‘Devo, não nego’: que conta em atraso priorizar quando puder pagar?

Estudo aponta que o pagamento de juros ocupa a segunda posição entre os itens de maiores despesas dos consumidores

Imagem ilustrando inflação
– Foto montagem: IF/Freepik

Pontos-chave

  • Uma pesquisa feita com pessoas endividadas mostrou como a pandemia afetou a vida financeira delas
  • Na hora da falta de dinheiro, a sondagem observou que o principal temor é ficar sem moradia
  • Planejadora financeira dá dicas do que pode ser feito para sair do buraco

O início do pagamento do décimo terceiro pode trazer um alívio para muita gente que está com contas em atraso. A renda extra representa uma chance de se livrar de temores que vão desde ficar sem serviços básicos a ver o orçamento comprometido com o pagamento de juros. O ideal seria ter saldo suficiente para sanar todas as dívidas e fechar 2021 sem a corda no pescoço. Mas, se a grana é mais curta que os compromissos postergados, como se organizar para sair do buraco?

Um levantamento feito pela empresa de recuperação de crédito Intervalor, com 365 consumidores em situação de inadimplência, mostrou que a maior parcela (31,5%) prefere quitar o aluguel. Em seguida, aparecem as faturas de consumo, como água e luz (26,4%). O cartão de crédito (13,1%) entra na lista como terceira prioridade. “Preservar a habitação e garantir as condições básicas relacionadas a alimentação e consumo vêm em primeiro em uma situação de falta de dinheiro”, destaca Phelipe Alvarez, vice-presidente da companhia.

O medo de ficar sem teto ou ter a energia cortada tornam a escolha inquestionável. Porém, um dos efeitos da opção pode ser a de deixar para depois contas com juros maiores. O exemplo mais comum é a taxa cobrada no rotativo do cartão de crédito, quando a pessoa não consegue pagar integralmente a fatura, que atingiu 339,5% ao ano em setembro, segundo o Banco Central (BC).

O impacto dos juros no bolso dos brasileiros foi alvo de um estudo da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo). O gasto no primeiro semestre de 2021 alcançou a marca de R$ 233,5 bilhões. O montante representou um aumento de 7,25% em relação ao mesmo período de 2020. A entidade constatou também que os juros ocupam a segunda posição entre os itens de maiores despesas dos consumidores, sendo superado apenas pelos custos com o aluguel.

“Grande parte dos brasileiros não faz planejamento financeiro, até porque não é algo cultural em nosso país”, comenta Phelipe Alvarez. “Em geral, o imediatismo fala mais alto e o consumidor opta por resolver os problemas conforme eles aparecem, deixando para lidar depois com as consequências. Por isso tantas – e altas – dívidas com cartão de crédito”, acrescenta.

Qual é a saída?

A renegociação é uma via natural para quem quer se livrar da dívida. Só que as pessoas precisam de dinheiro para buscar esse caminho. O executivo da Intervalor se ampara no estudo da empresa para avaliar que o cenário ainda apresenta muitas incertezas. “90,7% dos entrevistados tiveram a vida financeira prejudicada desde o inicío da pandemia da covid-19, em março de 2020. Do total consultado, 85,8% responderam que o impacto ainda permanece em 2021”, cita. “Ou seja, o panorama não é favorável para negociação de dívidas, em especial as mais antigas. Sempre que consegue um dinheiro extra, o consumidor opta por cobrir alguma despesa urgente”, ressalta.

Entre as principais razões listadas para a piora financeira estão a perda do emprego (próprio ou de alguém da família), restrições para exercer atividade autônoma, redução na carga horária do trabalho (e do salário) e gastos médicos com doença de parentes. A lenta recuperação do mercado de trabalho no Brasil ao longo de 2021, marcada principalmente pela abertura de vagas com salários menores, reforça a percepção. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), registram que, ainda que mais pessoas estejam empregadas (8,5 milhões a mais entre agosto de 2021 e agosto de 2020), a renda médias dos trabalhadores caiu mais de 10% no período – de R$ 2.771 para R$ 2.489.

Então, se a perspectiva de um acordo depende de uma melhora das condições financeiras, uma alternativa para achar a saída para o sufoco é dar um passo atrás, como sugere Myrian Lund, planejadora financeira CFP pela Planejar. “Quando a pessoa sentir que está se endividando, que não vai conseguir mais pagar as faturas, uma opção é abrir uma conta bancária sem cheque especial nem cartão de crédito”, orienta. “Depois, pedir a portabilidade do salário. Isso é garantia para receber o salário integral e avaliar com racionalidade o que pode ser pago.”

Ter a noção dos juros cobrados também é fundamental na hora de optar por um financiamento ou empréstimo consignado. Myrian Lund avalia que muita gente endividada desconhece as taxas e fica desorientada sem saber se está tomando uma decisão ruim ou boa quando tem uma oferta de renegociar. A planejadora financeira recomenda cautela na hora de discutir um acordo. “Tem que saber o que pode pagar. Trocar uma parcela maior por uma menor não vai resolver se não couber no orçamento. Só vai jogar o problema para frente”, alerta.

Por isso, principalmente para quem está na expectativa de receber o décimo terceiro, a especialista sugere guardar esse e todo recurso extra possível. Além disso, ela destaca que é importante evitar pedir a antecipação do benefíco, assim como das férias ou qualquer outro bônus. “Esse dinheiro pode ser guardado e, junto com outras economias feitas com cortes de despesas, usado para renegociar as dívidas com mais segurança”, diz. “Seja resiliente, atenda as ligações das instituições financeiras, mostre boa vontade e clareza sobre a sua situação financeira no momento. Muitos credores podem ser durões, mas outros podem aceitar as condições para encerrar dívida. Leva tempo, mas pode ser um processo eficiente para limpar o nome”, completa.


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