Análise: Reação do PIB em defesa da democracia preocupa campanha de Bolsonaro

Apesar do discurso de desprezo, núcleo político teme outras iniciativas do setor produtivo e do sistema financeiro, diz Fábio Zambeli, do JOTA

Palácio do Planalto (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

A série de manifestações de entidades setoriais, representantes graúdos do PIB nacional e diplomatas em defesa das urnas eletrônicas e expressando apreensão com os ataques feitos pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) ao Judiciário levou o governo a um plano emergencial de redução de danos às vésperas do início formal da campanha eleitoral.

Ministros e integrantes do núcleo político do Planalto saíram a campo para advogar a reabertura de pontes com o STF e com o TSE, mudando radicalmente o discurso que chegou a ser vocalizado pelo chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira.

O expoente máximo do centrão no Planalto inicialmente ironizou a origem dos primeiros documentos endossados em favor da democracia produzidos no início da semana, mas foi demovido e agora atua como bombeiro na crise.

O diagnóstico consensual entre auxiliares palacianos, como o JOTA antecipou na terça-feira (26), é o de que o estrago dessa resposta organizada e crescente de segmentos poderosos do setor produtivo e do sistema financeiro mina a confiança na agenda de retomada da economia e melhora na percepção de bem-estar social, cuja tração é aposta de governistas para estreitar a diferença de Bolsonaro para o líder Lula nas pesquisas.

Seguindo o mesmo roteiro da súbita guinada de Nogueira, o presidente da Câmara, Arthur Lira, rompeu o silêncio e disse confiar na solidez das instituições brasileiras. Foi uma tentativa de explicar o silêncio obsequioso no qual se manteve desde que Bolsonaro reuniu embaixadores no Alvorada para anunciar que não aceitará o resultado das urnas, caso o TSE não aceite as sugestões feitas pelas Forças Armadas para “aperfeiçoar” o sistema de votação e apuração.

Além de não se pronunciar sobre o questionamento do presidente, Lira apareceu publicamente no domingo vestindo camiseta com o nome de Bolsonaro e o número de seu partido no evento de lançamento de sua candidatura ao Planalto, no Rio. Na ocasião, Bolsonaro convocou seus eleitores às ruas no 7 de Setembro para dar uma resposta aos “surdos de capa preta”, numa alusão aos ministros da Suprema Corte.

Três dias depois, o chefe do Executivo optou por uma fala irônica na convenção do PP, que referendou apoio à candidatura bolsonarista a novo mandato. Bolsonaro disse que “não precisa de cartinha” para defender a democracia, argumentando que é democrata por natureza e pratica os valores democráticos em toda a sua gestão. Foi uma referência jocosa à profusão de manifestos e cartas subscritos por instituições de peso na sociedade civil, como a Fiesp e a Febraban, representantes máximos da indústria e dos bancos no país.

Água na fervura

Vistos como “moderados” na Esplanada, ministros como Fábio Faria (Comunicações) e Paulo Guedes (Economia) se empenham nos últimos dias para estabelecer uma interlocução “mais construtiva” com ministros do STF e do TSE, com especial foco em tranquilizar os magistrados sobre o alcance dos protestos previstos para 7 de Setembro.

Até o presidente do PL, partido de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, se reuniu com Edson Fachin, atualmente à frente da Corte eleitoral. Na conversa, o dirigente partidário procurou demonstrar que sua sigla não pretende se envolver num embate com o TSE às vésperas do pleito. Costa Neto, inclusive, é um histórico defensor das urnas eletrônicas, tendo se manifestado em vídeo postado na página oficial do PL em 2021 contra o voto impresso e fazendo elogios ao modelo de votação adotado pelo país.

O maior foco de resistência vem sendo Alexandre de Moraes, que conduz dois inquéritos que miram Bolsonaro, assessores e familiares, como o das Fake News e o dos atos antidemocráticos. Moraes, que assumirá a presidência do TSE em 16 de agosto, procura adotar medidas preventivas contra a radicalização nas ruas. Na semana passada, mandou prender um bolsonarista que gravava vídeos incitando atos de violência contra os integrantes da Corte e contra membros da campanha de Lula.

(Por Fábio Zambeli, analista-chefe do JOTA em São Paulo)