‘Há chance de iniciar corte da Selic neste ano’, diz Luiz Fernando Figueiredo, da Mauá Capital

Para ex-BC e sócio fundador da Mauá Capital, brecha poderá vir após reacomodação de mercados diante de aperto do banco central dos EUA

‘Há chance de iniciar corte da Selic neste ano’, diz Luiz Fernando Figueiredo, da Mauá Capital
Figueiredo: Com reprecificação de ativos e ação do BC surtindo efeitos, surpresa pode passar a ser de inflação menor — Foto: Silvia Zamboni/Valor

O movimento de ajustes que se vê nos mercados globais a um cenário de aumento de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ainda vai levar alguns meses, afirma o sócio fundador da Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo. Mas, passada essa reacomodação, há razões para acreditar que o dólar possa voltar para perto dos R$ 4,80. E que comece a se formar um espaço favorável para o corte de juros. “Eu acho não desprezível a possibilidade do Copom começar a reduzir o juro já no fim deste ano”, afirma Figueiredo, que ocupou a diretoria de política monetária do Banco Central.

Para ele, a perspectiva de um aperto monetário conduzido pelo Fed coloca o mundo diante do risco de recessão. “Mas estamos falando de uma recessão mais para moderada”, afirma. Para o Brasil, esse risco tende a ser amortecido pelo fato de o ciclo de aperto monetário já estar perto do fim, e pelas boas condições das contas externas do país.

Razões para a inflação

“O mundo está andando muito rápido. Todos os dados mostram que o mercado de trabalho americano está bastante apertado, tem vários índices mostrando a renda subindo. Está faltando ociosidade no mundo. No Brasil, a gente já viveu vários períodos de inflação alta e até aprendeu a lidar com isso. Mas, nos Estados Unidos, quem tem menos de 65 anos nunca viu inflação alta, não sabe o que isso significa. Inclusive os ‘policy makers’. Na Europa, a mesma coisa. Então, tem todo um processo de ‘cair a ficha’. O Fed, gradualmente, está vendo que vai precisar fazer muito mais do que imaginava.”

Efeito da guerra

“Pela primeira vez, o mundo está vendo um conflito geopolítico como uma coisa inaceitável. Já tivemos outros conflitos, mas desta vez o mundo está agindo para valer. As sanções impostas à Rússia não têm precedentes, o que no fim faz com que o impacto seja muito mais sistêmico do que outras crises que tivemos no passado. Aumenta inflação, petróleo, gás, componentes e commodities, e reduz o crescimento porque tem um aperto de confiança. Isso aumentou o dilema dos países de saírem da pandemia.”

Risco de recessão

“O processo de normalização de políticas será muito mais desafiador, com uma chance de recessão muito maior do que se imaginava. Vários indicadores de mercado estão apontando para isso. Claro que esses indicadores podem estar errados. Mas estamos diante de um desafio de grande magnitude. O que tem a favor é que não existe um grau de alavancagem como tinha em 2008, no mercado imobiliário. Isso poderia amplificar esse quadro. Embora o mundo esteja em apuros, não é uma situação que vá gerar uma baita crise. Acho que a chance de recessão é relativamente alta, mas estamos falando de uma recessão mais para moderada.”

Aperto monetário nos EUA

“O Fed continua dizendo que talvez passe da taxa neutra, que ele considera ser 2,5%. Mas, na verdade, essa é a taxa histórica. Se a inflação nos próximos 12 meses for muito comportada, ela vai ser de 5%. Como 2,5%, 3% de juros vão resolver o problema? O Fed precisaria levar o juro acima do neutro, para 5%. Se ele realmente fizer o trabalho de redução do balanço, isso vai equivaler a mais ou menos um ponto de alta de juros. Então, ele vai ter que subir para algo um pouco acima de 4%. Mas é preciso considerar também que esse período todo acabou trazendo uma grande exuberância nos preços dos ativos. Esses ativos estão agora sendo reprecificados porque o mundo vai crescer menos. Esse processo de reprecificação pode apertar mais as condições financeiras e, talvez, o BC americano possa subir menos os juros. Se os preços de ações caem, isso é contracionista. A bolsa americana já caiu 15% neste ano, as ações de tecnologia, entre 20% e 40%. As condições financeiras já deram uma boa apertada.”

Contágio no Brasil

“Tem uma máxima histórica que diz que, quando o mundo pega um resfriado, o Brasil pega uma pneumonia. Será que é a mesma coisa agora? Na verdade, não é. Hoje, o Brasil não precisa de capital financeiro. Não temos déficit na conta corrente e temos superávit na conta de capital. Além disso, do ponto de vista de inflação e política monetária, o Brasil é o país que está mais adiantado no processo. Estamos no fim do ciclo, enquanto a maior parte dos países está começando. E o diferencial de juros poucas vezes esteve tão alto, então existe uma certa resiliência da nossa moeda. Fora que o impacto da saída da pandemia e da guerra da Ucrânia e da Rússia acabou sendo amenizado pelo fato de o Brasil ser exportador de commodities. Tanto que a projeção de crescimento do Brasil subiu. Era perto de zero há dois meses e está se aproximando de 1%. Então, o que está acontecendo está afetando menos o Brasil do que outros países.”

Tendência à regionalização

“O mundo vai começar a escolher mais e melhor seus fornecedores. Existe uma tendência no mundo de diversificar mais de quem você compra matéria-prima, e o que puder, você produz localmente. Então, não necessariamente vai se comprar onde for mais barato. O pensamento de risco geopolítico aumentou, tanto com a pandemia por causa do conflito. Isso é ruim para comércio internacional, para produtividade no mundo e crescimento. Vamos entrar em um mundo com pensamento mais estratégico e menos de produtividade e eficiência do que se tinha antes. Para o Brasil, que é um grande fornecedor de matérias-primas, é uma oportunidade de médio e longo prazo. Se o Brasil souber se relacionar, pode acabar se beneficiando.”

Eleição e seus riscos

“No processo eleitoral, as tentativas de uma terceira via foram frustradas. Então, o mais provável é que a gente fique entre os dois candidatos [Lula e Jair Bolsonaro]. E não dá para pensar em algo muito positivo em termos de reformas em nenhum dos dois cenários. O mais provável é que predomine uma agenda mais de centro. O que, a meu ver, principalmente no caso do Lula, vai querer dizer somente que a gente não vai entrar em um enorme desequilíbrio fiscal. Mas esse equacionamento vai se dar pela via do aumento de impostos, que não é a melhor.”

Risco fiscal

“A minha preocupação é que o Lula é pragmático e não vai dar um tiro no pé de ser irresponsável com o fiscal. Mas o país não cresce por várias razões. E essas razões continuarão presentes se o Lula fizer minimamente o que está dizendo que fará. Vai acelerar bancos públicos, utilizar estatais para segurar preços… políticas que já aprendemos que fazem mal ao país e ao crescimento. O Brasil é um país que não cresce. Não crescemos 4% ao ano nos últimos dez, 15 anos. Ficamos muito para trás. Temos uma dívida social gigante, e a renda per capita faz 20 anos que não cresce. Com esse tipo de política, vai continuar assim.”

Risco institucional

“Do ponto de vista econômico, existe uma relação enorme de reformas feitas pelo atual governo, principalmente microeconômicas. Teve a reforma da Previdência, PEC dos precatórios, marco legal do câmbio, marco das ferrovias, marco do saneamento, marco do óleo e gás, independência do Banco Central, regra de depósitos voluntários do BC, marco legal das startups. Várias dessas reformas geraram investimento em infraestrutura. O pipeline contratado de investimento é de quase R$ 900 bilhões. Mas o risco institucional impacta muito. Na prática, o Brasil não está indo espetacularmente bem, mas está ok. objetivo primordial do presidente não parece ser tentar resolver os gargalos do setor, mas sim evitar que a insatisfação popular com a alta dos preços dos combustíveis prejudique a campanha à reeleição e isso impacta fluxo. A percepção do que foi feito na Amazônia é a pior possível. Mas não dá para dizer que estamos isentos do risco institucional com o PT também. O risco institucional está presente nos dois lados, o que é uma pena.”

Política monetária no Brasil
“Assim como os Estados Unidos, estamos diante de um choque de oferta, de custos. Mas, no caso brasileiro, a demanda é mais fraca. É um país que não está crescendo, tem uma ociosidade enorme, e muito desemprego. E o nosso Banco Central, como alguém que já lidou bastante com inflação, não brinca em serviço. O juro está a a quase 13%. O que significa que, com uma inflação de 6% no ano que vem, o juro real está em 7%. Para qualquer parâmetro, é acima do juro neutro. Estamos na ponta oposta do Fed. O que a gente precisa é ter paciência, porque os choques não acabaram.”

Queda de juros?

“Há coisas interessantes acontecendo. Os últimos índices de inflação estão surpreendendo para baixo. Saiu o IPC, o IGP, tudo bem melhor. O lado fiscal, que sempre foi a maior fragilidade, está bem melhor do que se imaginava. Na minha visão, os fatores de pressão tendem a ser temporários. A guerra pode durar muito tempo, mas o efeito sobre a inflação vai passar. Os ativos no mundo já estão a preços mais razoáveis, o juro americano de dez anos está chegando a 3%, perto de um ponto de equilíbrio. Há dois meses, era de 1,70%. É provável que a gente tenha mais um tempo desses ajustes, até tudo se acomodar, o que pode demorar mais dois, três, quatro meses, não muito mais do que isso. Enquanto isso, o que o BC fez vai surtindo efeito. Então, é muito provável que a surpresa passe a ser de inflação menor, e eu acho não desprezível a possibilidade de o Copom começar a reduzir o juro já no fim deste ano. Não acho o mais provável, mas não acho negligenciável a chance de ele começar a reduzir em dezembro, até em outubro. A não ser que a gente continue tendo surpresas sem parar na inflação, o juro está se tornando alto demais, sob qualquer parâmetro.”

Câmbio

“Essa queda dos ativos no mundo também dá uma pressionada na taxa de câmbio, que estava em R$ 4,80. Eu acho que é para lá que a taxa vai voltar. Mas, enquanto o mundo estiver nessa turbulência, os ativos todos sofrem, principalmente nos países emergentes, que é o nosso caso.”

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