Crise no turismo estimula negócios e põe ViajaNet à venda

Agência de viagens on-line movimentou R$ 1 bilhão em 2019, antes da pandemia

O estresse provocado pela ômicron suspendeu a temporada de cruzeiros marítimos até 4 de fevereiro, mas há risco dela ser encerrada de vez caso a recomendação da Anvisa seja aceita pelo governo — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

A crise provocada pela pandemia deixou em xeque o negócio de agências de viagens, estimulando operações de compra e venda de companhias. Depois da Flytour e da Queensberry terem sido compradas pela mineira BeFly, uma outra empresa importante do setor está à venda: a ViajaNet, agência de turismo on-line que, em 2019, movimentou R$ 1 bilhão.

Entre os interessados, segundo o Valor apurou, estão grupos ligados ao turismo, como a própria BeFly, controlada pelo empresário Marcelo Cohen, e a Decolar. Há também grandes varejistas, donas de marketplaces (shopping centers on-line) na lista de possíveis compradores. A ViajaNet já tem parcerias fortes para vendas de viagens nesse tipo de plataforma e haveria bastante sinergia entre os negócios. O Magazine Luiza e o Mercado Livre são duas das empresas parceiras da ViajaNet e também estão no radar como potenciais compradoras.

A crise tem dificultado o negócio de agências de turismo no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional) apontam que as empresas associadas (cerca de 2,2 mil em todo o Brasil) registraram faturamento de R$ 33,9 bilhões em 2019, número que caiu para R$ 14 bilhões em 2020. Os dados do ano passado ainda não foram fechados.

Em outubro de 2021, a ViajaNet chegou a tentar uma captação de US$ 10 milhões com novos investidores, mas o aporte acabou sendo feito pelos fundos de “private equity” que já investem na empresa, segundo fontes. Entre os acionistas atuais da ViajaNet estão a Redpoint Eventures, Pinnacle Ventures e General Catalyst. Uma outra captação havia sido feita com os acionistas em 2020, no valor de US$ 6,5 milhões.

Fontes explicaram que o plano por trás da venda da ViajaNet é conseguir capitalizar a empresa para quando o mercado de turismo voltar ao normal. Agências precisam ter um caixa robusto para bancar a operação. Esse tipo de empresa, primeiro, vende e paga o pacote de viagens (para companhias aéreas, hotéis etc); depois começam a receber do turista.

O cenário traçado pela ViajaNet, e outras empresas do setor, é que passada a crise envolvendo a ômicron, e diante dos elevados índices de vacinação no país, a recuperação do turismo será forte e rápida.

O problema é conseguir se manter de pé enquanto a recuperação não chega. O estresse provocado pela ômicron suspendeu uma retomada importante e tem trazido um trabalho adicional a essas empresas, como administrar cancelamentos e remarcações. O próprio mercado de cruzeiros, diante da suspensão da atual temporada até o dia 4 de fevereiro.

Como se não bastasse a pandemia, muitas empresas do setor precisaram socorrer clientes diante da suspensão de voos da Itapemirim Transportes Aéreos (ITA), do grupo rodoviário Itapemirim (em recuperação judicial). A ITA iniciou suas operações no final de junho do ano passado, mas parou de voar no dia 17 de dezembro.

Esse desalinhamento do mercado favoreceu negociações. Em setembro do ano passado, a varejista de móveis e decoração Westwing anunciou ao mercado que havia assinado um memorando de entendimentos para a aquisição da Zarpo Viagens. Em dezembro, entretanto, a varejista encerrou as negociações já que os dois lados não conseguiram um consenso sobre questões de contrato e de governança previstos na proposta.

A Flytour, que foi comprada em outubro pela BeFly por R$ 500 milhões, conseguiu em julho do ano passado a aprovação de credores financeiros para um plano de recuperação extrajudicial. O processo envolve nove instituições, entre Bradesco, Banco do Brasil e Itaú, além de fundos de investimentos. O documento informava dívida de R$ 142 milhões – a ser assumida pelo novo dono.

A Queensberry, especializada em viagens de luxo, entrou em recuperação judicial em junho de 2020 e teve o plano aprovado por credores em abril de 2021. O projeto de reestruturação da companhia envolve o reperfilamento de dívidas na casa de R$ 50 milhões. Conforme informou o Valor na edição de quarta-feira, a empresa foi comprada também pela BeFly. O grupo sinalizou em entrevista que tem outras seis agências em negociação para aquisição, além de 12 startups.

A BeFly disse que embora sua estratégia esteja baseada em aquisições, “não existe nenhuma conversa com a ViajaNet”. Mercado Livre, Decolar, Magazine Luiza e ViajaNet não quiseram comentar.


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