Ministério da Economia tende a manter projeção de alta do PIB em 1,5%, mas quadro é desafiador

Governo se anima com geração de emprego e crescimento do setor de serviços, mas previsão é de alta na inflação

Movimentação de consumidores na Rua 25 de Março, no centro de SP
Movimentação de consumidores na Rua 25 de Março, tradicional ponto de comércio popular no centro da capital paulista (Foto: Adeleke Anthony Fote/TheNews2/Agência O Globo)

A área econômica do governo vê nos indicadores mais recentes sobre o nível de atividade sinais que reforçam seu cenário de crescimento de 1,5% para o PIB neste ano. A estimativa está sendo atualizada para o relatório bimestral de receitas e despesas e a tendência, até o momento, é de manutenção dessa projeção, prevista para ser divulgada na próxima semana.

Dados como geração de emprego e o crescimento do setor de serviços, o mais recente IBC-Br (indicador do BC que tenta mostrar o ritmo da atividade), de fevereiro, entre outros estão entre os indicadores que reforçam o cenário do governo.

É perceptível a animação na Economia com a sequência de revisões para cima do PIB previstas na pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central junto ao mercado, que sobe há cinco semanas e agora chegou a 0,7% de expansão para o PIB. Ainda é menos da metade do que o governo estima, mas vale lembrar que essa é a chamada mediana e tem sido comum algum interlocutor do governo compartilhar informações de economistas de casas de renome, como Itaú e Bradesco, que já trabalham com números mais altos do que o ponto médio das estimativas do mercado.

Por outro lado, o viés para a projeção de inflação do governo, assim como para o mercado, é de alta. Atualmente, o cenário para o IPCA do ano é de 6,55% e ele deve ficar mais próximo de 8% — no mercado, com a décima sexta alta seguida, já está em 7,9%.

Esse quadro inflacionário, péssimo para a população que vê seu poder de compra definhando, tem como lado positivo a ajuda nos indicadores fiscais do governo. A dívida bruta brasileira, por exemplo, está se consolidando abaixo dos 80% do PIB (ficou em 79,2% do PIB em fevereiro).

Somente olhando para os cenários de governo e mercado em torno do PIB e da inflação pode-se perceber a complexa e pouco animadora situação da economia brasileira. Mesmo com a área econômica aparentemente ganhando a queda de braço com o mercado sobre as projeções de PIB, a realidade é que 1,5% de expansão (ou mesmo 2% como mencionou o economista-chefe do Bradesco Asset, Fernando Honorato, nessa quarta-feira) é muito pouco para o que o país precisa. Ainda mais em um ambiente no qual o trabalhador está perdendo à galope o seu poder de compra.

Além disso, é preciso considerar que há enorme incerteza para a frente. Internas e, sobretudo, externas. A volatilidade cambial nas últimas semanas evidenciou isso.

Depois de vários dias de alta tensão, o Federal Reserve, o BC norte-americano, deu certo alívio ao mercado, mesmo partindo para uma postura mais agressiva na taxa de juros. A chave para isso foi a fala do seu presidente, Jerome Powell, na quarta-feira, descartando no curto prazo acelerar o passo de 0,5 ponto para 0,75 ponto porcentual.

Ato contínuo, o dólar devolveu ganhos ante o real e voltou para perto de R$ 4,90, depois de ter superado os R$ 5. Há um mês, a divisa encostava em R$ 4,60 e injetava mais ânimo para uma economia ainda muito machucada pela pandemia.

Claramente, o principal risco para o país hoje é o Fed mudar de opinião, diante da inflação persistentemente alta, e partir para uma postura ainda mais agressiva. Só a especulação em torno disso, com poucos sinais efetivos das autoridades nas últimas semanas, já fez um estrago, imaginem se a autoridade monetária americana realmente engrossar mais a voz.

Tudo que o Brasil não precisa agora é de um choque de juros nos EUA. Mas esse risco existe e precisa ser monitorado. Por isso, o governo precisa olhar também melhor sua articulação política no Congresso, a relação com os demais Poderes e seus próprios ímpetos populistas para evitar o avanço de medidas que passem uma mensagem muito negativa sobre o cenário fiscal brasileiro, o que só agravaria os impactos de uma piora nos já desfavoráveis ventos americanos — sem falar nos problemas que vêm da China com a nova onda de Covid-19 e da invasão russa à Ucrânia.

Em nada contribui a maneira atabalhoada com a qual está se discutindo piso de enfermagem. Tampouco, como o presidente Jair Bolsonaro trata do tema de gastos com servidores e medidas para as polícias. E, ainda menos, a volta de uma crise institucional com o Judiciário, que só faz o país parecer uma república bananeira, o que só ajuda a espantar investidores — sem entrar no óbvio e gravíssimo problema de desgaste da democracia do país.

O ritmo da economia pode estar um pouco melhor do que os pessimistas estavam dizendo. Mas ela ainda está frágil e todo o cuidado é pouco.

(Por Fabio Graner, analista de economia do JOTA em Brasília)

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