André Braz, da FGV: ‘Juros altos e demanda global fraca devem manter inflação sob controle’

Economista avalia que risco de crise bancária pode trazer a necessidade de rever os juros altos mais cedo

A inflação deve permanecer baixa, embalada pelos juros altos e pela desaceleração da economia global. A análise é de André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), para quem a alta de 0,05% do Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) em março, anunciada nesta quinta-feira (16), mostra claramente os efeitos de uma Selic que já atingiu a “maturidade” – quando seus efeitos já chegaram à economia real – aliada ao menor crescimento do mundo como um todo.

“Isso ajuda a segurar a demanda”, diz Braz.

Em março, o IGP-10 subiu 0,05%, depois de ter avançado 0,02% em fevereiro. No ano, o índice acumula alta de 0,12%, com crescimento de 1,12% em 12 meses. Há um ano, o IGP-10 acumulava inflação de 14,63% em 12 meses, com crescimento de 1,18% apenas em março.

Dentre os componentes do IGP-10, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-10), que tem peso de 60% no índice, caiu 0,07% este mês, depois de já ter recuado 0,14% em fevereiro. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC-10), que tem peso de 30%, subiu 0,47% este mês depois de avançar 0,55% no mês passado, e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-10) variou 0,12% em março, abaixo dos 0,33% de fevereiro.

Braz pondera que esse comportamento da inflação tem como principal desafio no horizonte o risco de crise bancária internacional, que teve como principais desdobramentos até aqui a quebra do banco SVB nos Estados Unidos e os problemas identificados no Crédit Suisse.

“Essa crise pode trazer a necessidade de rever os juros altos mais cedo do que se imaginava porque pode ser urgente aumentar a liquidez. Esse juro alto começa a ser desafiado pela tempestade que chega no horizonte”, afirma o economista.

Mas no Brasil, ele pondera, esse efeito na inflação deve chegar apenas no fim do segundo semestre, com mais impacto nos índices de 2024, uma vez que as mudanças nas taxas de juros costumam demorar a fazer efeito na economia real. “Para este ano deve prevalecer o efeito do aumento do custo do dinheiro e o impacto que isso traz para a atividade. Esse dinheiro mais caso segura a inflação mais baixa”, diz.

Ele ressalta que, nos IGPs, o IPA conta “uma história diferente” em relação ao IPC e os preços no varejo. Isso porque os preços ao produtor refletem mais diretamente os efeitos da baixa demanda global e dos juros altos sobre as commodities e os insumos industriais. “No IPA não tem serviços nem preços monitorados, que é onde está a pressão em 2023”, explica o economista.

Entre fevereiro e março, dentro do IPA, os Produtos Industriais passaram de +0,10% para -0,32%, sob influência de Produtos Derivados de Petróleo e Biocombustíveis (de -1,07% para -2,33%), Produtos Alimentícios (de -0,89% para -1,24%) e Produtos Químicos (-1,58% para -1,69%). Na análise por estágios de processamento, os preços dos Bens Finais variaram de 0,20% em fevereiro para 0,31% em março; a taxa do grupo Bens Intermediários passou de -0,65% em fevereiro para -1,25% em março; e o grupo Matérias-Primas Brutas passou de 0,10% em fevereiro para 0,88% em março.

No varejo, a desaceleração do IPA influencia os bens duráveis e a alimentação. Neste sentido, no IPC, Educação, Leitura e Recreação passou de 1,51% em fevereiro para -1,04% em março; Despesas Diversas foram de 1,77% para 0,18%; Alimentação passou de 0,23% para 0%; e Comunicação foi de 0,99% para 0,52%.

As principais contribuições para esse movimento partiram dos seguintes itens: cursos formais (4,77% para 0,00%), serviços bancários (2,76% para 0,00%), frutas (2,96% para 0,55%) e combo de telefonia, internet e TV por assinatura (2,57% para 0,19%).

Em contrapartida, os grupos Transportes (0,52% para 1,24%), Habitação (0,32% para 0,81%), Saúde e Cuidados Pessoais (0,45% para 0,87%) e Vestuário (-0,30% para 0,25%) apresentaram acréscimo em suas taxas de variação. Nessas classes de despesa, as maiores influências partiram dos seguintes itens: gasolina (-0,15% para 2,89%), aluguel residencial (-0,55% para 3,43%), artigos de higiene e cuidado pessoal (-0,13% para 1,66%) e roupas (-0,47% para 0,21%).

Braz ressalta que, nos preços ao consumidor, as principais pressões em 2023 deverão vir dos serviços livres e dos preços administrados, como aluguel e mensalidades escolares. Ele lembra que muitos monitorados, como a energia, vão sofrer os efeitos da renúncia fiscal de 2022, uma vez que a cobrança dos impostos vai aos poucos retornando este ano.

“Muitos Estados estão revendo a cobrança de ICMS na conta de energia. Haverá a volta da influência de impostos federais que foram retirados no ano passado”, diz Braz.

Sobre o câmbio, o economista do FGV Ibre disse esperar um comportamento volátil no curto prazo, fruto das incertezas a respeito da crise bancária no exterior. “[O dólar] Vai ter picos e sobe-desce até se ajustar”, afirma.

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