Opinião: A economia brasileira em 2022 e 2023

Dados fatores internos e externos, não é baixa a probabilidade de o PIB retroceder no ano que vem

Mario Mesquita, economista chefe Itau; Juros subindo, bolsa caindo, inflação em alta.
– Ilustração: Renata Miwa

Na atualização mais recente do seu Panorama Econômico Mundial, o FMI reduziu a projeção para a taxa de crescimento da economia mundial de 3,6% em 2022 e 2023 para 3,2% no ano corrente e 2,9% no próximo – abaixo da taxa média de crescimento do PIB mundial nos últimos 20 anos, 3,6%. As revisões para 2023 foram particularmente intensas no que se refere a algumas economias avançadas: de 2,3% em 2022 para 1% nos EUA, com redução de 2,3%, no mesmo horizonte, para 1,2% na área do Euro.

Não apenas o Fundo reduziu as projeções de crescimento, mas apresentou uma lista de riscos de baixa para a atividade, sem nenhum risco de alta. Vale repassar a lista, bem como possíveis implicações para a economia brasileira. Em linhas gerais nota-se que, segundo as contas dos economistas do Itaú, cada ponto percentual a menos no crescimento global ocasiona uma redução de 0,4 pontos percentuais no crescimento brasileiro.

O primeiro risco apontado pelos economistas de FMI viria de altas adicionais dos preços de energia ocasionados pela guerra na Ucrânia. O foco de preocupação é a potencial redução da transmissão de gás da Rússia para a Europa Central e Ocidental. Uma interrupção total das entregas poderia acarretar forte alta da inflação regional e global.

Especificamente, os economistas do Itaú estimam que caso a entrega de gás da Rússia para a Europa Ocidental caia a 40% do normal, o crescimento do PIB regional sofreria um impacto de -2 pontos percentuais; com interrupção total, o impacto negativo seria de 3,5 pontos percentuais. O reflexo direto desse choque, para a economia brasileira, pelos canais do comércio exterior e condições financeiras, seria de -0,15 e -0,30 pontos percentuais, no caso da interrupção parcial ou integral da entrega de gás.

As economias emergentes, geralmente menos alavancadas do que no passado, em moeda estrangeira, e com regimes de taxa de câmbio flutuante, devem ser mais resilientes do que, por exemplo, na virada dos 1970 para os 1980.”

O segundo risco apontado pelo FMI é a persistência inflacionária. O cenário central é que a inflação retornaria ao patamar pré-pandemia no final de 2024. Mas esse processo não é garantido. Outros choques de oferta podem pressionar a inflação, em especial se a guerra europeia continuar. Períodos de inflação elevada sempre levantam o risco de uma espiral entre preços e salários, particularmente em economias nas quais as condições competitivas nos mercados de trabalho e produtos podem ser limitadas. Assim como nos anos 1970, bancos centrais podem subestimar, em um primeiro momento, a persistência inflacionária, e se verem forçados, eventualmente, a adotar posturas muito mais restritivas – como no choque Volcker de 1980.

Outro risco é de que o próprio processo de desinflação se mostre mais custoso, em termos de atividade econômica, do que o esperado. O custo da desinflação varia ao longo do tempo e de país a país, sendo influenciado por fatores como o nível da inflação inicial, o estado das expectativas inflacionárias, rigidez dos mercados de trabalho e produto, sensibilidade de preços e salários às condições de demanda, e a postura da política fiscal (e, no caso brasileiro, parafiscal). O FMI avalia que o risco de recessão, dado o necessário aperto da política monetária em escala global, será particularmente relevante em 2023. A economia americana parece vulnerável a esse risco, mas, também nesse ponto, o cenário europeu parece ser mais complicado. Isto porque, na área do Euro, o aperto monetário pode ocasionar maior estresse nos mercados de dívida dos países com maiores fragilidades fiscais, como a Itália.

Há também o risco de que o aperto monetário nas economias maduras leve a uma saída de capitais de economias emergentes. As economias emergentes, geralmente menos alavancadas do que no passado, em moeda estrangeira, e com regimes de taxa de câmbio flutuante, devem ser mais resilientes do que, por exemplo, na virada dos 1970 para os 1980. Mesmo assim, o aperto monetário global já vem impactando economias com maiores dificuldades de balanço de pagamentos, como Sri-Lanka e, bem mais importante para o Brasil, a Argentina. Estima-se que uma queda do PIB argentino de 1% leve a uma redução de 0,21% na produção industrial no Brasil.

A economia chinesa vem sendo uma fonte de dinamismo muito importante para o PIB mundial dos últimos anos. Assim, a possibilidade de que o período de baixo crescimento observado no primeiro semestre (crescimento anualizado do PIB de apenas 2,5%) se estenda por mais tempo, apresenta outro risco de baixa para a atividade, seja por influência do covid-19 ou das dificuldades no setor imobiliário. Vale lembrar que a cada ponto percentual de redução do crescimento chinês, a expansão do PIB brasileiro é reduzida em 0,2 pontos percentuais.

O Fundo ressalta também o risco de pressões continuadas sobre preços de alimentos, que podem ter impacto econômico e social mais intenso em economias mais pobres. O peso médio dos alimentos na cesta de consumo dos países da região é 24%, ante 18% nos países desenvolvidos. O impacto pode ser ainda mais severo em economias da África ou sul da Ásia, com potencial para aumentar tensões sociais.

Uma guerra mais prolongada na Ucrânia, que reforce certas clivagens geopolíticas, pode acabar contribuindo para uma fragmentação mais intensa da economia mundial, representando outro risco de baixa para a atividade, ainda que este provavelmente só irá se manifestar a médio prazo.

Por ora, o mercado espera que a economia brasileira tenha crescimento de 0,4% em 2023. Dados os riscos listados acima, a probabilidade do PIB crescer ainda menos, talvez retroceder, no ano que vem, não é baixa.