Dólar pode se aproximar de R$ 4 após as eleições, dizem analistas da AZ Quest

Termos de troca e diferencial de juros em relação aos EUA justificariam apreciação da moeda brasileira

(Foto: Celyn Kang/Unsplash)

Os termos de troca da economia brasileira e o diferencial de juros extremamente elevado em comparação aos Estados Unidos justificariam uma apreciação mais expressiva do real, que poderia se aproximar dos R$ 4 após as eleições, na visão do sócio e estrategista de macroeconomia e de produtos da BTG Pactual Asset Management, Tiago Berriel e do diretor executivo da AZ Quest, Walter Maciel.

“Quando você olha para o real a R$ 5,50 ou a R$ 4,90 em relação aos termos de troca da economia, não faz sentido. E o segundo fator é o nosso diferencial de juros em relação aos EUA. Ele saiu de 2% e, mesmo se o Fed entregar tudo o que está na curva, vai superar os 10% em breve”, afirmou o profissional da BTG Asset em evento organizado pela Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar).

Maciel tem uma postura mais otimista em relação aos ativos brasileiros. Segundo ele, há elevado prêmio de incerteza relacionado às eleições no país quando, na verdade, os dois candidatos são bem conhecidos pelos investidores. Para ele, qualquer que seja o vencedor da corrida eleitoral, o próximo presidente não possui incentivos para provocar uma grande desorganização das questões fiscais no país.

“Esses dois a gente já conhece e, portanto, eu não vejo essa incerteza toda que as pessoas enxergam. Ela parece muito maior do que deveria, na minha opinião. A desorganização fiscal custou a continuidade de um governo recentemente”, afirma o CEO da AZ Quest, que também acredita que há um problema de autoestima e baixa confiança dos brasileiros.

Berriel, por sua vez, afirma que o problema do câmbio é um reflexo das incertezas fiscais. “Os candidatos, até o momento, não vêm demonstrando apoio às regras fiscais que estão em vigor no país desde 2017. A gente ter aprendido a flexibilizar o teto torna a tendência à irresponsabilidade muito maior”, observa o ex-diretor do Banco Central.

“Não acredito em apenas me fiar na responsabilidade individual do governante. Entre a escolha de ser mais popular e aumentar as chances de eleição e fazer a coisa certa, do ponto de vista fiscal, todos os governantes do mundo vão escolher a primeira opção. Então eu tenho um pouco mais de medo”, diz Berriel.

Assim, há dois grandes desafios a serem enfrentados para que o país retome a trajetória do crescimento, na visão do profissional da BTG Asset. O primeiro é justamente a questão fiscal, em que fatores que ajudaram na redução da dívida/PIB devem começar a se dissipar em breve.

“Essa alta de juros vai atrapalhar, em vez de ajudar, a dívida sobre o PIB. Além disso, há um crescimento das demandas da sociedade com relação ao excesso atual de receitas. Estamos vendo R$ 50 bilhões, praticamente todo o superávit do ano, sendo direcionado para combustíveis”, afirma.

“A gente não tem mais um estabilizador natural, porque a gente aprendeu que há uma maneira de flexibilizar o teto. Fizemos com os precatórios e vamos fazer de novo com os combustíveis. A situação fiscal não está ganha e precisamos de uma nova âncora fiscal que precisa ser debatida pelo novo governo”, conclui Berriel.

O segundo desafio é o controle da inflação, que, a despeito de seus níveis preocupantes, está em trajetória de piora. “Pela parcial do Focus, a gente tem para 2023 uma expectativa de inflação 1,2 ponto percentual acima da meta. Isso no máximo do horizonte da política monetária. Na nossa visão, isso ainda deve piorar”, afirma.

Nesse sentido, nem mesmo a aprovação do projeto de lei que limita a cobrança do ICMS em itens como combustíveis e energia devem facilitar o trabalho do Banco Central, na visão dele. “A gente tem uma visão de que as medidas reduzem a inflação este ano, mas, para o ano que vem, o quadro piora ou fica neutro. A PEC tem vigência até 31 de dezembro, então haverá muita dificuldade de engendrar uma renovação dela no fim do ano”, afirma Berriel.

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