Mercado debate a ‘traição’ do Magalu (MGLU3) no acordo com a AliExpress

O Magalu é a única varejista nacional que restou entre os grupos líderes no mercado, com “marketplaces” abertos e venda de todos os tipos de item. Os outros são Mercado Livre, Amazon, Shopee e Shein

Não é de hoje que lideranças do Magazine Luiza (MGLU3) fazem duras críticas à entrada de produtos falsificados ou com sonegação de impostos no país. Foi a empresa que ajudou a cunhar a expressão “camelódromo digital” no setor quando Mercado Livre e AliExpress dominavam esse segmento de plataformas estrangeiras, antes mesmo de se falar tanto em Temu e Shein, como nos dias de hoje.

Também é de conhecimento do mercado que o AliExpress é uma das plataformas que foram alvo de multas pela venda de produtos falsificados no país. Uma das últimas ações do Procon tem menos de um ano, após fiscalização da entidade na empresa, no Rio de Janeiro.

É nesse ambiente que o acordo entre Magalu e AliExpress tem sido analisado por parte das empresas do setor, que se dividiram em relação à parceria.

O Magalu é a única varejista nacional que restou entre os grupos líderes no mercado, com “marketplaces” abertos e venda de todos os tipos de item. Os outros são Mercado Livre, Amazon, Shopee e Shein. As outras brasileiras, Americanas e Casas Bahia, ambas em dificuldades (em diferentes níveis), acabaram ficando bem menores nessa área.

“Estão falando nos grupos [de WhatsApp] em traição do Magalu, e a gente até entende essa primeira reação”, afirma um fornecedor de sistemas para grandes “marketplaces”. “Eu não vejo assim, é um movimento natural, é sobrevivência. Se vamos ter um ‘cross border’ dono de 70% do comércio eletrônico até 2030, o que Magalu está fazendo é por sobrevivência”, diz a fonte, que considera a possibilidade de a empresa ampliar as condições do atual acordo, limitado a uma linha do AliExpress.

Para um líder do Insituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Magalu age dentro de uma ótica econômica, porque entendeu que o grande negócio do curto e médio prazos do consumo no meio digital é trazer o lojista estrangeiro ao Brasil, e com a regulação pelo Remessa Conforme a empresa pode fazer isso sem maiores dificuldades legais.

O programa permite a nacionalização antecipada dos produtos importados, algo a ser feito pelo Magalu para uma linha da AliExpress, pelo acordo entre as partes.

Na visão de um concorrente direto do Magalu, a varejista local se aproxima dos chineses em vez de voltar para os lojistas brasileiros, algo que sempre foi o foco da empresa. Ele também critica a informação dada pelo comando do Magalu, na manhã desta segunda-feira (24), de que a parceria ocorre num momento de isonomia tributária.

Semanas atrás, o Senado aprovou alíquota de importação de 20% (era zerada antes) para itens enviados de fora do país abaixo de US$ 50, além de manter a alíquota do ICMS em 17%. No fim as contas, a carga de impostos fica em 44%. Em moda, as redes nacionais, por exemplo, pagam carga tributária de 90%.

Desde o ano passado, institutos, indústrias e varejistas locais aumentaram o tom crítico frente ao avanço das plataformas asiáticas, que trazem ao país produtos, parte deles, de origem duvidosa, sonegando impostos.

As “bugigangas” incomodavam pela concorrência desleal, e o movimento teve um grande impulso durante a gestão de Marcelo Silva, do conselho de administração do Magazine Luiza, à frente do IDV. O instituto foi co-fundado por Luiza Helena Trajano, da família que criou o Magalu.

Entre os empresários do varejo, foi Luiza Helena que fez a articulação direta com o presidente Lula para a definição de uma nova alíquota de imposto de importação para remessas abaixo de US$ 50, apurou o Valor. O varejo queria 25% de imposto e o fim da isenção. O percentual foi fechado em 20% neste mês de junho, quando o Magalu já negociava com AliExpress.

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Sobre o tema, Frederico Trajano, presidente do Magazine, disse nesta segunda-feira (24) que o acordo de entrada do AliExpress, como lojista no Magalu, envolve uma linha selecionada de itens da AliExpress, e que os controles ocorrerão dentro do programa Remessa Conforme. O programa envolve um “compliance” que os lojistas que vendem no Magalu são obrigados a seguir.

Trajano ainda disse, hoje cedo, que a empresa nunca criticou as plataformas, que o avanço das estrangeiras é inexorável, e que é o IDV que lidera as ações setoriais sobre o tema, e não o Magalu.

No domingo (23), Trajano ligou a Jorge Gonçalves Filho, presidente do IDV, quando já estava na China, no fim dos trâmites do memorando de entendimento com o ApliExpress. Ele comunicou Gonçalves sobre o acordo e defendeu a visão de uma parceria dentro de um mundo mais globalizado. A conversa foi cordial.

“Se você acha que qualquer lojista internacional que vender por meio de uma empresa nacional está fazendo algo questionável, então teremos que descredenciar todo mundo”, resume um líder do IDV. “Não há problema numa plataforma chinesa vender aqui, há se ela o faz fora das regras. É claro que se a importação de produto irregular crescer, tem algo errado, mas Magalu manterá seus controles, assim como a Receita Federal”, diz.

Atualmente, com o alto volume de importações de produtos de baixo valor da Ásia, a fiscalização é por amostragem, e não há equipes para verificação de todas as encomendas.

Com informações do Valor Econômico