‘Open finance’ entra em nova etapa

Cronograma do BC prevê início de compartilhamento de investimentos no fim do mês

Fachada do Banco Central do Brasil (Foto: Jorge William/Agência O Globo)

Quando fechou a aquisição do consolidador de carteiras Kinvo, no ano passado, o BTG já sinalizava a intenção de preparar o terreno para o “open finance”, o empurrão regulatório que dará abertura para o cliente compartilhar seus dados financeiros com as instituições que bem entender. A XP já tinha feito a compra do Fliper com o mesmo propósito, que integrou ao portal de notícias InfoMoney, criando o IM+. Entre os grandes bancos de varejo, às voltas com as demandas anteriores do “open banking”, o Itaú parece ser o mais adiantado em investimentos, tendo desenvolvido o próprio agregador dentro do Íon, a sua corretora repaginada.

Desde dezembro, as instituições começaram a dividir progressivamente, no sistema, dados sobre produtos disponíveis, e a previsão era que no fim de maio as informações dos clientes que deram aval para o compartilhamento também fossem abertos. Mas executivos das instituições financeiras esperavam o adiamento da nova etapa pelo Banco Central (BC).

“Não há necessidade de revisão. O cronograma para o desenvolvimento dos produtos e das aplicações, bem como o próprio compartilhamento das informações, estão previstos em norma já publicada e agora dependem do desenvolvimento do mercado”, afirma o BC em nota.

Instituições têm se unido a plataformas de consolidação para ganhar atalhos na tecnologia.

Esse é um desafio que antes de tudo é tecnológico. “Não é só a divulgação da informação, é a padronização também, esse é o grande pulo do gato, o cliente precisa conseguir comparar o que tem”, diz Luiz Henrique Carvalho, gerente de representação de distribuição da Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos.

Dentro da entidade, um grupo de trabalho fez análise campo a campo sobre as especificidades das informações compartilháveis de produtos diversos, como CDBs, Letras Financeiras e ações, encaminhando-as ao supervisor bancário no início do mês, para a revalidação. “A postura do BC é olhar a questão mais tecnológica mesmo, fasear porque sabe que os impactos são grandes. O BC e o mercado estão aprendendo a implementar o open finance. As etapas iniciais foram bem complexas, ainda não estão inteiramente abertas pelas instituições, como crédito, por exemplo”, conta Carvalho. “É um pouco diferente, porque em investimentos, a abertura de produtos em prateleira, o mercado já divulga isso.”

Enquanto há modalidades mais fáceis de serem compartilhadas, como fundos, com informações públicas já tratadas pelos administradores, para outras há pontos críticos. Para ações há a cotação diária, mas não o histórico de compra, o preço de entrada, informação essencial para uma boa recomendação. As aplicações em CDBs são outro obstáculo, já que as negociações são fechadas bilateralmente. E tudo tem que ser capturado 12 meses para trás, descreve.

O modelo de consentimento usado nas primeiras fase do open finance deve ser aproveitado, incluindo a autorização para o item investimentos. Só que nesse espaço há outros atores envolvidos, como os assessores de investimentos.

“É preciso olhar um pouco como atua, porque ele é um preposto da instituição financeira. Quem adere ao open finance é a instituição, mas, muito provavelmente, o cliente vai chegar pelo assessor: ‘quero abrir minhas informações para a instituição financeira X’. No site, vai ter algum lugar para dar o consentimento.” Mas quão longe vão as autorizações?

Num termo para uso do BTG+, o braço de varejo do BTG Pactual, ao dar o aceite o cliente oferece “seu expresso consentimento” para o compartilhamento dos dados da conta, com descrição de lançamentos com empresas do grupo, inclusive, “caso você tenha relacionamento com escritórios de agentes autônomos de investimentos e/ou correspondentes bancários vinculados ao BTG Pactual”.

O banco acrescenta que os dados compreendem ainda condições operacionais de produtos de crédito e seguros, tais como taxas, prazo de liquidação, valores de contratação, cobertura de seguros, planos de benefício e/ou relacionamento. “Usamos os seus dados para melhorar a qualidade dos nossos serviços através da personalização do serviço prestado, personalização da oferta, melhoria de atendimento dentro da empresa do grupo BTG e seus prepostos.” O item investimento ainda não está contemplado, mas dá uma ideia do tipo de autorização que o cliente vai encontrar.

No termo de adesão do Íon, o investidor autoriza o “compartilhamento com parceiros estratégicos, inclusive para oferta, contratação e uso de produtos e serviços destes, ou ainda desenvolvidos em conjunto ou que possam ter um benefício para você”. E ainda: “com prestadores de serviços, fornecedores, corretoras, inclusive de valores e seguros, e correspondentes contratados pelo Itaú Unibanco para o desenvolvimento de nossas atividades”.

O que está por trás de modelos desse tipo é a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), anterior ao open finance. As instituições financeiras já pedem autorização para dividir informações entre empresas do conglomerado, até para o cliente poder acessar, por exemplo, o saldo de conta corrente e a posição de investimentos na corretora num único aplicativo, explica Carvalho. “A troca de informações entre empresas do grupo é um nível mais tranquilo, mas por regras de LGPD tem que pedir o consentimento.”

Mas, quando se extrapola o nível de autorizações para o open finance, se amplia o uso. “Pode ser que receba informação de investimento e se use para oferecer crédito e, com isso, reduzir o custo”, exemplifica Carvalho. Ele acha que as regras do BC já são suficientemente boas para normatizar os termos do consentimento quando abarcar investimentos, e que a autorregulação da Anbima não deve disciplinar isso. A autorização é por um período determinado.

Na XP, que conta com quase 10 mil assessores de investimentos plugados à plataforma, já há uma estratégia de consentimento planejada. A administração espera o melhor momento para consumir/compartilhar as informações com foco no relacionamento, diz Leonardo Medeiros, executivo responsável por open banking. “No fim, os dados que conseguir disponibilizar, nossa inteligência interna, são algo que os assessores sempre quiseram, vão amar ter, porque vão conhecer ainda mais o cliente”, afirma. “Hoje, a nossa base de assessores, ouso dizer, é a que tem maior confiança do cliente para compartilhar dados, porque já divide os objetivos financeiros da vida dele.”

O executivo diz que tem pontos regulatórios a seguir, como com quem se autoriza o compartilhamento, e que vai escolher se será amplo ou restrito e por um determinado prazo. “O conceito de consentimento não existia, mas já tem um fluxo de forma segura para compartilhar esses dados na rede”, diz Medeiros. “Com o open finance vai ser mais claro e transparente, considero quase nula a possibilidade de ele estar onde não queira.”

O open finance é uma das iniciativas consideradas estratégicas pela XP para potencializar o crescimento do negócio no médio e longo prazo e isso guia os investimentos em infraestrutura tecnológica e o engajamento com os parceiros. “Ainda está em discussão quais serão os dados, a granularidade e frequência, mas o que a gente visiona é colocar inteligência em cima deles em prol do cliente, para oferecer novos serviços e soluções personalizadas”, afirma Medeiros. “Investimento é algo que dentro da XP já conhece muito, mas, conhecendo fora, sem dúvida vai conseguir uma recomendação e serviços ainda melhores.”

Ao plugar o Fliper ao IM+, a XP tem feito testes de integração entre a solução e a plataforma. “Além de consolidação de investimentos, tem o ‘cash flow’ de conta digital, e aperfeiçoamos os acordos bilaterais com outras instituições para deixar a experiência mais fluida e a integração com o conteúdo digital para empoderar a vida financeira do cliente”, diz o executivo. “E em paralelo, a gente não deixou de explorar a sinergia com o resto da XP, no app da Rico ou entre outros negócios do grupo.” Não há ainda um modelo de consentimento para o trânsito das informações coletadas porque a ideia é entrar no jogo quando puder “entregar valor para o cliente”.

A união de consolidadores de investimentos com instituições financeiras é mais do que um casamento de conveniência. Como as empresas puramente tecnológicas não estão no escopo de cobertura do open finance, conectar-se com aquelas que fazem parte do sistema financeiro é uma forma de participarem do sistema aberto.

O Gorila fechou parcerias com Genial, Órama e RB Investimentos, e passou a capturar os dados da XP, por meio de robôs, em janeiro. Enquanto não há uma padronização de regras para abertura dos protocolos de comunicação (API) das instituições financeiras, como o open finance vai disciplinar, ou o investidor coloca as informações manualmente ou a plataforma faz esse rastreamento, chamado de “crawler” ou “scrapper”, sem autorização formal de bancos ou corretoras, apenas com anuência do investidor. As posições na B3, disponíveis na base do Canal Eletrônico do Investidor (CEI), já são capturadas automaticamente.

Em nota, o Itaú informou ter se antecipado à fase de integração de dados sobre investimentos do open finance e, em julho de 2021, colocou no ar o agregador do Íon, a plataforma de investimentos da instituição. “A função possibilita que o usuário veja suas aplicações tanto no Itaú, por meio do aplicativo, quanto em outros bancos e instituições financeiras. Além disso, o Itaú trabalha muito próximo aos órgãos reguladores para cumprir à risca o cronograma determinado pelo Banco Central.”

O Bradesco adotou a tecnologia da Smartbrain como ferramenta de consolidação do patrimônio do público de alta renda no início deste ano e, paralelamente, o fundo de private equity e de venture capital do banco fez um investimento de US$ 10 milhões na plataforma. A solução também passou a ser testada para os demais clientes do grupo e da corretora Ágora.


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