Após nova troca, ações da Petrobras caem

Investidor volta a analisar peso político, mas efeito na bolsa foi limitado por ativo ser considerado barato

Plataforma P-51 da Petrobras (Foto: Petrobras/Divulgação)

A nova mudança no comando da Petrobras, anunciada apenas 40 dias após a última dança das cadeiras promovida pelo governo na estatal, impactou as ações da companhia no pregão de ontem e impediu uma performance melhor do Ibovespa. O índice subiu 0,21%, aos 110.581 pontos, enquanto as ações ordinárias e preferenciais da petroleira cederam 2,85% e 2,92.

Arte: Valor Econômico

Investidores voltaram a analisar o peso dos constantes imbróglios políticos na performance dos papéis. Para o representante de uma gestora de recursos que tem uma pequena exposição às ações da estatal e que preferiu não ser identificado, as mudanças constantes, apesar de negativas, são naturais, especialmente em tempos de eleições, em que as decisões tendem a ser mais políticas do que racionais.

“De qualquer forma entendemos que Petro está muito barata, principalmente por conta de riscos como este, e que no longo prazo ainda deve ser um bom gerador de alfa [excesso de retorno]”, afirma o profissional. “Se Petro tivesse os mesmos ativos e a mesma operação, mas um controlador diferente, valeria umas três vezes mais.”

A ingerência política tem sido uma constante na gestão da petrolífera, e “essas ‘barbeiradas’ do governo estão no preço faz tempo”, acrescenta. “Ainda assim, Petro vale a mesma coisa dos tempos [da ex-presidente] Dilma [Rousseff], sendo que a receita é bem maior, compliance melhor e dividendos espetaculares.”

Já Lucas Tambellini, sócio da Sumauma Capital, afirma que tinha Petrobras na carteira, mas já havia zerado a posição. Apesar de a empresa seguir gerando muito caixa e pagando bons dividendos, o grande ponto, segundo o profissional, é o barulho político. Ele entende que as eleições vão começar a pesar e 3R Petroleum, PetroRio e PetroReconcavo dão exposição tranquila ao setor.

Nessa linha, outro gestor que preferiu se manter anônimo afirma que, “em geral, estatais não são posições para se ficar casado, carregar por anos, porque não são geridas pró-lucro, pró-eficiência, pró-minoritários, são pró-governo e isso muda a cada quatro anos”, afirma. “Mas podem ser um excelente trade de médio e longo prazo.”

Para o profissional, com as substituições feitas até aqui, o presidente Jair Bolsonaro “apenas jogou para a plateia”. Ele considera que, se a mudança for só de CEO, isso não vai trazer deterioração adicional para a ação. O papel tem sido um dos destaques do Ibovespa, ajudado também pelas altas do petróleo. “É uma companhia muito barata por qualquer queda chama novos compradores”, acrescenta ao avaliar a reação do mercado ontem.

Outra explicação é que os ativos estavam negociados ex-dividendos após a distribuição bilionária de lucros, e quem quis recompor a posição anterior voltou às compras.

O que o governo tenta garantir é que não haja um aumento de combustível relevante às vésperas da eleição, o que derrubaria as chances de Bolsonaro se reeleger. O profissional não acha, contudo, que mais esse episódio tenha minado a agenda liberal, ao contrário. Se a privatização da Eletrobras for bem sucedida, o gestor diz haver razões para acreditar que o governo tentaria encaminhar algum processo de desestatização da petrolífera, que não tem sido fonte de boas notícias. Não seria simples, mas ele considera a hipótese razoável.

Setorialmente, as ações de petroleiras subiram em bloco desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, refletindo as pressões sobre a commodity. Enquanto os papéis preferenciais da Petrobras subiram 12,19% desde 23 de fevereiro, a BP ganhou 4,18%, a gigante Saudi Aramco subiu 9,80% e a Shell, 14,87%. A chinesa Sinopec, única em queda no período, 17,37%, enquanto a maior alta fica por conta da americana Marathon, com ganhos de 29,53%.

Resta saber, segundo um analista, se a empresa brasileira conseguirá manter o bom ritmo. Numa leitura preliminar, analistas do UBS BB disseram não esperar mudanças relevantes na estratégia da Petrobras, mantendo indicação de compra para as ações, com um preço alvo de R$ 45,00, com potencial de valorização superior a 40%.

Durante o pregão, pesou contra o Ibovespa a divulgação do IPCA-15 de maio, o que impactou ativos ligados à economia local. Americanas ON caiu 4,94% e CVC Brasil ON cedeu 6,30%. Na outra ponta, a mesma pressão permitiu alta generalizada das concessionárias de serviços públicas, com destaque para Equatorial ON (3,56%) e as units da Energisa (2,85%).

“As empresas de ‘utilities’ estão em um bom momento operacional, têm posição confortável de endividamento e conseguem se proteger contra a inflação, que continua surpreendendo para cima. Além disso, várias delas estão com ‘valuation’ atrativo”, diz Tambellini, da Sumauma.

No fim da sessão, o Ibovespa recebeu um fôlego das “blue chips”, que têm voltado a dar sinais de força mesmo num ambiente de aversão ao risco, com altas para Vale ON (1,36%), Itaú PN (1,28%), Bradesco PN (1,90%) e as units do Santander (1,57%).


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