Caso Americanas e atos golpistas afetaram o investimento estrangeiro na B3?

Eventos acontecidos em janeiro estariam minando a credibilidade no Brasil

O investimento estrangeiro na bolsa de valores brasileira, a B3, bateu recorde em 2022.

De acordo com dados da própria instituição, aportes vindos de fora do Brasil superaram a marca de R$ 100 bilhões no ano passado. Os não residentes aportaram R$ 100,8 bilhões no ano passado em ações no mercado secundário, maior valor desde 2016, quando a B3 passou a divulgar os dados.

Mas o investidor estrangeiro, antes mais otimista com o cenário interno do Brasil somado ao ambiente macroeconômico favorável, reduziu o ânimo com relação ao mercado de capitais local.

Os atos golpistas de 8 de janeiro, apelidados de ‘Capitólio brasileiro’, e o rombo na Americanas são responsáveis? Sim. Mas o governo Lula também é, na visão de investidores ouvidos pela Inteligência Financeira.

Apesar do mês de janeiro estar sendo conturbado, o investidor estrangeiro ainda espera que o cenário internacional favoreça os papéis listados na B3.

Volume de investimento estrangeiro cai, mas continua positivo

Por enquanto, o saldo dos investidores estrangeiros na B3 em janeiro é positivo. O mês registrou, até quinta-feira (19), a entrada de R$ 4,97 bilhões segundo um relatório da casa de análises Eleven.

Mas, desde a eleição de Lula, houve uma queda no volume positivo de aportes de gringos.

Em 2022, o investimento estrangeiro teve maior nível de entrada anual nos primeiros meses: em janeiro, R$ 23,39 bilhões; em fevereiro, R$ 24,31 bi; e em março, R$ 21,36 bi.

A partir da eleição, a entrada foi positiva em novembro e em dezembro, quando a B3 registrou fluxo de entrada de R$ 2,92 bilhões e R$ 15,22 bilhões, respectivamente.

A queda no ritmo de investimento estrangeiro se deve a uma mudança na percepção sobre o novo governo Lula. O sócio da corretora NCH Capital, James Guldbransen, explica que houve uma “decepção total na semana após a eleição”.

A avaliação é de que o termômetro do ânimo dos investidores americanos com relação ao Brasil foi baixando, conforme vinham as falas do time econômico de Lula contra o mercado, com ministros disparando opiniões desfavoráveis às reformas do Trabalho e da Previdência.

“O gringo, em geral, tem um viés positivo com o Lula porque foi ele que comandou o Brasil durante alguns dos melhores anos da bolsa”, diz James.

Mas o que aconteceu para Lula perder esse brilho? “Desde a eleição, as notícias que saíram do time econômico e algumas das falas [de Lula] criaram uma preocupação com os investidores que conheço”, afirma o sócio da NCH Capital.

Como atos golpistas afetaram o investimento estrangeiro?

Portanto, o momento é de cautela para o gringo. A tentativa fracassada de golpe institucional do dia 8 de janeiro, foi respondida de forma enérgica pelos Três Poderes.

Com o Palácio do Planalto, Congresso Nacional e prédio do STF (Supremo Tribunal Federal) depredados, a resposta rápida da corte e da classe política ajudou a acalmar os ânimos do investidor estrangeiro, visto que a invasões em Brasília estampou a capa dos principais jornais no dia seguinte.

Nenhum estrangeiro considerou a possibilidade de um golpe na margem dos aportes, diz Antônio Miranda, diretor-executivo de investimentos da Compass Invest. A reação calma do mercado no ‘day after‘ da invasão surpreendeu positivamente — o real não oscilou para baixo frente ao dólar, o que costuma a ocorrer quando a mensagem é de fuga.

O dólar fechou em alta na segunda-feira (9), um dia depois de bolsonaristas invadirem e depredarem o Congresso, o Palácio do Planalto e o STF. A moeda norte-americana avançou 0,41% no dia9, cotada a R$ 5,2570. Apesar dos ataques às instituições em Brasília, não houve pânico no mercado financeiro. A rápida resposta dada pelas lideranças das instituições brasileiras tranquilizou a reação dos investidores.

“Nossas instituições têm se mostrado capazes de criar estabilidade. E isso se compara com outros mercados emergentes, como asiáticos, africanos, e do leste europeu. O que acontece, muito claramente, é que existe uma visão de que, com a China reabrindo sua economia e diminuindo as medidas de proteção [contra a Covid-19], a economia chinesa pode estar reaquecendo e, com isso, países como o Brasil se beneficiariam.”

Antônio Miranda, CIO da Compass

Caso Americanas mina confiança do gringo

O caso de rombo na contabilidade da Americanas continua a assustar o investidor estrangeiro. A inconsistência no balanço da varejista foi assunto nos corredores de Davos. Investidores internacionais questionaram banqueiros e gestores brasileiro sobre o que ocorreu com a companhia de capital aberto.

Com a Americanas de barriga para cima, e recorrendo à Justiça em processo de recuperação judicial, o caso piora a credibilidade dos investimentos, afirma Kevin Munier, diretor de Private Equity e Performance Improvement da consultoria empresarial Alvarez&Marsal.

Especialmente porque o caso envolve uma gigante da bolsa — antes do rombo ser descoberto pelo ex-CEO, Sergio Rial, a companhia tinha valor de mercado de R$ 10,82 bilhões. Hoje, vale R$ 640,8 milhões.

Para o francês, que atua como guia para mostrar ao gringo como investir no Brasil, tanto o ‘Capitólio brasileiro’ quanto o caso Americanas mostram a volatilidade no mercado latino-americano. “O maior desafio atual do Brasil é ter credibilidade”, reforça Munier.

“É ser capaz de mostrar para o mundo que o Brasil talvez seja emergente por alguns critérios, mas que tem um grau de sofisticação como o dos países desenvolvidos. Há regras constantes, e não pode acontecer o que aconteceu nos últimos dias [atentado à democracia e rombo na Americanas]”, diz.

Munier avalia que alguns setores do mercado brasileiro são potências para atrair investimentos de fora, como educação e saúde.

“As pessoas estão atentas à oportunidade. Temos fundos de investimento de Private Equity que têm dinheiro para alocar, fazer o chamado capital deployment. Os fundos e os empresários estão atentos. O momento pode ser turbulento, com o cenário político e econômico em adequação, mas temos projetos em diversos setores.”

Kevin Munier, da Alvarez&Marsal

Bolsa brasileira pode melhorar daqui pra frente?

O risco de um mandato de Lula mais intervencionista na economia ainda dificilmente foi precificado pelo investidor estrangeiro, diz James. Isso porque o investidor local é mais especializado em precificar os ativos de acordo com guinadas na política nacional.

O investidor americano avalia que o Brasil passa por um momento de ‘wait and see‘, onde o risco político pode derrubar os papéis. “Está muito difícil dizer que o risco de um ‘Dilma 3’ foi precificado pelos estrangeiros. Porque eles tem medo de um ‘Dilma 3”, afirma James Guldbranssen.

O que deve jogar a favor da B3 no primeiro semestre é a reabertura chinesa, a inflação mais controlada a partir do ciclo de alta de juros do BC, e o ciclo de alta de juros do Fed (Federal Reserve), previsto para terminar dentro dos próximos seis meses.

Já Munier, acredita que seja cedo demais para criticar o novo governo. Para o executivo, quem deve controlar mais a criação de políticas dentro do governo são o segundo e terceiro escalão dos ministérios. São nomes que podem trazer mais estabilidade à política brasileira. “São essas pessoas que tocam o dia a dia dos ministérios, não são apenas os ministros.”

Contudo, ainda falta resolver o maior problema para atrair capital estrangeiro: a estabilidade das contas públicas. Nesse sentido, diz Munier, a mudança prevista na âncora fiscal, com extinção do teto de gastos como parâmetro para a trajetória da dívida pública, pode ser vista com desconfiança pelo gringo.

“Qualquer mudança no critério de avaliação para o investidor estrangeiro é um ponto de interrogação. ‘Por que você mudou o critério? Você quer esconder alguma coisa? O modelo antigo tinha algo de errado?’ Isso também traz instabilidade e perda de credibilidade”, diz o executivo da Alvarez&Marsal.

Queda do investimento estrangeiro prejudica B3?

Dúvidas sobre quais ações comprar? Veja 10 recomendações de especialistas para janeiro. Os perfis de análise do cenário nacional são distintos. O brasileiro é bem mais experiente ao aferir sobre a microeconomia da própria bolsa, assim como o gringo tem o olhar mais global do mercado.

Mas a queda no fluxo de investimentos estrangeiros prejudica principalmente a bolsa.

“Quando o investidor estrangeiro entra na B3, na maioria das vezes, compra commodities e bancos, se a entrada [de capital estrageiro]cai, o mercado fica com pouca liquidez, os preços dos papeis andam de lado”, diz Reinaldo Oliveira, sócio da corretora Renova Invest, ao lembrar que o investidor pessoa física não tem tanta força quanto os estrangeiros [institucionais] no que se refere a volume de negociações na B3.

“Isso acontece muito quando é feriado nos Estados Unidos, a liquidez cai”, acrescenta.

Ele usa como exemplo o volume financeiro no dia 16 de janeiro, conhecido pelos americanos como o feriado do Dia de Martin Luther King. Na data em questão, negociações na B3 somaram algo em torno de R$ 14,5 bilhões. Em dias normais, as negociações têm girado em torno de R$ 22 bi a R$ 25 bi.

Como está o investidor local?

O investidor local já esteve mais pessimista em relação ao governo Lula. Com algumas crises apagadas e a falas na economia que geraram estresse nos ativos, agora o investidor brasileiro arrefece suas críticas, em meio às alegações ‘pró-mercado’ dos governantes. O mercado aguarda novidades com relação às reformas, como a do trabalho e a da Previdência.

Ainda assim, o saldo do investidores institucionais e pessoas físicas em janeiro é negativo, aponta Reinaldo.

“Houve uma queda no mercado secundário e primário. Ao mesmo tempo em que tivemos um recorde de entrada de recursos estrangeiros na B3, o investidor institucional [instituição que gere o capital de terceiros] ainda está com saldo negativo.”

Reinaldo Oliveira, da Renova Invest

Por enquanto, a posição do investidor institucional em janeiro na B3 é de venda, com fluxo negativo de R$ 5 bilhões. Os investidores individuais sacaram R$ 617 milhões da bolsa desde o começo deste mês.