Por que você precisa considerar os extremos climáticos nos seus investimentos

Desastres naturais poderão ficar mais severos e provocar grandes perdas econômicas

Morro da Oficina em Petrópolis; Tragédia; Chuvas; Deslizamento
Petrópolis (RJ), fevereiro de 2022: mais de 230 pessoas morreram em decorrência dos deslizamentos provocados pela chuva. Na imagem, Morro da Oficina, onde ocorreu a maior parte das mortes. – Foto: Márcia Foletto

Pontos-chave

  • Reserva financeira pode ficar comprometida para lidar com danos provocados por tragédias climáticas
  • Planejar aplicações será mais desafiador com projeções incertas para inflação, juros e o futuro das empresas

Yakecan. O raro ciclone subtropical que colocou em estado de atenção a costa sul do Brasil foi um novo alerta da natureza de que as coisas não vão bem. A escassez hídrica no ano passado que ameaçou deixar o país no escuro, as chuvas torrenciais na Bahia e em Minas Gerais na virada de 2021 para 2022, além do temporal que devastou Petrópolis (RJ) e matou mais de 230 pessoas em fevereiro, foram outros avisos de como a vida humana está em perigo.

“Pensávamos inicialmente que os impactos das mudanças climáticas seriam sentidos por nossos netos. Mas a realidade é que nós mesmos já estamos sendo afetados”, afirma o professor José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). A fala do climatologista e meteorologista foi registrada no Fórum Clima & Saúde, realizado pela Editora Globo e o Hospital Israelita Albert Einstein.

Marengo destaca que os extremos climáticos tendem a piorar se não houver uma redução significativa do desmatamento e da emissão de gases do efeito estufa para conter a taxa de aquecimento global. “Poderemos ter ondas de frio e de calor mais intensas”, projeta. “Todos os setores precisam contribuir para mitigar o problema antes que seja tarde. Se passarmos de um aquecimento de 4ºC, aí poderemos ver efeitos na Amazônia, o derretimento das calotas polares e muitos outros eventos que basicamente nos levariam a uma nova era de extinção”, alerta.

Aquecimento global pode elevar risco de doenças e novas epidemias

As mortes provocadas por enchentes, deslizamentos de encostas, nevascas, furacões e tantos outros desastres são o lado mais evidente de como a natureza pode ser implacável. O médico Guilherme Schettino, diretor-superintendente de responsabilidade social do Hospital Israelita Albert Einstein, avisa para mais consequências desencadeadas pelo aquecimento global.

Schettino conta que 30% da população mundial vive em locais em que a combinação de alta temperatura e alta umidade está em um nível perigoso para a saúde. “Dependendo da piora do cenário nos próximos anos, este número pode aumentar para até 50%”, estima. O médico acrescenta o problema da poluição do ar para expressar a sua preocupação com os efeitos de ondas de calor. “Isso eleva a chance de a pessoa ter agravamento de doenças mentais. Está muito claro que aumenta estresse, ansiedade, depressão, suicídios, comportamentos violentos e o risco de acidente vascular cerebral.”

O diretor do Einstein também pede atenção para o risco de surgimento de novas zoonoses e epidemias com o desequilíbrio ambiental das mudanças drásticas no planeta. “Modelos matemáticos mostram que, com o aquecimento climático, a chance de que mamíferos que nunca tinham se encontrado e que vírus que habitam os mesmos sejam transmitidos de um para o outro aumenta exponencialmente”, diz. “Isso aumenta a chance de aparecimento de novas doenças”, acrescenta citando artigos científicos que levantam a probabilidade.

Comprometimento com a agenda verde

O matemático Sérgio Margulis, pesquisador sênior associado do IIS (Instituto Internacional para a Sustentabilidade) e da WayCarbon, é enfático ao indicar que não dá para fazer um prognóstico “menos catastrófico” sem adaptações urgentes. Margulis avalia que a infraestrutura pode ter papel central tanto para colaborar com soluções para mitigar os problemas como para lidar com o aumento da vulnerabilidade gerado pela piora do clima.

“Os edifícios são feitos de concreto e aço, dois setores que são grandes emissores. Uma concepção de infraestrutura secular. Isso acabou”, afirma. “Precisamos construir prédios de pet e material reciclado. A inovação tem que ser no sentido de materiais que aumentem a resiliência e não necessariamente às custas de maiores emissões”, defende.

Margulis também fala da exploração da Amazônia, que tem sido alvo de produtores rurais e mineradores. O pesquisador cobra um maior uso científico para a floresta ser uma solução climática e ainda social. “A Amazônia é o lugar errado para você fazer produção de grãos ou pecuária. Ela precisa ser aproveitada do ponto de vista técnico e científico, em razão da sua biodiversidade”, considera. “Existe uma certa aversão à abertura da pesquisa sobre a floresta para as melhores universidades do mundo. Temos uma paranoia sobre soberania que é uma maneira de não abrir para o conhecimento científico. Precisamos de pesquisa de ponta, de parcerias para entender o que existe na Amazônia”, completa.

Como as mudanças climáticas podem afetar o seu dinheiro

A primeira forma é diretamente no bolso. O professor José Marengo, do Cemadem, aponta o lado “democrático” dos eventos climáticos severos. “Eles prejudicam todos os setores da economia e todos os países”, observa. Isso indica que, com o agravamento do cenário, as pessoas podem ficar cada vez mais expostas a situações de risco. Ser atingido por um desastre natural pode fazer com que a reserva de emergência – ou até mesmo grande parte das aplicações – tenham que ser sacadas para reparar os danos. Como colocado pelo médico Guilherme Schettino, executivo do Einstein, o desenvolvimento de doenças também pode ser preocupante considerando a parte financeira. As pessoas poderão ter que aumentar os gastos com tratamentos e medicamentos, o que pode engessar o orçamento doméstico e reduzir a fatia disponível para poupar.

A segunda possibilidade considera o quadro macroeconômico. Especialistas já consultados pela Inteligência Financeira destacam que períodos de seca, volume excessivos de chuvas, ondas de frio com geadas e outros extremos podem ocasionar quebras de safras. A pandemia de convid-19 ainda mostra como a disseminação de doenças pode paralisar as cadeias globais de produção e proporcionar grandes perdas econômicas. Como temos observados atualmente, tudo isso impacta nas projeções de inflação e – consequentemente – nas taxas globais de juros. Se no momento presente já fica difícil fazer planos, o panorama turbulento torna mais incerto de pensar estratégias para proteger o dinheiro no médio e longo prazos.

A última perspectiva leva em conta o futuro das empresas, principalmente aquelas negociadas em bolsas de valores. Quais companhias serão fechadas em virturde dos impactos financeiros provocados pelos extremos climáticos? Quais companhias se adaptarão às necessidades impostas pelas mudanças climáticas e continuarão sendo rentáveis aos acionistas?

Como tornar a economia mais sustentável

Os especialistas que participaram do Fórum Clima & Saúde admitem que a guerra entre Rússia e Ucrânia atrasa a discussão sobre como tornar a economia mais sustentável, já que o conflito reitera a dependência global de combustíveis fósseis. Só que a natureza não vai esperar a boa vontade humana de fazer a transição energética para fontes limpas e renováveis.

Em relatório, a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OMM (Organização Meteorológica Mundial) elevaram recentemente o alerta para catástrofe climática. “Nosso clima está mudando diante de nossos olhos. O clima extremo (já) resultou em perdas econômicas de centenas de bilhões de dólares e causou um pesado tributo às vidas humanas, ao bem-estar, provocou choques para a segurança alimentar e hídrica e deslocamentos de populações que se acentuaram em 2022″, ressalta Petteri Taalas, secretário-geral da OMM.

“Se agirmos juntos, a transformação das energias renováveis pode ser o projeto de paz do século 21”, pede António Guterres, secretário-geral da ONU.


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