Análise: o que esperar das próximas decisões de juros do Copom?

Comitê elevou a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano

Ilustração representa inflação
– Ilustração: Marcelo Andreguetti/IF

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mostra uma divergência entre a comunicação utilizada pela autoridade monetária e as projeções de inflação, aponta o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont. Ele nota que, ao se observar a linguagem do colegiado em relação à próxima reunião, é possível verificar um viés mais “dovish” (suave) com a indicação de um ajuste de menor magnitude, mas enfatiza que as projeções podem indicar um caminho ainda mais agressivo para os juros à frente.

Com uma Selic de 13,25% e um dólar a R$ 4,95, o Copom chegou a uma inflação de 7,3% neste ano e de 3,4% em 2023, número acima do centro da meta do próximo ano (3,25%). “Além disso, a projeção de 7,3% de 2022 nos parece errada. Nós, na Quantitas, temos 9%”, diz Chermont. Nos cálculos do economista, mesmo se a inflação ficar em torno de 8%, ela geraria cerca de 0,15 ponto a mais de inércia na inflação de 2023, o que deixaria a projeção de IPCA do Copom em 3,55%. Ou seja, 0,3 ponto acima do centro da meta, o que exigiria um aperto de mais 1 ponto.

Assim, na visão de Chermont, o modelo do Copom indicaria uma Selic de 14,25% necessária para fazer a convergência da inflação para a meta no próximo ano.

“Vai valer mais a intenção, a linguagem e a comunicação ou o reconhecimento de que [o esperado em] 2023 está ficando custoso demais e ter que levar a Selic a 14,25% para convergir a inflação lá na frente? É um debate que vai acontecer entre economistas e agentes: se o BC vai exercer a intenção de dar mais 0,50 ponto e parar ou se vai a fundo para cumprir a meta e levar a Selic a 14,25%”, afirma o economista.

Dois aumentos de 0,50 ponto percentual

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, considerou o comunicado do Copom adequado. Segundo a profissional, o texto deixa uma porta aberta para que o BC encerre o ciclo de aperto monetário na próxima reunião, mas também coloca mais cautela em cima da atuação da autarquia.

“Acredito que o BC fez uma comunicação até mais direta em termos de fim de ciclo no comunicado de março e agora deixou esse ajuste final mais em aberto”, aponta. “Continuo, no entanto, enxergando espaço para que o Comitê realize duas altas de 50 pontos-base nas próximas reuniões, chegando a uma Selic terminal de 13,75%.” Assim, a casa mantém o cenário que tinha pré-Copom.

Para a profissional, a persistência da inflação pode voltar a surpreender o BC, promovendo nova atualização de modelos. Damico explica que o fato do comunicado contratar uma Selic de pelo menos 13.25% sem que a meta de inflação para 2023 seja alcançada (3,4% da projeção ante 3,25% da meta) mostra que há espaço para isso.

“Além disso, os núcleos de inflação seguem muito altos e disseminados, o que faz com que a projeção de inflação do BC de 7,3% para 2022 pareça baixa à luz do mercado, que está mais próximo dos 8%. Essa foi a parte mais “dove” do comunicado. A autarquia compensa isso, no entanto, com uma descrição mais detalhada do balanço de riscos, citando o arcabouço fiscal e pressões inflacionárias externas.”

BC reconheceu persistência da inflação

O economista-chefe da Parcitas Investimentos, Vitor Martello, afirma que o comunicado do Copom traz um reconhecimento, por parte da autarquia, de que as pressões inflacionárias persistiram mais do que o previsto, o que fez com que houvesse mudança na comunicação em relação à reunião de março.

“Na minha visão, o comunicado foi uma forma do Copom mostrar que o patamar de 13,25% será um piso para a Selic neste final de ciclo de aperto monetário. A piora nas projeções de inflação por parte do BC só calibraram a resistência da inflação, o que justifica a mudança no plano de voo”, aponta.

Para o profissional, parte da sensação de dúvida expressa no comunicado vem justamente de fatores que não estão no controle do Copom, como os lockdowns na China, a guerra entre Ucrânia e Rússia e a política de aperto monetário do Federal Reserve (Fed, o BC americano). E, por isso, torna-se difícil a utilização de sinalizações muito diretas.

Martello cita ainda que o BC local “ressuscitou” o risco baixista para a atividade doméstica, algo que não parece claro em indicadores de alta frequência. “Podem estar preparando terreno para uma possível desaceleração no segundo semestre, mesmo que haja resiliência até agora”, aponta.

A projeção da Parcitas, que tinha a Selic terminal em 13,25%, pode então ser alterada. Segundo o economista, será preciso acrescentar dados de cadeias produtivas globais à conta, conforme os gargalos iniciados na China se estendem. “O BC precisa se preocupar com estes choques.”

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