Copom decidirá nova taxa Selic; economistas preveem taxa ainda maior

O estouro no teto de gastos e o efeito no controle da inflação devem guiar a decisão da autoridade monetária

Sede do Banco Central em Brasília (Foto: Rodrigo Oliveira/Caixa Econômica Federal)

Pontos-chave

  • Grandes bancos projetam uma aceleração no ritmo de alta dos juros
  • Atividade econômica pode ser afetada, com possibilidade de queda do PIB em 2022
  • Roberto Reis, fundador da gestora Meraki Capital, sugere que o investidor considere os fundamentos da empresa ao investir e abandone a mentalidade de retorno rápido

O Comitê de Política Monetária do Banco Central começa a definir nesta terça-feira (26) a nova taxa básica de juros da economia brasileira – atualmente em 6,25% ao ano. O próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, havia sinalizado que a Selic subiria 1 ponto percentual, para 7,25%, na reunião. Só que a decisão do governo federal de furar o teto de gastos e abrir um espaço de mais de R$ 80 bilhões no orçamento de 2022 para financiar o Auxílio Brasil de R$ 400 mexeu nas expectativas.

A avaliação é que a solução para o programa social que irá suceder o Bolsa Família agrava o ambiente fiscal, aumenta o endividamento do país e gera mais inflação. Diante do quadro de persistência na pressão dos preços, diversos agentes do mercado financeiro passaram a ver a necessidade de a autoridade monetária subir os juros em uma velocidade maior.

Em relatório divulgado na segunda-feira (25), o Itaú Unibanco revisou o cenário para os juros, com a indicação de que o colegiado irá elevar a Selic em 1,5 ponto percentual, para 7,75% ao ano. Haverá uma nova alta de 1,5 ponto no encontro de dezembro e outras duas subidas de 1 ponto cada nas primeiras reuniões de 2022, fechando o ciclo em 11,25% ao ano. O banco UBS e a XP também veem uma aceleração no ritmo de alta dos juros, com elevação de 1,5 ponto percentual nas próximas duas reuniões do Copom. Já Morgan Stanley, Credit Suisse e Goldman Sachs preveem uma alta de 1,25 ponto percentual.

“Entendemos que o Copom entrará em regime de contenção de danos”, diz o documento do Itaú. O banco considera que uma alta de 1 ponto ou 1,25 ponto na reunião de agora seria uma resposta inadequada. “Pois sinalizaria uma disposição excessiva para acomodar os riscos de inflação mais elevada”. Já um movimento acima de 1,5 ponto, segundo a instituição financeira, “provavelmente levaria a uma taxa de juros terminal que colocaria a economia em recessão profunda”. “O meio-termo não evitará uma recessão, mas contribuirá para limitar o aumento das expectativas de inflação”. O Itaú manteve a previsão de que o PIB em 2021 irá crescer 5%, mas piorou a projeção para 2022, de uma alta de 0,5% para uma queda de 0,5%.

Banco Central mais prudente

A economista Ariane Benedito, da CM Capital, vê a autoridade monetária tendo que se equilibrar entre a inflação alta e o risco de desaceleração na atividade econômica. “A gente percebeu que o perfil dos diretores do BC mudou e que as últimas decisões têm sido mais cautelosas. Então consideramos que o Copom vai esperar o desenrolar das reformas e deve manter a tendência de subir a Selic em 1 ponto”, diz. “O BC tem que ter o cuidado com a inflação, mas não desaquecer a atividade interna. Pode ser que à frente tenha que estimular o consumo e ficaria mais difícil com uma posição mais agressiva com os juros agora.”

O que planejar para os investimentos

Para quem entrou na Bolsa de Valores com a Selic a 2% ao ano, Ariane Benedito diz que a subida dos juros não pode ser um motivo para se desfazer das ações. “O mercado apresenta um comportamento cíclico e a Bolsa tende a se aquecer novamente. O que pode mudar agora é a forma como a pessoa observa o ativo. Vai ter que olhar os fundamentos das empresas, avaliar o tempo de investimento e até quando consegue carregar um papel. Para ajustar posição tem que analisar se houve alguma mudança no potencial de crescimento da companhia.”

A economista diz que uma opção para o cenário é fazer um combinado, com exposição na Bolsa de Valores, mas com proteção na renda fixa. “Temos títulos atrelados à inflação e de curto prazo com bons prêmios”. “Já para prazos mais alongados, tem que ter em mente que o Banco Central atua para trazer a inflação para a meta e a Selic pode começar a cair.”

Roberto Reis, fundador da gestora Meraki Capital, também vê a atual volatilidade como normal. “É um cenário típico de país emergente e que sofre com os ruídos políticos do governo. É tudo 8 ou 80. O que era ótimo até três meses atrás vira terra arrasada”, comenta. “Claro que gera incertezas, mas o investidor precisa ter um horizonte maior e não se levar por um ambiente de amor e ódio. Se estiver com a cabeça mais leve, pode aproveitar as oportunidades.”

A sugestão do executivo, que atua no mercado financeiro há mais de 20 anos, é que as pessoas invistam com fundamento e não como uma mentalidade de retorno rápido. “Ajuda a lidar com os barulhos e a avaliar se eles são capazes de mudar a tese das aplicações”, diz. “Isso vale para a renda variável. O conhecimento embasa a estratégia e dá sangue frio para escapar de um comportamento padrão e saber quando comprar ou quando vender”.


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