Investidor vê antecipação de alta de juros pelo Fed

No Reino Unido as discussões apontam para a chance de uma elevação dos juros em novembro

Foto: Matthew Hamilton/Unsplash

Pontos-chave

  • Retirada dos estímulos monetários, como o programa de recompra de ações, deve começar antes do esperado
  • Mercado vê grande chance de o banco central americano anunciar duas altas de 0,25 ponto na taxa de juros no ano que vem

Enquanto as pressões inflacionárias continuam a se mostrar mais persistentes do que o esperado ao redor do globo, os mercados têm precificado cenários em que o processo de retirada dos estímulos monetários acontece cada vez mais cedo, mesmo em economias avançadas. Se no Reino Unido as discussões apontam para a chance de uma elevação dos juros em novembro, nos Estados Unidos o mercado espera ao menos duas altas de 0,25 ponto na taxa em 2022, na medida em que a normalização da política do Federal Reserve (Fed) está prestes a começar.

De acordo com dados compilados pelo CME Group, os contratos futuros dos “Fed funds” indicam que, na reunião de política monetária de julho de 2022, o mercado precifica 57,3% de ao menos uma alta de 0,25 ponto nos juros. Até o fim de 2022, a aposta de que ao menos duas elevações de 0,25 ponto nas taxas terão ocorrido está em 63,2%. Já a possibilidade de pelo menos três altas de 0,25 ponto nos juros ao longo de 2022 não é majoritária, mas está em 28,3%.

Até o momento, o Fed tem tentado desvincular o fim do processo de redução das compras de ativos (“tapering”) do início das altas de juros. No entanto, os mercados têm se mostrado sensíveis tanto a surpresas altistas na inflação corrente quanto ao viés de alta observado nas expectativas de inflação de médio prazo. Levantamento conduzido pela distrital de Nova York do Fed aponta que as expectativas de inflação de três anos alcançaram nova máxima histórica, ao subirem para 4,2%. Não por acaso, as curvas de juros globais têm sofrido fortes pressões nas últimas semanas.

“Os movimentos agressivos nas curvas sugerem uma reprecificação das políticas dos bancos centrais”, observa Antoine Bouvet, estrategista sênior do banco holandês ING. “A resposta mais agressiva a uma inflação mais persistente também está prejudicando as perspectivas de longo prazo. Um achatamento das curvas foi mais visível no Reino Unido, mas também na zona do euro e nos EUA, onde um aumento [de juros] pelo Fed em setembro de 2022 foi totalmente precificado pela primeira vez. Há um tema de aperto vinculado à inflação em jogo”, diz Bouvet.

O ING projeta duas elevações de 0,25 ponto nos juros pelo Fed em 2022. “Já estamos prevendo uma ação mais rápida e precoce na política do Fed do que o consenso do mercado – a redução das compras de ativos terminará no segundo trimestre de 2022, com aumentos dos juros em setembro e em dezembro do próximo ano. Uma aceleração das expectativas anteciparia ainda mais esse cronograma”, avaliam os economistas do banco.

Ainda entre os grandes bancos, o Citi espera um aumento na meta para os Fed funds no fim do próximo ano, assim como o Deutsche Bank. Para Matthew Luzzetti, economista-chefe para EUA do banco alemão, as interrupções nas cadeias de produção devem fazer com que as pressões inflacionárias persistam em 2022, ao mesmo tempo em que as expectativas de inflação de longo prazo devem continuar a aumentar devido à sensibilidade aos preços do petróleo, enquanto o mercado de trabalho nos EUA continua a aquecer.

Na avaliação de Diogo Saraiva, sócio e economista da BlueLine Asset, embora o cenário precificado pelo mercado seja algo possível, é pouco provável. “O ponto central é que o Fed adotou um novo regime de meta de inflação, que prega, justamente, esperar mais a inflação subir em direção ao alvo. Esse regime, que é mais paciente na função de reação, não parece consistente com o cenário que o mercado está colocando nos preços.”

Saraiva observa que, na curva de rendimentos dos Treasuries, há uma antecipação do processo de subida de juros, mas, posteriormente, está precificado um ciclo bastante raso. “Se olharmos para o ano de 2023, duas altas de juros estão implícitas na curva. É até menos do que o gráfico de pontos dos dirigentes do Fed mostrou na última reunião. Se olharmos de 2024 em diante, temos o mesmo cenário”, nota o economista.

Assim, para ele, embora a possibilidade do processo de alta de juros nos EUA começar no terceiro trimestre de 2022 esteja sobre a mesa, é pouco provável. “Na minha cabeça, a maior probabilidade está em um primeiro ajuste [nos juros] no início de 2023, com possibilidade considerável de ser em dezembro de 2022, mas, antes disso, é pouco provável”, afirma Saraiva.

O estrategista-chefe da AZ Quest, André Muller, também espera que o Fed só eleve os juros no começo de 2023, ao analisar o novo sistema de metas de inflação do banco central. “Nesse novo ‘framework’, é a inflação que vai determinar o momento em que a taxa de juros vai ser elevada ou não. E os membros do Fed têm feito um trabalho grande de tentar comunicar uma dissociação entre a política de compra de ativos da política de juros, embora o mercado tenha dado pouca importância a isso.”

Muller observa que, na ata da reunião de política monetária do Fed divulgada na semana passada, “o mais relevante foi verificar que parcela majoritária do comitê entende que os riscos futuros são de uma inflação estruturalmente mais baixa”. Assim, na avaliação do estrategista da AZ Quest, o que o mercado precifica só seria compatível em um contexto no qual o núcleo de inflação rode entre 2,5% e 3% nos EUA ao longo de 2022.

Para os membros do Fed serem convencidos de que será necessário elevar as taxas de juros antes, “é porque certamente o cenário de inflação seria bem diferente do esperado”, afirma Muller.


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