América Latina desperdiça oportunidade histórica em desenvolvimento verde, diz FT

A omissão dos governos latino-americanos em investir em energia renovável deve deixar muito espaço para o setor privado

Plataforma P-51 da Petrobras (Foto: Petrobras/Divulgação)

Pontos-chave

  • Investidores do setor privado que apostaram alto em energias renováveis ficarão na torcida para que a experiência mexicana não se repita na América do Sul

Parecia uma oportunidade boa demais para perder. A América Latina estava na posição perfeita para dar um grande salto à frente nas energias renováveis. Mais de 25% de sua energia já vinham de fontes renováveis, graças à abundância de usinas hidrelétricas.

O norte do México e a Patagônia, com seus ventos, têm alguns dos melhores locais do mundo para gerar eletricidade “verde”. Lítio e cobre, minerais cruciais para transição mundial para o transporte elétrico, são abundantes. Os governos dispunham de bilhões de dólares de fundos para recuperar suas economias da pandemia da covid-19, e os gurus da cena política transbordavam de entusiasmo quanto ao surgimento de um mundo “verde” pós-pandemia.

Só que a realidade até agora é mais “suja” e distante do verde do que se imaginava. Segundo o Energy Policy Tracker, as quatro maiores economias da América Latina destinaram a maior parte dos fundos de recuperação a subsídios e projetos de combustíveis fósseis, jogando migalhas para as fontes renováveis.

O México é o pior exemplo. O presidente Andrés Manuel López Obrador, um nacionalista dos recursos naturais no estilo dos anos 60, despejou bilhões de dólares na petrolífera estatal Pemex para expandir suas operações deficitárias de refino de petróleo.

Ao mesmo tempo, ele criou dificuldades para os que investiram em fontes de energia renovável, como a espanhola Iberdrola e a italiana Enel, ao promover mudanças nas políticas que, à custa desses investidores, favoreceram a gigante estatal de eletricidade CFE, movida a combustíveis fósseis. Não à toa o investimento em energia renovável no México tenha desabado e as contestações na Justiça, se multiplicado.

O representante climático dos EUA, John Kerry, fez três visitas nos últimos cinco meses para tentar demover o quixotesco presidente. A resposta de López Obrador foi redobrar os esforços em prol de uma reforma constitucional para garantir participação mínima de 54% à CFE no mercado de eletricidade e, mais ainda, nacionalizar o nascente setor de lítio.

Além disso, o dinheiro dos fundos de recuperação da pandemia canalizado pelo governo mexicano a projetos de combustíveis fósseis foi quatro vezes maior do que o alocado a energias renováveis, segundo a Energy Policy Tracker.

Mesmo essa triste repartição desequilibrada dos fundos é ofuscada pela Argentina e pela Colômbia, cujos governos destinaram mais de US$ 1 bilhão em políticas pós-pandemia relacionadas a combustíveis fósseis, mas gastaram apenas alguns milhões de dólares desses fundos de recuperação com energias renováveis, de acordo com a Energy Policy Tracker.

“Esta é uma região que teve o pior desempenho econômico do mundo durante a covid”, diz Francisco Monaldi, especialista em energia da América Latina da Rice University, em Houston. “Portanto, os governos não têm prioridades voltadas à transição energética, se isso implicar em custos.”

Entre as estatais petrolíferas da região, a brasileira Petrobras tem usado a transição energética como desculpa para se dedicar a sua área mais lucrativa, a produção de petróleo em alto mar, enquanto abandona atividades menos lucrativas, diz Monaldi.

Em contraste, a colombiana Ecopetrol fez uma aposta de US$ 3,7 bilhões no setor de eletricidade, comprando 51% da empresa de transmissão ISA. Isso nasceu em parte da necessidade — as reservas de petróleo do país diminuem a passos rápidos — mas também dá à empresa uma proteção conveniente contra o ocaso dos combustíveis fósseis.

A omissão dos governos latino-americanos em investir o dinheiro dos fundos pós-pandemia em energia renovável deve deixar muito espaço para o setor privado. De fato, Chile, Colômbia e Brasil já atraíram bilhões de dólares em investimentos não estatais em energia verde. Mas o México mostra que mesmo as energias renováveis podem ser vítimas do nacionalismo sobre os recursos naturais.

O Chile é o segundo maior produtor de lítio do mundo e um nascente líder na produção de hidrogênio verde. Seu novo presidente de esquerda radical, Gabriel Boric, alardeou suas credenciais verdes na eleição em 2021. Mas, no início do mês, em seu primeiro grande pacote econômico, incluiu subsídios a combustíveis fósseis, em vez de dinheiro para energias renováveis, além de ter planos para criar uma empresa estatal de lítio.

Brasil e Colômbia têm eleições presidenciais neste ano e as pesquisas apontam que ambos os países elegerão nacionalistas de esquerda. Investidores do setor privado que apostaram alto em energias renováveis ficarão na torcida para que a experiência mexicana não se repita na América do Sul.

Artigo originalmente publicado no Financial Times, por Michael Scott.


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