‘O Brasil pode ser um dos primeiros países a baixar a taxa de juros’, diz Nicholas McCarthy, chefe de investimentos do Itaú

McCarthy fala, em entrevista a IF, dos impactos sobre os investimentos, a partir da queda dos juros

Nicholas McCarthy: responsável pela elaboração de estratégias de investimentos recomendadas a todos os clientes investidores do Itaú
Nicholas McCarthy: responsável pela elaboração de estratégias de investimentos recomendadas a todos os clientes investidores do Itaú . Foto: SM2 Estúdio

Desde janeiro, o executivo Nicholas McCarthy é o chefe de investimentos do Itaú. Antes, respondia como chefe de investimentos do ‘private’, o segmento que abarca os clientes com investimentos a partir de R$ 10 milhões. No banco desde 2016, ele começou a carreira no JP Morgan, tornou-se sócio do banco Matrix (que fechou as portas em 2002 e teve entre seus fundadores Luiz Carlos Mendonça de Barros e André Lara Resende) e passou pelo Safra, de 2004 a 2016, sendo responsável pela área de gestão de renda fixa e multimercados.

McCarthy acredita que o Brasil está “ahead of the Fed” [à frente do banco central dos EUA], dado que o Banco Central começou a subir a taxa Selic, como meio de combater a inflação, antes dos EUA. Historicamente, os países emergentes reagiam após a mexida do Fed. “Isso blindou o país [de uma fuga de investimentos e de maior volatilidade].”

Por estar à frente do Fed na política monetária, o Brasil, diz McCarthy, deve colher primeiro os benefícios da alta dos juros – e ver a inflação começar a ceder. “‘O Brasil pode ser um dos primeiros países do mundo a baixar a taxa de juros”, diz. Segundo McCarthy, a queda nos juros pode acontecer antes de 2023.

O Fed anunciou na primeira quarta-feira de maio que elevou a taxa de juros do país em 0,5 ponto percentual, a maior alta em mais de 22 anos. Com isso, a taxa de juros dos EUA passou a ser de 0,75% a 1% ao ano. É a segunda alta consecutiva feita pelo Fed, que iniciou um ciclo de elevação de juros em março deste ano, para debelar a inflação nos EUA, que está no maior nível em mais de 40 anos.

No Brasil, a escalada dos juros começou em março de 2021, um ano antes da subida do Fed. Sendo que, na mesma primeira quarta-feira de maio, o Banco Central elevou a Selic, de 11,75% ao ano para 12,75% ao ano. Foi o décimo aumento consecutivo dos juros.

Leia a seguir trechos editados da entrevista com Nicholas McCarthy.

Dores dos investidores

“Na área de investimentos do banco, a gente sempre está olhando adiante, algo em torno de 18 a 20 meses à frente. As pessoas, por sua vez, tendem a ser mais imediatistas. No Brasil, o investidor ficou, durante muito tempo, acostumado a taxas de juros muito altas e com liquidez diária. Isso criou uma cultura ‘curtoprazista’ [vindo do inglês short-termism].

Depois de um período de inflação controlada, a voltamos ter este problema. Nos últimos 12 meses, vimos uma escalada dos juros [o Copom começou a subir os juros a partir de março de 2021, quando anunciou a Selic de 2,75% ante a taxa anterior de 2%].

Com juros mais altos temos maior volatilidade dos mercados. Neste cenário, o investidor comum, a pessoa física, olha para o horizonte de 30, 60 dias, e fica ansioso. É supernormal.”

Volatilidade

“O que estamos experimentando no Brasil não é muito diferente do que se vê no resto do mundo. A maior parte dos clientes do banco investe em algum ativo. Alguns mais alocados na renda fixa, outros mais expostos à renda variável.

No banco, procuramos definir uma carteira estratégica de investimentos, de médio prazo, de acordo com o perfil do investidor. Trabalhamos com quatro perfis, do investidor mais conservador ao mais arrojado. Nas nossas carteiras, navegamos ora mais na renda fixa, ora na variável. Nas alocações em multimercados, a carteira fica um pouquinho mais estática, para deixar os gestores trabalharem. Não gostamos de ficar mudando os ativos conforme os ventos do mercado. 

Muitos investidores tomam decisões de investimento pós-fato. E aí é sempre uma decisão mais difícil, pois os ativos já foram ‘precificados’, o que significa que seu preço já reflete um dado evento de mercado.”

Eleições 2022

“Este ano, em especial, temos a agenda política mais intensa por causa das eleições. Por mais duro que possa parecer, nos cinco anos que estou aqui no Itaú, nunca tomamos uma decisão de investimento olhando para a agenda política. Qualquer governante que assumir terá uma agenda de reformas para que o Brasil possa crescer. Este é o melhor mecanismo para uma melhor distribuição de renda no futuro. Claro, o comprometimento do Congresso com as reformas é essencial para que elas aconteçam.”

Cenário fiscal

“Entendo que há muitos desafios, é um ano complexo, tem pressão por aumentos de salários, inflação alta, várias demandas. Mas para o ano que vem o cenário melhora.”

Escalada de juros pelo Fed

“Nossa estimativa é de cinco altas, de 0,25 ponto percentual em 2022, e mais três de igual magnitude para o ano que vem. Mas o mercado brasileiro não está em pânico como estaria no passado. O Brasil está “ahead of the Fed” [à frente do Fed]. O Brasil saiu de uma taxa de juro real de -6%, se olharmos a taxa nominal média em torno de 4% em 2021, para +6% agora. Então acreditamos que, pelo menos no caso do Brasil, o mercado aguenta sim algumas altas no mercado americano. Claro que, se houver um cenário em que o Fed tenha de subir muito mais do que estimamos, talvez o Brasil sinta um pouco mais.”

Bolsa

“No ano passado, tivemos juros [médios] de 4%, uma alta do PIB de 4,5%, resultados históricos das empresas e mesmo assim a bolsa caiu 12%. Os ativos brasileiros estão negociando com um desconto entre 20% e 30% na comparação com a média histórica. Dado o desconto da bolsa, quem está entrando são os estrangeiros. O mais importante para qualquer país, e isso também serve para os Estados Unidos, é o controle da inflação. A inflação controlada faz com que os ativos performem bem de modo geral. Isso [o controle da inflação] é o que vai ser importante para os investimentos e agentes econômicos. Mesmo com um PIB mais fraco neste ano, podemos ter uma surpresa positiva no ano que vem, se houver corte de juros. É isso que muitos estão olhando e como há desconto nos ativos brasileiros parece um bom momento para entrar.”

Renda fixa

“A gente tem estimulado muito uma carteira de renda fixa de curto prazo especialmente nos papéis isentos de Imposto de Renda tanto em [taxa] prefixado quanto em IPCA. A gente prefere essas duas modalidades em relação ao CDI. Isso porque, talvez, em 2023 haja espaço para queda do CDI. A gente prefere recomendar investimento em papéis prefixados ou atrelados ao IPCA com prazos de, pelo menos, cinco anos.”

Commodities

“Dada a alta de juros dos países emergentes, o dólar perdeu valor [em relação às moedas emergentes] e as commodities têm tido desempenho relativamente bom. No ano passado, os preços das matérias-primas dobraram de valor. E isso dificilmente vai acontecer de novo neste ano. O preço do petróleo, por exemplo, saiu de US$ 30 o barril para encerrar o ano em US$ 70. A grande alta já aconteceu.”

Dólar

“Se o candidato que vencer as eleições assumir com uma agenda de reformas, olhando para o Brasil estruturalmente, há espaço para valorização do real. Essa taxa de juros mais alta ajuda. Todas as moedas com exceção do real voltaram ao patamar pré-covid.”

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