Grupos de ensino superior voltam a analisar combinação de ativos

Com queda das ações, rivais conversam entre si; Unit e Unieuro estão à venda

Universidade Positivo, em Curitiba (PR), adquirida no fim de 2019 pelo grupo paulista de ensino Cruzeiro do Sul Educacional. Foto: Divulgação

Diante do atual cenário de queda nas ações e juros elevados, os grandes grupos de ensino superior começaram a se movimentar e engatam conversas com rivais para uma eventual fusão. As conversas ainda são informais – uma delas é entre a Cruzeiro do Sul e a Ser Educacional devido à complementariedade geográfica, segundo o Valor apurou. Há ainda um interesse dos principais grupos do setor pela Unip, cujo fundador, o empresário João Carlos DiGênio, morreu em fevereiro deste ano.

Esse movimento de consolidação vem sendo analisado por praticamente todo o setor, segundo fontes do mercado financeiro. Uma transação envolvendo troca de ações seria um caminho para gerar valor às companhias, que vêm sofrendo com a queda nas cotações, e seria o movimento viável para não aumentar a alavancagem com aquisições diante do alto custo das dívidas. “Está todo mundo conversando com todo mundo”, diz uma fonte da Faria Lima.

Nesse contexto, as faculdades de medicina são exceção. Ainda de acordo com fontes, a Unit (Universidade Tirantes), do Nordeste, e a Unieuro, de Brasília, – ambas com cursos de medicina – abriram processos competitivos em busca de investidores. A primeira está sendo assessorada pelo Santander e a segunda, pelo Safra. Em ambos os casos, grandes grupos já demonstraram interesse.

As fusões em estudo, contudo, não são projetos para ser concluídos no curto prazo devido ao atual ambiente macroeconômico e à dificuldade para fechar um preço que agrade os dois lados. Esse movimento tem sido impulsionado pelos bancos de investimento, que desde o começo do ano estão batendo à porta dos grupos educacionais com algumas teses para combinar ativos. Entre os argumentos dos bancos estão o baixo valor das ações, o que facilita a entrada de um terceiro interessado, o custo elevado para uma aquisição transformacional e a complementariedade geográfica entre as companhias.

Uma associação entre Cruzeiro do Sul, que opera no Sudeste, com a Ser Educacional, com forte presença no Nordeste, seria comparável à fusão entre as operadoras de planos de saúde NotreDame Intermédica, de São Paulo, e Hapvida, de Fortaleza, que se uniram neste ano e estimam sinergias de R$ 1,4 bilhão até 2024. Uma fonte do setor destacou que uma possível combinação dos negócios entre Cruzeiro e Ser não deve ser baseada apenas na complementariedade de praças e, sim, nos ganhos que uma fusão poderia trazer, como no caso das operadoras de saúde.

De acordo com um escritório de advocacia especializado em fusões e aquisições, as duas empresas já conversaram informalmente. Antes de abrir o capital no ano passado, a Cruzeiro do Sul chegou a manter conversas com a Ânima, mas não seguiu adiante. Já uma fonte próxima ao grupo Ser diz que uma união com a Cruzeiro do Sul é muito difícil, uma vez que os acionistas das duas companhias não se dão bem e teriam problemas de abrir mão do controle. A Unip, segundo esse escritório, tem sido bastante assediada, mas os herdeiros de DiGênio ainda não decidiram o que fazer com o ativo.

No começo deste ano, houve uma tentativa dos bancos de ressuscitar a combinação de negócios entre Yduqs e Cogna, mas os executivos de ambas as companhias derrubaram as teses. Em 2017, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) reprovou uma fusão entre Estácio (atual Yduqs) e Kroton (hoje denominada Cogna) e até hoje o setor tem receios de que a autarquia antitruste venha barrar novas transações envolvendo ensino presencial.

“De forma pragmática, esse acordo não passaria pelo Cade novamente. O fato é que as ações das empresas de educação estão depreciadas, mas é preciso que elas se reestruturem, façam M&As regionais antes de um movimento transformacional mais para frente”, disse outra fonte da Faria Lima.

Nos últimos 12 meses, as ações da Cruzeiro do Sul caem 77,6%, Ser Educacional perde 57,8%, Ânima desvaloriza 59,7%, Yduqs 58,8% e Cogna, 43,7%.

As quatro companhias de ensino superior listadas na B3 perderam tamanho após a redução drástica do Fies (programa de financiamento estudantil do governo federal), em 2015. Além desse baque, o setor foi afetado pela crise econômica e pandemia da covid-19 que provocou uma redução de 700 mil alunos em cursos presenciais, entre 2020 e 2021.

Uma fonte próxima à Cruzeiro do Sul afirmou que a companhia está na posição de consolidadora e deverá fechar nas próximas semanas uma aquisição de menor porte para ganhar maior musculatura antes de fazer uma combinação de negócios mais relevante.

De acordo com essa fonte, a Cruzeiro passará por um movimento de mudança de mãos, uma vez que seu principal acionista, o fundo soberano GIC, deverá se desfazer de sua fatia no negócio. No entanto, essa operação não está prevista para o curto prazo. O grupo Ser, do empresário Janguie Diniz, é apontado como um “consolidador natural”.

Procurada, a Unit informou, por meio de sua assessoria, que o Santander é um dos mais importantes parceiros do Grupo Tiradentes. “Desse modo, é natural que o banco nos indique ou ofereça oportunidades de negócios que possam proporcionar ainda mais qualidade na prestação dos serviços de Educação.” Em relação à possibilidade de novos investidores para o negócio, não houve até o momento abordagem de interessados.

A Unip informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não existe nenhum tipo de negociação envolvendo a venda ou fusão do grupo Unip/Objetivo.

Cruzeiro do Sul, Ser Educacional e Yduqs não comentam o assunto. Ânima informou que não comenta rumores de mercado e a Unieuro não retornou os pedidos de entrevista.


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