Foco no Copom: veja o que esperar da próxima decisão de juros

Analistas projetam sinalização de corte da taxa nas próximas reuniões, caso contrário, BC comprará briga com Planalto

A semana terá boa parte da atenção dos investidores voltada para a política monetária, visto que são esperados movimentos importantes relacionados aos juros no Brasil e nos Estados Unidos. Na quarta-feira (22). os bancos centrais dos dois países anunciam suas novas taxas básicas de juros.

O que deve chamar a atenção do mercado, no entanto, especialmente aqui no Brasil, é o tom do comunicado do Copom em relação ao futuro da Selic. A sinalização sobre uma queda pode aproximar a autoridade monetária dos interesses do governo. Por outro lado, o silêncio pode causar atritos com o Planalto.

“Caos pode ser instalado”

Se o Banco Central não sinalizar um corte na taxa de juros na próxima reunião, o “caos pode se instalar no mercado”, avalia o economista André Perfeito. Ele acredita que o BC sinalizará uma queda para o futuro próximo, ainda que mantenha a taxa nos atuais 13,75% na próxima reunião.

A provável queda dos juros nos EUA e o potencial de sufocamento de empresas importantes na bolsa são alguns dos principais motivos para que o BC comece a apontar para um relaxamento da sua política de juros altos, diz Perfeito.

Os EUA provavelmente sinalizarão uma queda nos juros depois da crise bancária. “No relativo de taxas, haverá uma discrepância (entre as taxas americana e brasileira) que poderá apreciar muito mais o real”, diz.

Outro ponto importante, segundo o economista, é o preço das commodities, que, em queda, pune algumas das principais empresas da bolsa. Com a manutenção da política atual, outras empresas devem acelerar a desvalorização na B3. “Se os juros se mantiverem alto, empresas sensíveis ao crédito e ao consumo doméstico irão sofrer muito mais, fazendo o índice (Ibovespa) cair”, avalia.

Artilharia do Planalto contra o BC

Para Perfeito, caso o BC não sinalize uma queda nos juros, mesmo com uma crise bancária se agravando no mundo, “o Planalto e o PT irão colocar toda sua artilharia sobre o BC”, o que deve gerar “o grande problema”, na visão do analista. “Se tivermos mais uma rodada de trocas de farpas entre os dois, aí que a perspectiva de corte de juros fica impedida”, transformando “uma situação já inflamada em crônica”, completa.

Assim, a manutenção da política de juros “seria como se a autoridade monetária tivesse jurado de morte” a proposta para um novo arcabouçou fiscal “antes mesmo de ser levada ao Congresso”. A proposta deve ser apresentada antes do término das reuniões do Copom.

Itaú crê em ‘manutenção da política vigilante’

O Itaú avalia que o banco central deve manter a taxa em 13,75% na próxima reunião, “a fim de assegurar a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante de política monetária”, afirma o banco em comunicado.

“O Copom deve reforçar a sinalização de manutenção da postura vigilante da política monetária, a fim de perseverar no processo de desinflação até que a convergência às metas e ancoragem das expectativas sejam alcançadas”, completa a instituição.

Contexto macro delicado

A última leitura do IPCA registrou aceleração da inflação e deterioração do cenário, mostrando uma alta de preços mais resiliente, mas, de outro lado, o cenário de crédito complexo se deteriorou no Brasil e no exterior com a crise bancária, avalia Antonio van Moorsel, estrategista-chefe e sócio da Acqua Vero.

Nesse contexto macro desfavorável, o Copom “ganha novo argumento técnico para defender a redução da taxa de juros”, diz o analista. “Ao mesmo tempo, é possível atender o desejo do governo sem que se possa dizer que o Banco Central se dobrou às pressões políticas”, completa.

Além disso, na esfera fiscal há outros fatores que corroboram a sinalização de cortes da Selic. Por exemplo, a retomada de tributos sobre combustíveis, ainda que parcial. “Sendo assim, a expectativa para a decisão é a manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano e uma sinalização do Banco Central de iniciar o corte da taxa ao longo dos próximos meses, a depender dos desdobramentos macroeconômicos”, arremata van Moorsel.

Deterioração da atividade econômica

Para Marcela Rocha, economista-chefe da Principal Claritas, a Selic deve seguir em 13,75%, assim como o consenso. “Mas se a decisão não parece ser um tema de debate, a dúvida fica por conta do comunicado do BC”, reforça a economista ao mencionar as expectativas sobre o que o banco deve planejar para o futuro próximo da política monetária.

“Desde a última reunião, o que nós vimos foi uma deterioração adicional das expectativas de inflação no médio e longo prazo e dados do IPCA mostrando uma inflação resiliente. Por outro lado, tivemos uma redução da atividade econômica com o PIB do 4º trimestre mostrando contração”, afirma.

Regra fiscal pode alinhar acordo entre BC e governo

Nas últimas semanas, depois de um debate público entre governo e BC, o presidente Roberto Campos Neto tem preferido o silêncio. Ausente das discussões públicas, o BC se mostra alinhado com as demandas do mercado, avalia Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Diante disso, Cruz também avalia que a taxa de juros deve ser mantida em 13,75% e que o início do período de corte vai depender da capacidade do governo de apresentar um arcabouço fiscal simpático ao mercado.

“Essa questão, do novo arcabouço fiscal, deve ser determinante para imaginar quando vai poder ter realmente o primeiro corte da taxa de juros, se vai ter esse ano ou não. Se for uma regra muito rejeitada pelo mercado, dificulta muito. Mas se for bem recebida, acho que facilita o trajeto para o corte o quanto antes”, diz.

Agosto como início dos cortes nos juros

Para Daniela Lima, economista da Kinea, o BC não deve divulgar alterações significativas no comunicado do Copom da semana que vem, “deixando a sinalização de corte tão aguardada pelo mercado para um pouco mais adiante”, avalia.

“Seguimos com o cenário de corte de juros a partir de agosto. A desaceleração da economia, aliado à descompressão no núcleo de inflação ao longo do ano, e o horizonte de 2024 deverá levar o BC a gradativamente reduzir a taxa de juros contracionista a partir de agosto”, afirma Daniela.

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