Galípolo segue favorito para comandar BC, mas Lula ainda não bateu martelo

Aos 42 anos, Galípolo foi um dos conselheiros de Lula na campanha presidencial de 2022 e atuou como número dois do ministro Fernando Haddad, na Fazenda

O diretor Gabriel Galípolo (política monetária) manteve o favoritismo na disputa pela presidência do Banco Central, apesar de votar no Comitê de Política Monetária (Copom) pela interrupção da queda dos juros –diferentemente do que queria o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Embora Galípolo continue firme no páreo, auxiliares do governo afirmam que Lula ainda não bateu o martelo sobre o indicado para suceder o atual presidente do BC, Roberto Campos Neto, cujo mandato termina em 31 de dezembro.

As especulações sobre o nome do futuro presidente do BC cresceram depois que o chefe do Executivo afirmou na terça (18), um dia antes da decisão do Copom, que escolheria uma pessoa “madura”, “calejada” e que não se submete a pressões do mercado financeiro.

A fala levou analistas da iniciativa privada a questionarem se Galípolo se encaixaria nos requisitos descritos por Lula. Pessoas próximas ao presidente, contudo, veem a declaração como uma estratégia do petista para despistar sobre a escolha. Caso deixasse muito claro o favoritismo de Galípolo para o cargo, o atual diretor de política monetária ficaria muito exposto, na avaliação de aliados do presidente.

Aos 42 anos, Galípolo foi um dos conselheiros de Lula na campanha presidencial de 2022 e atuou como número dois do ministro Fernando Haddad (Fazenda). Ele segue tendo canal direto com Lula desde que deixou o cargo de secretário-executivo e assumiu o posto no BC.

O apreço do presidente, contudo, não representa a garantia de sua indicação para a presidência do BC, de acordo com pessoas próximas a Lula. Aliados do presidente dizem também que ainda é cedo para a definição e apostam em um anúncio só depois das eleições municipais de outubro.

Um interlocutor de Lula alega que um anúncio prematuro só seria conveniente em caso de uma unanimidade na política, no mercado financeiro e na mídia –o que seria possível apenas em torno de nomes do porte do presidente do conselho de administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco.

Há o entendimento de que, sem esse raro apoio consensual, a indicação agora só exporia o escolhido.

O alinhamento de Galípolo a Campos Neto na decisão por unanimidade no último Copom levou uma ala do PT a defender a indicação do economista André Lara Resende, ex-diretor do BC e um dos idealizadores do Plano Real.

Mas não é de agora que o veterano é apontado como possível candidato a um cargo na instituição. Antes mesmo do início do atual mandato de Lula, ainda durante o governo de transição, seu nome já estava entre as apostas.

Outros nomes voltaram a ser citados na tradicional bolsa de apostas do mercado financeiro, entre eles o do diretor de assuntos internacionais e de gestão de riscos corporativos do BC, Paulo Picchetti, e de Luiz Awazu Pereira, ex-diretor do BC e ex-vice-gerente-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS, chamado de “banco central dos bancos centrais”).

O nome de Awazu voltou a ficar em evidência depois de participação remota em audiência pública da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado na terça-feira passada (18). Na sessão, ele argumentou de forma contrária à proposta de emenda à Constituição (PEC) que amplia a autonomia da autoridade monetária, mostrando alinhamento ao posicionamento do governo.

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Circulam ainda os nomes do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, e do ex-ministro Guido Mantega — este até apontado como possível recrutador em conversas com o mercado.

Em meio aos rumores, um integrante do governo lembra que o escolhido terá que ser submetido à aprovação do Senado, o que reduz as chances de indicação de nomes que hoje integram a bolsa de apostas, como Mercadante e Mantega.

Segundo a lei da autonomia da autoridade monetária, aprovada em 2021, cabe ao presidente da República a indicação dos nomes para a cúpula do BC. Posteriormente, os indicados passam por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal. Os escolhidos são, então, levados ao plenário para aprovação.

A indicação de Galípolo ao comando do BC conta com a simpatia de Haddad, de acordo com integrantes do governo. O voto do diretor no Copom foi visto pela equipe econômica como acertado e crucial para evitar uma deterioração nas condições de mercado do país, apesar de ter ido na contramão da redução de juros pleiteada por Lula.

A unidade do Copom foi vista por membros do governo como necessária para conter uma nova escalada do dólar. A moeda americana fechou cotada em R$ 5,44 nesta sexta-feira (21), após ter atingido seu maior valor nominal desde julho de 2022 (R$ 5,46) na sessão anterior.

Fontes destacam ainda que uma eventual divergência na votação poderia ter desencadeado uma crise de credibilidade do BC e levado a um aumento nas taxas de juros de longo prazo.

Publicamente, Campos Neto vem defendendo que a indicação do seu sucessor seja feita até outubro para que a transição do comando do BC seja feita de maneira suave. A tensão crescente, entretanto, potencializa desconfianças e contamina a transição colaborativa pregada pelo atual chefe da instituição.

Além do presidente, Lula também terá que indicar até o fim do ano mais dois nomes para cargos nas diretorias do BC. Em 31 de dezembro, chegam ao fim os mandatos de Otavio Damaso (regulação) e de Carolina de Assis Barros (relacionamento, cidadania e supervisão de conduta) –única mulher na cúpula da autoridade monetária atualmente.

Com informações do Valor Econômico