Entenda por que a alta de juros nos EUA pode ter efeito menos severo em emergentes, como o Brasil

Reservas cambiais e vocação exportadora de commodities contribuem positivamente no equilíbrio entre preço e demanda

Foto: Pedro Kirilos/Agencia O Globo

Os defensores de medidas agressivas contra a inflação estão prestes a conseguir o que querem do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) – o que significa que os mercados emergentes estão prestes a enfrentar o que costumam temer.

A perspectiva de aumento de juros pelo Fed geralmente traz problemas para economias em desenvolvimento, especialmente quando resulta em fortalecimento do dólar. Episódios como o chamado “taper tantrum” de 2013 e o crash do México na década de 1990 se tornaram marcos.

A boa notícia em 2022 é que as consequências podem ser menos severas desta vez. Os países emergentes parecem melhor posicionados para enfrentar tempestades. Muitos acumularam reservas cambiais na última década.

Os exportadores de commodities podem vender esses produtos a preços elevados. E a causa primordial dos aumentos de juros nos países desenvolvidos – expansão econômica que desencadeou a inflação – é favorável a nações em desenvolvimento porque assegura mercado para suas exportações.

O cenário oposto – de uma recuperação fraca da pandemia nos países ricos – seria pior, segundo Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Os mercados emergentes não comemorariam se os países avançados abandonassem o aperto monetário por causa de recessão em suas economias”, diz.

Isso não significa que não há com o que se preocupar. Por mais difícil que a pandemia tenha sido nos países ricos, as nações pobres sofrem ainda mais, com menor parcela da população vacinada e sem os recursos necessários para ajudar suas economias a enfrentar a covid. Muitos desses países ficaram altamente endividados.

O endurecimento por parte do Fed e de outros grandes BCs pode agravar uma situação já ruim. A menos que os emergentes também subam os juros, o que atrapalha sua própria recuperação, há risco de uma fuga de capitais que desvalorizaria suas moedas e dificultaria o pagamento das dívidas.

Para o Fed e seus pares, a principal tarefa é proteger suas próprias economias e conter a inflação. Mas essas instituições também ficam de olho no impacto global causado por seus planos monetários, até porque esse impacto pode acabar voltando para as nações ricas. “Seu mandato principal é doméstico”, diz Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial. “Mas há precedente para as condições internacionais pesarem.”

O Fed e outros grandes BCs estão reagindo ao aumento da inflação real – não à possibilidade de ela subir. Esse aperto tem urgência e impulso. É quase certo que os emergentes terão um período difícil adiante – e alguns correm risco de inadimplência. No entanto, os problemas de endividamento dificilmente chegarão ao ponto de ameaçar o crescimento global ou desencadear grande turbulência nos mercados. Os juros estão baixos tanto nos países avançados como nas nações em desenvolvimento, o que significa que há espaço para aumento das taxas sem que o crédito seja severamente abalado.

Reinhart ressalta ainda que o movimento de alta de preços das commodities observado desde 2020 favorece os países emergentes. “Preços mais altos das commodities ajudam bastante.”

Com informações de agências e Valor Econômico.


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