Quando a alta dos juros vai derrubar a inflação?

Economistas avaliam que os efeitos podem começar a ser sentidos no primeiro trimestre de 2022, mas mostram preocupação com a pressão do câmbio em ano eleitoral

Foto: Custódio Coimbra/Agência O Globo

Pontos-chave

  • A perspectiva é de uma inflação ainda fora da meta em 2022
  • A tendência é que o controle dos preços seja alcançado apenas em 2023

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) subiu na quarta-feira (27) a taxa Selic em 1,5 ponto percentual, para 7,75% ao ano, e já avisou que vai elevar em mais 1,5 ponto na reunião de dezembro, fazendo com que os juros básicos da economia brasileira encerrem 2021 em 9,25% ao ano – maior patamar desde setembro de 2017.

A decisão do colegiado foi motivada pela persistência da alta da inflação e o aumento nas últimas semanas das incertezas relacionadas à política fiscal do governo federal. Agora, com a aceleração do ritmo do aperto monetário, quando os preços aos consumidores devem começar a cair?

O economista Matheus Peçanha, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGVIbre), responde que as decisões do Copom “tradicionalmente costumam fazer efeito de seis a nove meses depois”. “Poderemos ter já no primeiro trimestre de 2022 um recuo da inflação como resposta aos ajustes iniciais do Banco Central realizados no primeiro semestre de 2021”, diz.

O pesquisador avalia que ainda será um processo longo. “A perspectiva é que a inflação termine 2022 perto do teto estipulado pelo BC, que é de 5%”, comenta. “A volta ao centro da meta só será possível mesmo em 2023, já incorporando essa atuação mais agressiva”, acrescenta.

Álvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais, também considera “muito difícil” um retorno da inflação para 3,5% no ano que vem. “A não ser que o Banco Central faça aumentos mais poderosos. Mas a percepção é que a autoridade monetária já está olhando para 2023”, diz.

Matheus Peçanha vê nos próximos meses uma trégua de alguns componentes que estão pesando na inflação. “A redução do risco de uma crise hídrica pode começar a aliviar o preço da energia”, diz. O economista da FGV alerta, no entanto, para a pressão do câmbio. “O dólar é uma chave muito importante para conter o avanço dos preços. Até por isso o Banco Central entende que a subida dos juros pode ser uma forma também de buscar uma estabilidade da moeda americana”, acrescenta.

A explicação é que investidores estrangeiros podem tomar empréstimos em países com juros menores para aplicar no Brasil aproveitando a Selic elevada. A operação, conhecida como “carry trade”, ajudaria a valorizar o real – ou que a moeda não se desvalorize tanto frente ao dólar.

O economista-chefe do Modalmais também mostra uma preocupação com o câmbio em 2022. “Vamos entrar em um ano eleitoral e isso normalmente traz volatilidade”, afirma. “Essa instabilidade o BC não tem como controlar, o que torna o processo de baixar a inflação ainda mais desafiador”, completa Álvaro Bandeira.


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