Cenário de recessão pode piorar mercado acionário nos EUA, alerta pesquisador

Noriel Roubini considera como 'perigosamente ingênua' a visão de analistas que a recessão será leve e de curta duração

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O mercado acionário nos Estados Unidos pode não estar nem na metade da sua potencial queda diante da piora das condições financeiras e econômicas globais que se prenuncia. O alerta foi feito pelo o professor emérito de economia da Stern School of Business da Universidade de Nova York e ex-conselheiro econômico da Casa Branca, Noriel Roubini, em artigo publicado pelo site “Project-syndicat.org”.

Conforme o pesquisador e autor de vários livros sobre economia e mercados, a queda livre das ações em um cenário de recessão pode alcançar até 50% do último pico – atualmente o S&P 500, um dos mais importantes referenciais de Nova York, apresenta recuo de 20%.

Para Roubini, a inflação tem sido impulsionada por um “mix” de pressões de demanda e oferta. Porém, os problemas advindos de disrupções nas cadeias de suprimentos tem desempenhado papel cada vez maior sobre a dinâmica dos preços e esse tipo de choque de oferta agregada tem efeito estagflacionário, ou seja, atua tanto na alta da inflação quanto na desaceleração da atividade.

“A inflação impulsionada pela oferta é estagflacionária e, portanto, aumenta o risco de um pouso forçado (aumento do desemprego e potencialmente uma recessão) quando a política monetária é apertada”, apontou o pesquisador. Outro ponto importante dentro da equação dos cenários futuros é se a economia dos EUA terá um “pouso suave”, com perspectiva de se controlar a inflação e ao mesmo tempo evitar uma recessão, ou um “pouso forçado”, como reflexo da política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ter se tornado mais agressiva.

“Várias instituições proeminentes de Wall Street decidiram agora que uma recessão é seu cenário básico – o resultado mais provável se todas as outras variáveis forem mantidas constantes”, ressaltou Roubini. “Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, os indicadores prospectivos da atividade econômica e da confiança das empresas e do consumidor estão caminhando para o sul”.

O professor da Universidade de Nova York também classificou como “perigosamente ingênua” a visão de grande parte dos analistas do mercado de que, mesmo em caso de pouso forçado, a recessão tenderia a ser leve e de curta duração. O pesquisador argumenta que “há muitas razões para acreditar que a próxima recessão será marcada por uma grave crise de dívida estagflacionária”.

Roubini pondera que os níveis de dívida pública e privada hoje estão muito mais elevados do que, por exemplo, durante a crise de 2008. “Como parcela do PIB global, os níveis de dívida passaram de 200% em 1999 para 350% hoje”, cita. “Sob essas condições, a rápida normalização da política monetária e o aumento das taxas de juros levarão famílias, empresas, instituições financeiras e governos zumbis altamente alavancados à falência e à inadimplência”, vaticina.

Ao comparar as crises passadas com o cenário que se prenuncia, o acadêmico pontua várias diferenças. Ele lembra que, nos anos 1970, houve estagflação, “mas não houve grandes crises de endividamento, porque os níveis eram baixos”. Em 2008, “tivemos uma crise de dívida seguida de inflação baixa ou deflação, porque a crise de crédito gerou um choque negativo de demanda”.

A eventual crise que estaria começando pode ser uma combinação das anteriores. “Estamos caminhando para uma combinação de estagflação ao estilo dos anos 1970 e crises de dívida ao estilo de 2008 – ou seja, uma crise da dívida estagflacionária”, afirma. Roubini explica que, no momento atual, os BCs não poderiam ajudar com alívio agressivo da política monetária, nem os governos têm mais espaço fiscal. “A maior parte da munição fiscal foi usada e as dívidas públicas estão se tornando insustentáveis”.

Dentro dessa perspectiva, Roubini pondera haver espaço para os mercados de ações caírem ainda mais. “Muito provavelmente, eles vão mergulhar mais baixo. Afinal, em recessões típicas, as ações dos EUA e globais tendem a cair cerca de 35%. Mas, como a próxima recessão será estagflacionária e acompanhada por uma crise financeira, a quebra nos mercados de ações pode estar próxima de 50%”.