Economia patinando, inflação em alta, Bolsa em queda. Como ajustar a carteira de investimentos para 2022

Ainda assim, boas oportunidades estão surgindo; saiba no que investir

Rua de comércio no centro do Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Apesar de cada dia mais perto, 2022 ainda é um grande enigma no que diz respeito às perspectivas para a economia (não apenas, claro). O desfecho da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Precatórios, a inflação, a atividade econômica e as eleições presidenciais ainda podem chacoalhar as previsões para o próximo ano. Mesmo assim, boas oportunidades de investimentos estão surgindo. Como rearranjar a carteira de investimentos para aproveitar?

Segundo especialistas, é hora de aproveitar os títulos do Tesouro Nacional. Para eles, o Tesouro Direto é obrigatório na carteira de todos os investidores, independente do perfil de risco.

“O mais simples é comprar um título prefixado curto, como o para 2024 que paga 12,05% ao ano. Se o investidor quiser arriscar um pouco mais, há o de 2026, que paga 11,91%”, afirma Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo —para ter a rentabilidade contratada, o investidor precisa carregar o título do Tesouro Direto até o seu vencimento.

Tais títulos de renda fixa estão atrativos no momento por terem uma rentabilidade superior à Selic. A mediana das previsões do mercado apontam que a taxa básica de juros encerrará 2021 a 9,25% e 2022, a 11%. Em 2023, ela cairia para 7,75% e em 2024, para 7%.

“A Selic provavelmente vai chegar só até 12% e vai cair. Não vai ficar esse período todo em 12%. O juro de equilíbrio no Brasil é menor que isso”, diz Knudsen.

O risco dos títulos prefixados é a mudança brusca de cenário no meio do caminho. Se a inflação acelerar, o Banco Central pode ter que subir ainda mais a Selic.

A recomendação unânime dos especialistas é o Tesouro IPCA+, que acompanha a inflação. De acordo com Knudsen, todas os títulos até 2035 estão com taxas atrativas. Dessa forma, a escolha do título deve ser feita considerando o objetivo pessoal do investidor.

“A parte mais intermediária da curva, dos títulos com vencimento entre 2026 e 2030, está interessante. O investidor não deve alongar mais do que isso”, afirma Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Investimentos.

Morelli também recomenda títulos de crédito com a remuneração atrelada ao IPCA e à Selic, como LCI (letra de crédito imobiliário), LCA (letra de crédito do agronegócio), CRI (certificado de recebíveis imobiliários), CRA (certificado de recebíveis do agronegócio), LF (letra financeira) e debêntures.

Para uma certeira diversificada, fundos de renda fixa que investem nestes ativos podem ser uma boa opção. “Tais fundos requerem atenção para o que há dentro dele. Preferimos os de crédito sem ativos prefixados porque a Selic vai subir mais”, diz Morelli.

Já as ações brasileiras inspiram desconfiança. Apenas os investidores que topam e podem correr risco devem investir na Bolsa.

“A Bolsa está barata, mas pode piorar. Durante eleição, ela fica mais volátil ainda. É algo que requer estômago”, afirma Knudsen da Vitreo. Ele recomenda combinar o investimento em empresas brasileiras com ativos de proteção, como empresas estrangeiras e dólar.

“O problema da nossa Bolsa é a combinação de eleição e risco fiscal. O investidor deve buscar fundos de ações que investem em ativos internacionais, geridos por estrangeiros, como os do JP Morgan e Morgan Stanley”, diz Morelli da Davos —algumas corretoras brasileiras trazem fundos estrangeiros em seu cardápio. A preferência do estrategista no momento é por ações americanas e europeias. “Mesmo mais caras, são mais atrativas.” 

Para os destemidos, há a opção de se investir em criptomoedas. “É algo para o perfil super arriscado dada a alta volatilidade dos ativos. Se [o investidor] entender como funciona e achar que o investimento naquela moeda faz sentido, pode alocar uma parte pequena da carteira”, afirma Morelli.

Entenda o cenário que se desenha para 2022

Os últimos indicadores econômicos vieram tão abaixo do esperado que provocaram revisões nas previsões macroeconômicas do mercado. Agora, se discute a queda do PIB (Produto Interno Bruto) em 2022.

No início do ano, porém, o cenário era outro. Era esperado um crescimento de 2,5% do PIB no próximo ano, após uma alta de 3,5% em 2021. Com o avanço da vacinação a expectativa para este ano foi melhorando e a para o próximo, reduzida, dada o carrego estatístico.

Além disso, o contorno do governo ao teto fiscal para bancar o Auxílio Brasil piorou a situação. Com o Brasil gastando mais do que o previsto sem cortar despesas ou aumentar a arrecadação, cobra-se mais caro para emprestar dinheiro para o governo, elevando as taxas de juros futuros e encarecendo o custo para o Estado se financiar. Como efeito, os títulos do Tesouro ficam mais baratos e mais rentáveis.

Os juros também sobem para fazer frente à inflação, que não dá sinais de fraqueza. As previsões para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) tem aumentado semana após semana. No momento, se espera uma alta nos preços de 9,77% este ano e de 4,79% no próximo.

Para o PIB, a atual previsão dos analistas é de crescimento de 4,88% neste ano e de 0,93% em 2022. Estes números são a mediana das projeções do mercado, coletadas pela pesquisa semanal Focus. Olhando para as grandes instituições financeiras, o cenário pode ser ainda pior.

O Itaú Unibanco e o Credit Suisse recentemente revisaram suas projeções e passaram a prever queda de 0,5% no PIB do ano que vem.

“A economia está começando a desacelerar. A produção industrial e o varejo estão caindo”, afirma Luka Machado Barbosa, economista do Itaú.

Segundo ele, a inflação, a queda no preço das commodities e o ciclo de aumento de juros são os principais vilões para a desaceleração da atividade.

“Em 2022, o Brasil vai ficar para trás, enquanto a média de crescimento da economia mundial está entre 4% e 5%”, diz Fernando Fix, sócio da Hieron Gestão de Patrimônio. O economista projeta uma queda de 0,3% no PIB do ano que vem.

Há os que veem a possibilidade de o Auxílio Brasil mais gordo turbinar a atividade econômica. “É prematuro prever um PIB menor que 1%. A política fiscal vai ser mais expansionista do que esperado”, diz Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group.

“O mercado exagerou no ano que vem e não precificou o Auxílio Brasil, que pode ter um efeito de curto prazo maior. No médio prazo, passando a eleição, o fiscal cobra seu preço, com juros e inflação mais altos”, completa Miraglia.


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