Silêncio do Copom começa com dúvidas no mercado

Analistas econômicos estão praticamente certos de que colegiado entregará alta de 1,5 ponto na próxima semana, mas passo seguinte levanta debate

Sede do Banco Central, em Brasília. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central entra hoje no período de silêncio, em que suspende a comunicação com o mercado, sem esclarecer sua sinalização de médio prazo para a taxa básica de juros.

Para a reunião da semana que vem, os analistas econômicos estão praticamente certos de que o colegiado vai entregar a alta prometida de 1,5 ponto percentual na Selic, dos atuais 9,25% ao ano para 10,75% ao ano. A grande dúvida é o passo seguinte, ou seja, se o colegiado vai sinalizar a continuidade de uma linha mais conservadora ou se vai suavizar.

Muitos no mercado formaram a sua opinião no lado mais moderado com base no que teria dito o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra Fernandes, em reuniões fechadas com economistas do setor privado. A leitura dominante é que Serra pendeu para o lado moderado, indicando que poderá deixar em aberto a decisão de março ou sinalizar claramente um passo menos intenso de aperto.

Há certa controvérsia, porém, sobre essa suposta sinalização de Serra, por isso alguns esperavam um pronunciamento antes do período de silêncio, o que acabou não ocorrendo.

Alguns analistas do mercado ponderam que o diretor do BC tem soado, já há alguns meses, como mais “dove”, ou seja, menos inclinado ao aperto monetário. Outros argumentam que, depois de levar o juro para o patamar de dois dígitos, seria natural que o Banco Central desacelerasse o ciclo de aperto monetário.

O mercado já previa desaceleração na alta de juro em março, mas pequena. As opções de Copom para março, negociadas na B3, apontavam uma chance de 62% de uma alta de 1,25 ponto, nos dados de 12 de janeiro; agora, essa chance é de 73%. Já a chance de aperto de 1,5 ponto caiu de 36% para 25% no período.

Também há dúvida sobre o que realmente foi sinalizado. Serra já adotou, durante esse ciclo de alta de juros, um tom pendendo para o lado mais otimista em pronunciamentos públicos, mas, na reunião, a decisão final, unânime, foi conservadora.

Dessa vez, pesa do lado “dove” o fato de o diretor de política econômica do BC, Fabio Kanczuk, ter deixado o cargo em 1º de janeiro. Nas últimas reuniões, ele vinha se postando na vertente mais conservadora do colegiado. Seu sucessor, Diogo Guillen, que também tem credenciais conservadoras, ainda aguarda sabatina no Senado.

Contribuiu para a leitura de uma sinalização mais moderada para março uma declaração, na semana passada, do presidente do BC, Roberto Campos Neto, de que o pico da inflação teria ficado para trás, num evento do Santander. No entanto, não é a primeira vez que a virada na inflação parece próxima, mas não ocorre. Além disso, o BC tem tirado o peso da inflação de curto prazo nas suas decisões. O foco tem sido sobretudo a evolução dos preços de bens industriais.

Essas dúvidas sobre a sinalização do Copom ocorrem em um momento de muita incerteza sobre o cenário fiscal e internacional. Os movimentos dentro do governo para cortar impostos de combustíveis poderão dar um alívio aos preços no curto prazo, mas podem ter implicações negativas para a trajetória da inflação nos próximos anos. O ritmo de retirada de estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano) é outra incerteza.

O Banco Central deixou em aberto a trajetória de juros que poderia adotar a partir de março. Em dezembro, o colegiado havia dito que poderia cumprir as metas de inflação se o ciclo de aperto monetário fosse “mais contracionista do que o utilizado no cenário básico por todo o horizonte relevante”.

O cenário básico pressupunha, então, levar a taxa básica para um pico de 11,75% ao ano em maio. O que não ficou claro, na comunicação, é se a sinalização estava indicando levar a Selic para além de 11,75% ou se a intenção era manter juros médios mais altos durante um período mais prolongado de tempo.

Questionados diretamente sobre isso, Campos Neto e Kanczuk disseram na divulgação do Relatório de Inflação de dezembro que o colegiado havia propositalmente decidido não esclarecer esse ponto, numa indicação de que a estratégia não estava definida.


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