Primeiro trimestre premiou investidor que segurou ativos de risco na carteira

Segurança da renda fixa também foi contemplada nos três primeiros meses de 2022

O Brasil dos juros de dois dígitos produziu um primeiro trimestre de bons resultados para os investidores. Valeu para quem ficou na segurança da renda fixa e, mais ainda, para os que se encorajaram a permanecer no risco bolsa e em classes de maior volatilidade, como multimercados e fundos de ações.

O Ibovespa, principal termômetro do mercado de renda variável local, exibiu uma valorização de quase 15% no acumulado do ano (o principal índice da B3 fechou o período com valorização de 34,39% em dólar), empurrado pelo capital externo. O fluxo de dinheiro novo também levou à queda do dólar e quem tinha recursos na moeda forte viu essa parcela da carteira encolher no período.

Guerra entre Rússia e Ucrânia, novos casos de covid-19 na China com políticas de paralisação de atividades em Xangai, ajuste da política monetária americana e eleições no Brasil no segundo semestre? Há todos esses componentes entre os fatores de risco, mas quando se olha a fotografia deste início de 2022 nem parece que o filme está sujeito a reviravoltas. A inflação local e nos EUA segue como fonte de preocupação.

Só que é justamente em períodos de maior aversão a perdas, quando o investidor se retrai e vai em massa para a renda fixa, que pode estar o melhor momento para compor a carteira com ativos de maior risco. Na bolsa, se num primeiro momento o fluxo tem privilegiado ações de fabricantes de matérias primas, é de se esperar que, com o fim do processo de alta de juros, papéis ligados ao ciclo doméstico tenham bom desempenho.

Com novos choques inflacionários decorrentes da guerra entre Rússia e Ucrânia e o cenário de aperto monetário nas economias desenvolvidas, Rodrigo Eboli, gestor de recursos da Brainvest, diz que o mais prudente é manter uma carteira bem diversificada sem correr grandes riscos. Por mais que os ativos locais tenham performado bem ao longo do trimestre, o Brasil não teve grandes melhorias em termos de fundamentos de dezembro para cá.

“Tem eleição pela frente, que está longe de ser definida, a dúvida sobre qual política fiscal terá o próximo governo, mas, como os preços estavam muito deprimidos, com câmbio, juros e bolsa já refletindo um elevado grau de pessimismo, houve essa recuperação”, afirma Eboli.

“A gente continua achando o ano desafiador, é para ter risco, mas não ficar com o pote cheio. A principal lição do primeiro trimestre foi a importância de não se deixar contagiar pelo excesso de pessimismo, como no fim do ano passado, quando os preços de mercado refletiam isso. Quem foi resiliente não trocou a carteira agora está colhendo os frutos”, acrescenta.

Dado o conjunto de incertezas, com choque de petróleo e a confusão geopolítica, a eleição no Brasil parece ter assumido um papel coadjuvante, diz Renato Junqueira, sócio-gestor da Gap Asset Management. “O mercado pode precificar uma coisa ou outra, não deve alterar muita coisa até o segundo semestre. Os preços estarão mais sujeitos ao cenário global.”

Conteúdo publicado originalmente na edição de sexta-feira (1) do jornal Valor Econômico