, e juros para perto dos 13%. “Mas isso tudo a gente já conhecia, já foi antecipado no ano passado”, diz.

Agora, ainda que alguns papéis possam ser considerados baratos, o risco de haver uma recessão nos Estados Unidos pode impedir uma recuperação no curto prazo. Afinal, com a inflação americana no maior nível em 40 anos, o Federal Reserve pode ter que subir os juros a ponto de derrubar as bolsas, o que poderia impactar os mercados de ações do mundo todo. “É muito difícil achar o que seria o fundo do mercado, porque em um ambiente como esse, todas as empresas, boas ou não, sofrem”, afirma. “Pode ser que este seja um ponto de entrada, mas é preciso ter em conta que haverá ainda muita volatilidade no curto prazo.”

As ações que resistem a esse mundo mais avesso são as ligadas a commodities, ao setor financeiro e algumas de infraestrutura. É o caso da produtora de soja SLC Agrícola, que acumula um ganho de 135% desde o começo do ano passado; Braskem (+111%) e Petrobras ON (+72%). São papéis que se beneficiam de um mundo inflacionário, em que os preços das matérias-primas tendem a continuar valorizados. Como algumas dessas ações têm grande peso sobre a formação dos índices da bolsa, eles acabam amortecendo o efeito negativo dos demais papéis. Mas nem por isso conseguem se sobrepor ao ambiente de maior seletividade e cautela que ainda deve prevalecer sobre o mercado.

“A gente acha que a bolsa está barata, tanto de forma relativa como absoluta. Mas, diante desse cenário de juros em alta no mundo, o caminho de valorização não vai ser linear”, diz Daniel Gewehr, co-gestor de ações do WHG. Ele explica que, embora o Brasil esteja à frente no ciclo de alta de juros, ainda existe a preocupação com o efeito defasado sobre a atividade, o que tende a afetar diretamente papéis mais ligados à economia local.

Gewehr observa que, enquanto as ações de commodities negociam hoje a um múltiplo equivalente a 4/4,5 vezes e os papéis do setor financeiro a 7,5/8 vezes, todo o restante da bolsa tem um múltiplo de 14 vezes. “Não dá para dizer que esteja caro, mas você começa a esperar um crescimento maior para justificar uma posição”, diz.

Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank Brasil, enxerga pouco espaço para uma rotação de carteiras no curto prazo, considerando que boa parte dos eventos inflacionários que impactaram os mercados neste início de ano seguem sem resolução definitiva ou podem até piorar. “A bolsa brasileira só teve um bom primeiro trimestre porque o investidor estrangeiro veio para cá e comprou commodities. Agora, eles já embolsaram parte dos lucros e, sem a presença deles, a bolsa dificilmente vai andar.”

Em uma visão dissonante, o chefe de pesquisa da Guide Investimentos, Fernando Siqueira, acredita que o segundo semestre deve trazer uma mudança na preferência dos investidores dentro do mercado local. Se, no primeiro trimestre, ações ligadas a commodities e bancos acabaram puxando os retornos do índice, o fim do ciclo de alta de juros pode impulsionar temas mais ligados à economia doméstica.

“A gente acha que no segundo semestre, quando ficar claro que o ciclo de alta de juros no mercado local acabou, os papéis mais ligados à economia doméstica podem voltar a dar sinal de vida. Mas é óbvio que nossa visão positiva não se estende para tudo que caiu muito nos últimos tempos”, pondera o profissional.


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