Por que as criptos (ainda) não viraram febre mundial?

Ouvimos quatro especialistas para entender o que está acontecendo com as criptomoedas neste ano. Confira!

Muita gente pode estar se perguntando “por que as criptomoedas estão caindo?”. Afinal, essa é uma impressão que podemos ter ao acompanhar as notícias. Mas será que faz sentido e que as criptomoedas estão caindo mesmo? (Alerta de spoiler!)

Pois bem! Para entender o que está acontecendo com as criptomoedas, conversamos com quatro especialistas. Eles são Luísa Pires, Head de criptoativos da Levante Investimentos, Luiz Pedro, sócio e analista de criptoativos da Nord Research, Ricardo Pegnoratto, analista e especialista em criptoativos Top Gain, e Thiago Rigo, analista da Titanium.

Por que as criptomoedas estão caindo em 2023?

Se você tem a impressão de que as cripto estão em baixa e quer saber por que as criptomoedas estão caindo em 2023, temos um alerta importante.

Nossos quatro especialistas são unânimes ao afirmar que elas não estão caindo, muito pelo contrário. É isso mesmo… Pode até parecer que não, mas elas (em geral, claro!) têm subido em 2023.

Entenda o movimento das criptomoedas de janeiro a julho

Luiz Pedro, da Nord Research, não faz meias palavras para explicar esse movimento. “Das 227 criptos que têm pelo menos US$ 100 milhões de valor de mercado, 170 estão em alta”, afirma.  

Luísa, da Levante Investimentos, segue o mesmo raciocínio. “A grande parte das criptomoedas/tokens com um projeto e proposta sólida se valorizou em 2023”, diz ela.

Ricardo, da Top Gain, chama a atenção para o TOP10 da categoria e sua alta ou baixa acumulada de janeiro a julho. Das dez cripto que compõem a lista, apenas 3 tiveram queda – USDT (queda de 7,33%), BNB (queda de 1,22%) e USDC (queda de 7,49%).

Aqui estão os dados que ele compilou:

  • BTC – Alta acumulada de 79%;
  • ETH – Alta acumulada de 58%;
  • USDT – Queda acumulada de 7,33%;
  • BNB – Queda acumulada de 1,22%;
  • XRP – Alta acumulada de 115%;
  • USDC – Queda acumulada de 7,49%;
  • DOGE – Alta acumulada de 4,64%;
  • ADA – Alta acumulada de 19,75%;
  • SOL – Alta acumulada de 146%;
  • TRX – Alta acumulada de 54,07%.

“Estamos em um momento de consolidação do mercado de criptomoedas, mas não podemos dizer que elas estejam caindo”, define Luiz Pedro.

O que está acontecendo com o bitcoin (BTC)?

Falando especificamente sobre o bitcoin, Ricardo faz um detalhamento: de 1º de janeiro até o momento em que falamos (no dia 8 de agosto), o bitcoin já acumulava 79,20% de alta. “Porém, se analisarmos desde a mínima até a máxima, já são mais de 90% de alta”, diz ele.

Principais motivos para valorização do bitcoin

Thiago acredita que existam muitos motivos para a valorização do bitcoin. “Em 2022, com o aumento das incertezas macroeconômicas e os episódios de quebra de alguns protocolos e empresas cripto, as moedas tiveram quedas relevantes”, diz ele. Por isso, claro, chegaram a 2023 em patamares descontados.

“O bitcoin começou o ano por volta dos US$ 16 mil, contra os atuais US$ 29 mil”, lembra. E Luísa complementa. “O mercado de criptoativos se recuperou significativamente após um ano de 2022 repleto de quedas, com a capitalização total do setor crescendo 47%, ou seja, cerca de US$ 363 bilhões.”

Na opinião de Thiago, vários fatores deram impulso ao bitcoin. Entre eles estão essa percepção de valor descontado (ou seja, está barato), uma maior atenção dos agentes institucionais e o cenário macroeconômico mais claro.

Além disso, ele ressalta a boa performance dos ativos de risco e a injeção de liquidez na economia por parte do FED, em resposta à crise bancária.

Para o analista da Titanium, o maior gatilho de preço do bitcoin está na intenção de gigantes do mercado, como BlackRock, Invesco e Fidelity, de criarem produtos baseados na criptomoeda. “Um exemplo são os ETFs, que ainda não existem no mercado americano”, detalha.  

“Caso esses ETFs sejam aceitos pelos reguladores, a pressão compradora no mercado seria grande, uma vez que o varejo americano ainda não possui alternativas acessíveis de investimento em bitcoin no mercado tradicional”, acredita o analista.

Menor apetite a risco pode favorecer bitcoin

Luísa ainda alega que o período atual, de juros altos e menor liquidez, semeia um apetite a risco inferior ao de um bull market. “Isso leva investidores em geral a migrarem para uma criptomoeda mais consolidada que, no caso, é o bitcoin”, acredita.

No seu raciocínio, esse processo leva a um aumento da dominância da cripto, o que basicamente significa que ele está ganhando e crescendo sua fatia do mercado em relação às outras.

“Esse processo é cíclico e já foi observado em outros momentos de juros elevados”, diz ela. Ao mesmo tempo, ela pondera que o movimento tende a se reverter à medida em que o período de contração monetária global vai terminando.

Outras criptomoedas que tiveram alta relevante em 2023

Além de bitcoin e ethereum, que ocupam o topo do ranking das criptomoedas, Ricardo destaca outras três criptos que tiveram alta importante em 2023.

A primeira da sua lista é XRP. “Ela chegou a subir – da mínima à máxima – mais de 220% e acumula, nesse momento, 115% de valorização”, diz ele.

Outro destaque é a Ripple, empresa responsável pelo token XRP, que vinha enfrentando um processo contra a SEC. “Em julho, porém, ela obteve vitória em algumas questões e isso fez o preço do token explodir”, diz ele. “No dia, chegou a subir 101%, mas acabou fechando com alta de 73,3%”.

O terceiro destaque vai para Solana. “Ela subiu mais de 230% no ano e acumula agora 146% de valorização”, afirma. “Seu preço está subindo porque a rede tem se tornado cada vez mais popular entre os desenvolvedores”, acredita o especialista.

Na sua opinião, essa popularidade se deve, em parte, à velocidade, eficiência e escalabilidade da rede que pode processar milhares de transações por segundo. “Além disso, instituições financeiras, como Goldman Sachs e JPMorgan Chase, estão começando a usar a Solana para executar aplicativos descentralizados (DApps)”, afirma Ricardo. “Isso está aumentando a demanda por tokens Solana (SOL), o que impulsiona o preço da moeda.”

Como as principais criptomoedas se comportaram nos últimos 12 meses?

A coisa muda um pouco de figura quando perguntamos aos especialistas como as cripto se comportaram nos últimos 12 meses.  

“Nessa janela, ou seja, desde agosto de 2022, o mercado oscilou bastante, com quedas acentuadas e eventos negativos”, constata Luiz Pedro.

“Tivemos, em novembro, a insolvência e a quebra da FTX, segunda maior corretora do mundo na época”, lembra o sócio e analista de criptoativos da Nord Research. “Isso jogou os preços para os patamares mais baixos desde agosto de 2020”, avalia.

No entanto, na sua opinião, o começo de 2023 trouxe um certo otimismo para o mercado, com a retomada da narrativa do bitcoin como reserva de valor alternativa ao USD, puxado pela crise bancária que se instalou nos EUA. 

“Além disso, vimos bons criptoativos retomando uma alta nos preços, puxados por um crescimento, ainda que singelo, do interesse por esse mercado”, diz ele.

O Thiago, da Titanium, chama a atenção para outro dado. “Considerando os últimos 12 meses –  e não Year-To-Date – o retorno do bitcoin cai para 23%, em consequência dos episódios de instabilidade que estressaram o preço das moedas no ano passado”, avalia. “Apesar disso, pela rentabilidade positiva, é perceptível que o mercado já se recuperou desses acontecimentos”, diz ele.

O ethereum, ele lembra, teve alta de apensa 3,52% no período de 12 meses, contra cerca de 58% apenas em 2023.

Mas por que parece que as criptomoedas estão caindo?

Ainda que os especialistas sejam unânimes em afirmar que, no geral, as criptomoedas estão em alta em 2023, existem lá suas exceções. Algumas cripto estão mesmo caindo em 2023.

E, possivelmente, por causa delas (e ainda sob os impactos das oscilações de 2022) é que muita gente pode ter a impressão de que as criptomoedas estão caindo.

Quais são as criptomoedas que mais caem em 2023?

Confira a seguir algumas cripto que tiveram queda neste ano e são destacas pelos nossos especialistas.

PancakeSwap (CAKE)

“As criptos que apresentam quedas relevantes em 2023 são pouco conhecidas ou têm algum problema estrutural associado a elas”, afirma Luiz Pedro. Para justificar ele apresenta dois exemplos.

Um deles é a PancakeSwap (CAKE). Nas suas palavras, uma exchange descentralizada que se alimentou das narrativas de jogos NFT na blockchain da Binance, mas que não tem fundamentos interessantes com respeito ao seu token, o CAKE.

LUNC

O outro exemplo é o LUNC, token relativo à blockchain Terra. “Ele protagonizou uma catástrofe em 2022, caindo 99% em menos de uma semana e levando diversas empresas à falência”, diz ele. “Tudo isso devido à perda de lastro de uma moeda que supostamente era pareada ao dólar, o TUSD”, explica Luiz Pedro.

Algorand

Ricardo destaca outros três projetos, já fazendo a ressalva de que houve outros que caíram quase 100%. “A maioria, porém, é memecoins, ou seja, não são projetos sólidos de fato”, afirma.

Seu primeiro destaque é a Algorand. “Ela caiu cerca de 62% até agora”, contabiliza. Para quem não conhece, o especialista explica que se trata de uma plataforma de blockchain pública e sem permissão que visa ser escalável, segura e descentralizada.

“Ela foi fundada em 2017 por Silvio Micali, um ganhador do Prêmio Turing e professor do MIT”, diz ele. A Algorand usa um protocolo de consenso de Prova de Participação (PoS) puro, que é projetado para ser rápido, eficiente e seguro.  

“Sua queda forte esse ano, porém, está relacionada ao momento que a Algorand está passando”, opina. “Ela está em desenvolvimento e, por isso, sua adoção ainda não foi tão expressiva quanto a de outras blockchains”, explica.

SushiSwap

A segunda cripto da sua lista é a SushiSwap, que, neste ano, acumula queda de aproximadamente 56%, segundo o especialista. “Ela é uma exchange descentralizado (DEX) construída na blockchain ethereum”, diz ele.

Segundo o especialista, sua queda ocorre principalmente por causa de concorrência e escândalos. “O mercado de exchanges descentralizadas (DEXs) está se tornando cada vez mais competitivo, com outros DEXs, como Uniswap, PancakeSwap e Curve, tornando-se mais populares”, diz ele.

Além disso, ele lembra que SushiSwap foi envolvido em uma série de escândalos, incluindo um hack em setembro de 2021 que levou à perda de mais de US$ 100 milhões em tokens SUSHI. “Esses escândalos danificaram a reputação do SushiSwap e levaram a uma diminuição na confiança dos investidores”, diz ele.

HuobiToken

A terceira cripto destacada pelo analista e especialista em criptoativos da Top Gain é a HuobiToken, que já acumula quedas de 72% aproximadamente.

“O Huobi Token (HT) é o token nativo da Huobi Global, uma das maiores exchanges de criptomoedas do mundo”, diz ele.

Na sua opinião, o maior catalisador para a queda do token está relacionado aos recentes rumores de falência da exchange HUOBI. “Recentemente, em apenas 2 dias, foram sacados mais de US$ 64 milhões de clientes em desespero para resgatar seus fundos”, lembra.

Polygon

Por fim, Thiago, da Titanium, destaca a Polygon (MATIC).

“Apesar dessa solução de escalabilidade do ethereum ser uma das preferidas do mercado, ela recuou 11% devido a questões de regulação e atualização do próprio protocolo”, diz ele.

E quais são as perspectivas para as cripto ainda em 2023?

Na opinião de Luiz Pedro, a perspectiva para as criptos até o final do ano é que haja uma maior clareza no cenário regulatório, principalmente dos EUA. “Isso pode trazer maior tranquilidade tanto para os investidores quanto para os desenvolvedores que atuam diretamente na construção deste mercado”, diz ele.

Difícil prever como estarão os preços

Do ponto de vista de preço, ele acredita que seja impossível prever. “Ainda assim, não vejo um risco acentuado de queda forte no radar”, afirma.

“O que vem segurando um novo ciclo de alta do mercado de cripto ativos, isso inclui o bitcoin, é o cenário macroeconômico, devido aos juros altos nas principais economias, com destaque para os EUA, e o cenário regulatório que vem se estruturando progressivamente”, diz ele.

O sócio e analista de criptoativos da Nord Research acredita que a aprovação de um ETF de bitcoin nos EUA possa ser um fator positivo para o preço no segundo semestre (e no longo prazo). “Mas a SEC, órgão regulador dos EUA, ainda não deu nenhuma resposta definitiva aos pedidos de emissão que estão sendo julgados”, pondera.

Contexto macro pode ajudar

Thiago também acredita que, com um contexto macroeconômico mais definido do que vimos ano passado e um cenário regulatório mais favorável, seja provável que as criptos defendam os níveis de preço atuais. “Alguns dos principais drivers que seguraram as cotações se dissiparam”, diz ele.

Apesar disso, ele alerta que existem alguns pontos de atenção. “Apesar da melhora, o cenário futuro para a política monetária e economia dos EUA ainda não eliminou completamente a possibilidade de riscos de cauda, como a volta da pressão inflacionária, recessão nos próximos trimestres ou novos problemas com crédito”, diz ele. “Todos esses acontecimentos podem trazer volatilidade para as criptos.”

E, para completar, Luísa, da Levante Investimentos, também acredita que o mercado continua bastante dependente da variável macro, que tem como base as decisões do Federal Reserve.

“Daqui para frente, prevemos uma abordagem mais passiva do Banco Central Americano, uma vez que o nível dos juros já se posiciona de maneira elevada e a margem para novos aumentos já é pequena”, diz ela.

“Esse cenário favorece ativos de risco como as criptomoedas, que historicamente despontam com as reduções nos juros”, avalia.

Vale investir em cripto neste momento?

Quer saber se os especialistas acham que vale investir em cripto agora? Essa é sempre uma boa pergunta. Mas Luiz Pedro tem uma boa resposta – sempre depende do apetite a risco do investidor.

“Porém, como analista, acredito que seja, sim, um bom momento para fazer aportes no mercado de criptoativos”, diz ele. Mas com um porém. “Sempre com uma parcela pequena do seu patrimônio.”

Principais alertas para quem pensa em investir em cripto

Para quem quiser entrar nessa onda, ele alerta que é importante ter em mente que criptoativos são investimentos de renda variável. Ou seja, não há garantia de retorno. Também é importante entender que é um investimento de longo prazo.

Luísa também acredita que seja um bom momento para esse tipo de investimento. “Observamos uma tendência clara de ciclos de valorização em momentos como esse, precedendo um maior fluxo de liquidez monetária sobre o mercado de risco global”, avalia.

Em termos de rede, ela diz que é evidente um período de acumulação na rede do bitcoin pelos dados extraídos da própria blockchain. “Isso indica que os investidores já estão se posicionando para um ciclo de alta”, acredita.

Ricardo assina embaixo. “Com toda a certeza é um momento”, diz ele. “Não estar principalmente no bitcoin agora é como quem ter comprado lá atrás a US$ 3,5 mil e depois ver os preços a US$ 20 mil”, compara.

“Momentos de correção e lateralização, são justamente aqueles em que o mercado dá descontos para comprar mais barato”, alerta.

Perspectivas para o bitcoin

E Thiago segue o mesmo raciocínio. “Apesar da alta de 75% desse ano, podemos ver que o bitcoin ainda está muito abaixo de seus topos históricos, sendo que o movimento desse ano veio basicamente para cobrir o patamar ‘ultra-descontado’ em que a moeda entrou no último ano”, diz ele.

Ele acredita que o bitcoin seja, neste momento, um ativo alternativo que chama a atenção para a diversificação do portfólio. Ainda assim, alerta que a decisão de investimento deve ser feita de forma pessoal. E sempre analisando o cenário de forma não enviesada.

Por fim, por que as cripto ainda não viraram febre mundial?

E agora, resgatando a pergunta inicial do título, nossos especialistas opinam sobre o que ainda impede as criptomoedas de se tornarem uma febre mundial.

Mais um spoiler? De forma simplificada, os especialistas indicam que pode ser apenas uma questão de tempo.

Escalabilidade e experiência do usuário são desafios

Para Luiz Pedro, os grandes desafios da criptomoeda são experiência do usuário e escalabilidade. “São os dois pontos que ainda não permitem que ela seja amplamente adotada, ainda que a adoção venha crescendo desde sua criação em 2009”, diz ele.

“O número de usuários cresce, o número de transações cresce e o caminho está sendo trilhado”, afirma.

Mercado de cripto ainda é muito jovem

Para Ricardo, a expectativa de que as criptos se tornem uma febre mundial está se tornando cada vez mais uma realidade.

“O que acontece, de modo geral, é que temos um mercado extremamente jovem, que está na sua adolescência e que ainda tem muito para crescer e se desenvolver em vários aspectos, tanto regulatórios, quanto de adoção, desenvolvimento e expansão”, afirma.

E Thiago assim embaixo. Ele lembra que o bitcoin tem 14 anos de idade – contra mais de 400 do mercado acionário e alguns milhares do ouro, por exemplo.

“Todos esses ativos são alternativas de investimento, mas a maior diferença entre elas é que o ouro e as ações têm um histórico robusto e se provaram para os investidores inúmeras vezes, apesar de ocasionais turbulências”, afirma.

Para o analista da Titanium, as criptos já reafirmaram seus fundamentos, mas os grandes gestores de Wall Street aprenderam a ser muito cautelosos em relação aos produtos que são ofertados aos seus clientes.

“Para conquistar a confiança, é preciso tempo”, diz ele. “E é por isso que demorou tanto para que o tópico ‘criptomoedas’ começasse a ser considerado mais seriamente, como é agora”, afirma.

Para finalizar, ele acredita que a “febre mundial” deve ocorrer quando a adoção institucional estiver a todo vapor e sob uma estrutura regulatória muito mais clara. E, na sua observação, os avanços de 2023 parecem trilhar esse caminho. É pagar (ou não!) para ver.