Para fundador da Creditas, Brasil oferece grandes oportunidades apesar do cenário difícil de curto prazo

“O brasileiro, em geral, tem pouca dívida, mas ela é muito cara e tem prazo muito curto”, diz Sergio Furio

“Deixamos de ser só uma fintech e passamos a olhar a jornada do cliente como um todo”, diz Furio — Foto: Silvia Zamboni/Valor

O espanhol Sergio Furio nunca havia pisado no Brasil quando chegou por aqui uma década atrás. Longe dos clichês que costumam povoar o imaginário dos estrangeiros sobre o país, como futebol e samba, o que o atraiu para estas bandas foi outro produto típico da terra: os juros altos do crédito bancário. “O brasileiro, em geral, tem pouca dívida, mas ela é muito cara e tem prazo muito curto”, afirma.

Com essa tese na cabeça, algum dinheiro e poucos contatos, Furio trocou Nova York por São Paulo em 2012 para fundar o que hoje é a Creditas – a principal fintech de crédito puro-sangue do mercado brasileiro. Até então, sua única conexão com o país era a namorada (e atual esposa), Silvia, com quem então trabalhava na consultoria BCG nos Estados Unidos. “Ela achou que eu estava maluco, mas ela já sabia que eu era maluco, então foi meio que natural”, conta, num português perfeito, mas que não esconde a origem.

Loucura maior do que empreender num país desconhecido era escolher para isso justamente o mercado de crédito brasileiro, concentrado em cinco grandes bancos. O cenário não parecia muito promissor. Naquele momento, sequer existia o termo fintech e a competição digital era apenas uma promessa. Para completar, os bancos estrangeiros que atuavam no varejo começavam a jogar a toalha e, um a um, estavam indo embora porque não tinham uma rede de agências ampla o suficiente para concorrer com os rivais locais.

Mesmo assim, Furio achou que havia um caminho. Não para bater de frente com as instituições financeiras tradicionais, é claro, mas uma pequena fresta por onde poderia entrar – o empréstimo pessoal com garantia, modalidade pouco explorada pelos bancos no mercado brasileiro.

O garçom chega para anotar os pedidos. São 13h30, e o restaurante Pobre Juan está coalhado de executivos de empresas do circuito Vila Olímpia/Itaim. Todos vão na sugestão da casa, bife ancho ao ponto. Como acompanhamentos, salada, legumes assados, arroz biro-biro e batatas. Também participam do almoço Vicente Rezende, vice-presidente de marketing da Creditas, e o CEO da Hill + Knowlton Strategies para a América Latina, Ricardo Cesar.

Para Furio, os juros bancários no Brasil são altos não só porque a taxa básica da economia sempre foi alta. Não é apenas uma questão de custo de funding nem de inadimplência, mas um reflexo da estrutura de distribuição de crédito ineficiente – até pouco tempo atrás, muito dependente de agências – e da ausência de linhas com colateral, ou garantia. “As pessoas pegam tanto crédito pessoal e cartão de crédito no Brasil que isso cria uma pressão no orçamento sem estarem necessariamente muito endividadas”, afirma.

Diante desse diagnóstico, concluiu que o crédito em que o tomador dava seu imóvel como garantia de pagamento tinha boas chances de decolar no Brasil, como acontecera nos Estados Unidos e na Europa. O produto, conhecido no setor financeiro como “home equity”, era pouco difundido no mercado local e raramente oferecido pelos bancos. Com ele, é possível obter empréstimos de prazos longos – até 20 anos – a taxas bem menores que a média do mercado, já que o credor pode ficar com o ativo em caso de inadimplência.

A linha ainda representa uma fração do mercado de crédito no país, mas vem crescendo. No fim de abril, o saldo de empréstimos com garantia imobiliária era de R$ 14,2 bilhões, com aumento de 20% em um ano, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

A ideia de desbravar o mercado brasileiro surgiu e começou a ser esboçada no feriado de Ação de Graças de 2011. Furio havia ido de Nova York para a casa dos tios de um amigo, Pau Sabria, e durante a viagem comentou que queria empreender. Àquela altura, trabalhando na BCG, o então consultor havia participado de um processo de transformação tecnológica do banco espanhol BBVA, mas estava frustrado com o resultado. Era tudo tão lento que, entre o projeto ser aprovado e executado, o mundo mudou, o “mobile” roubou a cena, e a reorganização já nasceu velha. “Aquilo me marcou muito”, diz.

Meio a sério, meio de brincadeira, os dois amigos começaram a pesquisar todo tipo de negócio em busca da tal virada de mesa. Até que se depararam com o modelo da Bankrate, um marketplace de serviços financeiros onde os clientes podiam comparar as condições de empréstimos em diversas instituições financeiras. Por que não fazer algo desse tipo para o “home equity”? E que tal um mercado como o brasileiro, com juros altos? Furio então ligou para Silvia, que também havia ido viajar com uma amiga, para ouvir a opinião dela. Quatro meses mais tarde, o casal desembarcava no Brasil para começar uma vida nova.

Hoje com 45 anos, Furio nasceu em Sagunto, cidade da região de Valência, e na adolescência se mudou com a família para Barcelona. Lá, cursou administração e começou a trabalhar com marketing na Danone. Mas o gosto pelo mercado financeiro falou mais alto, e ele acabou indo para o Deutsche Bank. Logo veio o estouro da bolha das chamadas empresas pontocom, no início dos anos 2000 – na primeira crise dos setores de tecnologia e financeiro com a qual se depararia na vida. “O mundo de banco de investimento mudou muito naquele momento, mas tive sorte.”

Cinco anos depois, Furio foi para a BCG, mas sem abandonar o setor financeiro. Na consultoria, continuou atuando com bancos, primeiro na Espanha, depois em Nova York. A ida para os Estados Unidos, em novembro de 2008, foi outro teste de fogo. O Lehman Brothers havia quebrado dois meses antes, derrubando com ele o castelo de cartas dos títulos hipotecários americanos, o que disparou a crise financeira global. “Cheguei a Nova York com a cidade meio caindo aos pedaços”, lembra.

Essa época também marcou a primeira incursão de Furio no mundo das startups. O amigo Sabria surgiu com uma boa ideia: montou uma plataforma para que os convidados dos casamentos pudessem mandar aos noivos as fotos que tiravam com seus celulares nas festas de casamento. Era 2009, e aquilo era inédito. “Acabei botando um cheque de US$ 50 mil nele. Foi meu primeiro investimento-anjo. Um ano depois, o Facebook estava bombando com isso e já não fazia nenhum sentido”, recorda, achando graça.

Apesar disso, a empresa, batizada de Olapic, acabou encontrando outro nicho e passou a oferecer “widgets” para jornais e empresas de e-commerce que permitiam que as pessoas enviassem suas próprias imagens de um acontecimento ou de um produto que haviam comprado. Foi vendida em 2016 por US$ 130 milhões.

O contato inicial com o empreendedorismo ajudou Furio a mergulhar no mundo das startups, e essa experiência veio com ele na bagagem para o Brasil. Já em São Paulo, um pequeno time formado pelo ex-consultor, dois desenvolvedores e dois jornalistas deu vida à então BankFacil. A empresa surgiu como um comparador de taxas de crédito com garantia imobiliária e de outras linhas, como cartões. Os redatores produziam conteúdo de educação financeira para gerar tráfego para a plataforma, e assim monetizavam o negócio.

“A gente rodava com dinheiro nosso, mínima grana possível. O CNPJ só abiu um ano depois. Eu não tinha conta, não tinha nem visto ainda. Sacava com o cartão americano no caixa eletrônico e pagava os funcionários em dinheiro”, afirma. “Teve um mês que deu pau no cartão e a Silvia me emprestou o dinheiro. Dei a ela um papelzinho manuscrito, e a gente brinca que era uma nota conversível. Com isso, a Silvia passou a ser acionista.”

Em 2013, a fintech integrou a Grana Aqui, uma empresa que fazia geração de indicações de potenciais clientes para um produto de “home equity”. Furio pegou o dinheiro da venda de seu apartamento em Nova York, reuniu alguns amigos e convenceu um pequeno grupo de investidores a colocar R$ 1,5 milhão no negócio. Foi o primeiro aporte realizado na BankFacil. “Eu tinha um pouco de medo de usar grana deles”, confessa.

Oferecer empréstimos próprios ainda não estava no radar. Isso só aconteceu quase dois anos mais tarde, quando a gestora de recursos Empirica acenou com uma parceria: a fintech montaria uma operação para originar o crédito e a gestora se encarregaria de captar recursos de investidores no mercado de capitais para aplicar nessas operações. Uma nova rodada, desta vez liderada pela gestora Redpoint Ventures, deu impulso ao projeto. “Foi o ponto de virada”, afirma.

Enquanto a empresa se desenvolvia, a família crescia. Quase na mesma época, em março de 2015, nasceu Julia, a primeira filha. Luisa chegou dois anos depois e, agora, Rafael é esperado para os próximos dias.

Na nova fase, o nome BankFacil ficou para trás. A fintech passou a se chamar Creditas e as frentes de negócios foram, aos poucos, ampliadas. Depois do “home equity”, veio o crédito com garantia de veículos, o que permitia alcançar uma clientela maior. Mas o salto maior veio em 2019, quando a companhia atraiu US$ 231 milhões numa rodada de investimentos liderada pelo Softbank. “A chegada deles [ao Brasil] mudou a ambição de todos nós [fintechs]. Até então, só o Nubank tinha sonhos relativamente grandes. Ninguém pensava que alguém colocaria US$ 200 milhões numa empresa no Brasil”, afirma. “Aí, a gente fala: cara, o sonho é maior.”

Com o caixa recheado, a Creditas passou a investir em novas áreas. Entrou no financiamento para compra de veículos – estreando num produto em que a concorrência dos grandes bancos era forte – e comprou a Creditoo, fintech de empréstimos consignados a empresas do setor privado. Ao mesmo tempo, acelerava o crescimento das linhas de “home equity” e crédito com garantia de veículo.

Furio chegou a pensar em lançar uma conta digital, como a maioria das fintechs vinha fazendo, mas resistiu à tentação. Sentiu que não teria nenhum diferencial se o fizesse. Também concluiu que a Creditas estava ficando parecida demais com um banco sem que tivesse a escala e o funding barato de um deles. Ou seja, não havia nenhuma vantagem nisso. Era hora de outra virada.

A companhia se reorganizou em três verticais – casa, carro e salário – e a equipe se pôs a pensar em serviços financeiros e não financeiros que poderia desenvolver em torno delas. Assim, passou a oferecer assessoria para reformas (aproveitando os clientes que tomam crédito para fazer alguma obra em casa), montou concessionárias e um megacentro de reparos de veículos e fez um aporte na fabricante de motos elétricas Voltz, entre outras iniciativas. “Deixamos de ser só uma fintech e passamos a olhar a jornada do cliente como um todo. O problema dele não é só ter acesso ao dinheiro, mas fazer a gestão do ativo. Trocar um carro, reformar uma casa e por aí vai.”

A Creditas originou quase R$ 3 bilhões em empréstimos em 2021. As concessões do conjunto das fintechs de crédito somaram R$ 12,8 bilhões no ano passado, segundo pesquisa da PwC e da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), o que dá uma ideia da participação de mercado da companhia.

Em janeiro deste ano, quando a bolha das empresas de tecnologia já começava a murchar, a Creditas foi avaliada em US$ 4,8 bilhões numa rodada de captação em que levantou US$ 260 milhões e atraiu para sua base de acionistas a americana Fidelity Investments como um novo acionista relevante. A lista de investidores estrelados inclui nomes como Advent, QED Investors, Kaszek Ventures, Wellington Management e Softbank, entre outros.

Com quase 4 mil funcionários, receita anual triplicando e expansão para o México, a fintech é candidata natural a fazer um IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês), e Furio reconhece que tem interesse em ir à bolsa. Ele diz, no entanto, que o momento para isso não está definido.

Aventurar-se no mercado agora parece, de fato, improvável. O aumento das taxas de juros nos Estados Unidos aumentou o custo de funding e encurtou a paciência de investidores com empresas tecnológicas e crescimento acelerado que, como a Creditas, ainda não dão lucro (em 2021, ela teve prejuízo de R$ 353,4 milhões). “Isso significa que as empresas vão ter que reduzir o ritmo de crescimento porque não vão encontrar mais tanto capital. É normal e temos que ser responsáveis”, afirma.

O mercado passou por um forte estresse no início da pandemia, mas a digitalização impulsionada pelas medidas de isolamento e a ampla oferta de capital barato fizeram com que logo os planos de expansão das fintechs fossem retomados. Agora, Furio vê um cenário diferente. Depois de multiplicar a receita por três no ano passado, ele diz que agora é hora de tirar o pé do acelerador. “Vou tomar um pouquinho mais de tempo, mas vou reduzir os riscos, ter menos pressão. É um ano em que a tônica tem que ser eficiência, produtividade.”

Olhando à frente, o empreendedor afirma que ainda há muito a explorar na intersecção entre os setores financeiro e não financeiro. O mercado potencial vislumbrado pela Creditas é estimado em R$ 350 bilhões, enquanto a receita da companhia foi de R$ 870 milhões no ano passado. “Tem muita coisa para fazer”, diz. “O Mercado Livre veio do e-commerce e entrou em banco, pagamentos, crédito. A gente vem do lado contrário e acha que tem uma boa via de crescimento como um business não bancário.”

Para Furio, o mercado brasileiro oferece grandes oportunidades, apesar do cenário difícil de curto prazo, com inflação, juros altos e crescimento fraco. “O que mais gosto do Brasil é a ‘vibe’. É um mercado muito vibrante, acontece muita coisa muito rápido. Está sempre com a adrenalina no teto”, afirma, entre um gole de café e outro. Como bônus, ele diz que há uma certa “mística do gringo” no país, onde muitas vezes as pessoas acham que tudo que vem de fora é melhor. “E não é assim, para nada.”

Adepto do triatlo, costuma aproveitar o tempo livre para correr e pedalar pela cidade. Logo que chegou ao Brasil, a busca por lugares onde pudesse correr distâncias longas o levou ao que descreve como “uma das melhores cenas” que teve por aqui. Furio viu a ciclovia que percorre a Marginal Pinheiros, em São Paulo, e pensou ter encontrado o lugar perfeito – sem saber que ali era exclusivo para bicicletas. “A polícia me parou e me levou. O pessoal no trem ia gritando para mim ‘eeee’ e falando coisas que eu não entendia. Que vergonha!”

Neste momento, Furio está disposto a usar a mística do gringo para retomar uma antiga paixão. “Vou começar a andar de moto de novo”, anuncia. “Minha família sempre adorou motos, sempre tive moto. Quando conheci a Silvia, ela me proibiu. Mas, com o investimento na Voltz, agora vai ter que ser.”

Por Talita Moreira — De São Paulo