Banco Central mantém PIB de 2022 em 1% em meio a incertezas com guerra Rússia-Ucrânia

Na avaliação do BC, a surpresa positiva do quarto trimestre de 2021 elevou o carregamento estatístico para o ano

(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Sob incerteza maior do que a usual, especialmente em virtude da rápida alteração no cenário global com o início da guerra na Ucrânia, o Banco Central decidiu manter sua projeção de alta de 1% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2022, de acordo com o (RI) trimestral, divulgado hoje.

A surpresa positiva no PIB do quarto trimestre de 2021, diz o BC, elevou o carregamento estatístico para 2022 e sugere, especialmente com ajuste sazonal alternativo — que minimiza a influência do período da pandemia sobre a estimação dos fatores sazonais e de calendário —, que a atividade vinha em processo de aceleração ao longo do segundo semestre de 2021.

Segundo a autoridade monetária, por esse ajuste alternativo, as variações do PIB do primeiro ao quarto trimestre de 2021 foram de 0,9%, -0,5%, 0,3% e 0,9%, ante 1,4%, -0,3%, -0,1% e 0,5% divulgados pelo IBGE.

“Logo, a economia seria caracterizada por expansão mais robusta no segundo semestre, levando a um carregamento estatístico mais elevado para 2022 (0,7% no ajuste alternativo ante 0,3% no convencional)”, diz o relatório.

De modo geral, o IBC-Br e outros indicadores mensais mostram recuo em janeiro, observa o BC, em parte explicado pelo aumento de infecções associado à variante ômicron do coronavírus no mês.

“Com a melhora rápida da pandemia desde então, espera-se que a queda seja revertida em fevereiro e março e que o nível de atividade no primeiro trimestre se situe acima do que era esperado no RI anterior”, afirma.

Esse resultado positivo esperado para o primeiro trimestre também favorece a projeção de crescimento no ano, segundo o BC.

“Adicionalmente, mantém-se perspectiva favorável para alguns setores específicos, como a agropecuária e as atividades econômicas que ainda estão em processo de recuperação dos impactos negativos da pandemia”, acrescenta.

Em sentido oposto, a autoridade monetária nota que continua elevada a parcela de empresários na indústria que citam a escassez de matéria-prima como um fator limitante ao crescimento da produção.

“Ainda, dados qualitativos oriundos de sondagens empresariais indicam que os estoques do setor estão mais próximos dos níveis neutros ou adequados do que estiveram no final de 2020, quando vigorava a percepção de estoques insuficientes. Consequentemente, a recomposição de estoques não deve contribuir significativamente para o crescimento do setor em 2022”, afirma o documento.

“O risco fiscal elevado e o processo de aperto monetário em curso continuam impactando as condições financeiras atuais e, consequentemente, a atividade econômica corrente e futura. O elevado nível corrente de incerteza econômica doméstica atua na mesma direção”, diz o relatório.

A elevação desde o último RI dos preços de commodities — intensificada mais recentemente pela escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia e suas possíveis repercussões — e dos preços de produtos importados, embora atenuada pela recente apreciação do real, pode ser considerada um novo choque de oferta do ponto de vista da economia doméstica, com impacto altista sobre a inflação e negativo sobre a atividade econômica no curto prazo, segundo o BC.

Por outro lado, diz, os preços mais elevados de commodities podem aumentar a renda dos setores produtores desses bens, como a agropecuária e a indústria extrativa mineral, e incentivar a expansão da sua oferta, particularmente no médio prazo.

Quanto aos riscos ao redor do cenário base, o BC afirma que a possibilidade de restrições à atividade econômica em razão de limitações no fornecimento de energia elétrica diminuiu novamente com a melhora do cenário hídrico no Sudeste/Centro-Oeste.

“Os riscos associados à pandemia continuam sendo monitorados com atenção, mas agora em contexto de alta porcentagem de vacinados na população brasileira. A piora da crise sanitária em outros países pode atrasar a normalização das cadeias globais de produção e logística”, afirma.

Além disso, novas ações fiscais direcionadas à sustentação do consumo das famílias podem dar impulso adicional modesto a este componente, na avaliação do BC.

“Entretanto, medidas que piorem as trajetórias esperadas de dívida pública ou que impactem negativamente os preços de ativos e elevem os prêmios de risco também podem prejudicar o crescimento esperado”, pondera.

Por fim, diz o relatório, sobressai-se o risco associado ao aumento substancial das tensões geopolíticas internacionais após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. A reduzida corrente de comércio do Brasil com os países diretamente envolvidos no conflito sugere impacto limitado através desse canal, de acordo com o BC.

As exportações brasileiras de bens para Rússia, Ucrânia e Belarus representaram 0,7% das exportações do país em 2021, enquanto as importações provenientes desses países responderam por 2,9% do total importado.

“Apesar desta corrente de comércio relativamente modesta, as importações brasileiras de adubos e fertilizantes, especialmente da Rússia, são expressivas – em 2021, 23% das importações de adubos e fertilizantes vieram deste país. Assim, disrupções permanentes na oferta destes bens poderiam ter implicações negativas para o plantio agrícola ao longo dos próximos trimestres”, reconhece o relatório.

Além dos impactos já observados nos preços de diversas commodities, há também, segundo o BC, a possibilidade de: novos aumentos dos preços desses bens em caso de escalada ou prolongamento no conflito; novo atraso na normalização das cadeias globais de produção e logística; alta da aversão ao risco nos mercados financeiros globais com impacto sobre condições financeiras internacionais e locais; e, consequentemente, desaceleração da economia mundial maior do que a atualmente esperada.

No âmbito da produção, a estabilidade na projeção do PIB em relação à divulgada no último RI reflete recuo na previsão para a agropecuária e alta nos prognósticos para indústria e serviços.

A projeção de crescimento da agropecuária recuou de 5% para 2%, influenciada, principalmente, pela piora nas estimativas para a safra de verão de grãos, notadamente a de soja, em virtude de escassez de chuvas nos estados do Sul do país e no sul de Mato Grosso do Sul, diz o BC.

“O volume de precipitações ainda não se normalizou nessas regiões, o que é um risco para a produção agrícola, em particular para a segunda safra de milho, que até o momento tem prognósticos positivos”, afirma.

Na indústria, por outro lado, a previsão de queda passou de -1,3% para -0,3%, com piora na projeção para a indústria extrativa, mas melhora nas estimativas para as demais atividades.

“A surpresa positiva no quarto trimestre de 2021, em especial em construção e em produção e distribuição de eletricidade, gás e água, elevou o carregamento estatístico do setor. Contudo, condições financeiras mais restritivas, alta no preço de insumos e elevação da incerteza, em grande medida associada à crise no leste europeu, podem dificultar o crescimento ao longo do ano”, diz o BC.

A projeção para o setor de serviços em 2022 teve ligeira alta, de 1,3% para 1,4%. Apesar da relativa estabilidade na previsão agregada para o setor, houve alterações relevantes em alguns componentes, nota o BC. “De um lado, destacam-se as altas nos prognósticos para serviços de informação e transporte, armazenagem e correio, atividades que apresentaram crescimento expressivo no quarto trimestre do ano. Em sentido oposto, a principal revisão ocorreu na previsão para atividades imobiliárias e aluguel, segmento que perdeu dinamismo no segundo semestre de 2021”, afirma.

“A previsão de recuo para o comércio, setor que possui correlação positiva com o desempenho industrial, foi ligeiramente atenuada”, acrescenta o relatório.

Com relação aos componentes domésticos da demanda agregada, a estimativa para a variação do consumo das famílias ficou estável em 1,1%, com o maior carregamento estatístico resultante de surpresa no quarto trimestre compensado pela expectativa de arrefecimento do consumo ao longo do ano, em cenário de aperto das condições financeiras e de inflação mais elevada, diz o BC.

Houve ajuste marginal na previsão para o consumo do governo, de 2,4% para 2,3%. “Expectativa de elevação dos gastos governamentais – especialmente dos entes subnacionais, em cenário de certa folga de caixa desses governos – deve ter impacto limitado sobre o consumo do governo”, observa o relatório.

Por fim, a projeção de recuo da formação bruta de capital fixo (FBCF) foi revista de -3,0% para -1,5%. A projeção considera que os elevados volumes de importações fictas no âmbito do Repetro (Regime Aduaneiro Especial para Bens destinados às Atividades de Pesquisa e de Lavra das Jazidas de Petróleo e de Gás Natural) observados em 2020 e em 2021 não se repetirão em 2022.

“O resultado acima do previsto no quarto trimestre, a manutenção da confiança de empresários dos setores de bens de capital e construção em níveis relativamente elevados e a perspectiva de elevação dos investimentos públicos contribuem para a melhora na projeção. Em sentido oposto atuam a piora das condições financeiras e a elevação das incertezas em relação à economia mundial e doméstica”, afirma o BC.

Já as exportações e as importações de bens e serviços, em 2022, devem variar, na ordem, 2% e -2%, ante projeções de 2,5% e -1,5%, respectivamente. O recuo na previsão para as exportações reflete as revisões baixistas nas estimativas para agropecuária e para a indústria extrativa, enquanto a queda na projeção para as importações está associada ao aumento de preço de itens importados e a expectativa de redução do descolamento entre a evolução da atividade econômica e das importações, notadamente de bens intermediários, ocorrido em 2021, explica o BC.

“Tendo em vista as novas estimativas para os componentes da demanda agregada, as contribuições da demanda interna e do setor externo para a evolução do PIB em 2022 são estimadas em 0,2 p.p. e 0,8 p.p., respectivamente”, conclui o relatório.

 

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