Vale a pena comprar um carro em 2022?

Especialistas avaliam que, em razão das dificuldades enfrentadas pela indústria, o melhor momento para adquirir um veículo pode ficar para o fim de 2022 ou início de 2023

Está na hora de abrir mão do seu carro?
– Ilustração: Marcelo Andreguetti/Inteligência Financeira

Pontos-chave

  • Os brasileiros parecem estar otimistas para colocar os planos de comprar carros em prática
  • A indústria nacional tem capacidade para produzir 5 milhões de veículos, mas fabrica 2 milhões

Com a descoberta da pandemia de covid-19 no início de 2020, muitos brasileiros precisaram adiar planos e metas, como a compra ou troca de um carro, para o ano seguinte. As pessoas não esperavam, porém, que o setor automobilístico enfrentaria uma crise na produção de veículos que se estenderia para além das indústrias. Até que chegou 2021, a falta de peças se consolidou e os preços tanto de veículos novos como usados dispararam.

A explicação é que a escassez de semicondutores em escala global, que aconteceu em razão dos efeitos da pandemia, afetou a produção de automóveis e, consequentemente, levou ao aumento de preços dos veículos disponíveis para venda no mercado. Isso porque, conforme esclarece o coordenador dos cursos automotivos da FGV, Antônio Jorge Martins, essa falta de chips e outros componentes eletrônicos ocorreu em meio à necessidade de transformação digital das empresas durante o período de isolamento social em todo o mundo.

“Como o processo de digitalização se dá pelo maior uso de semicondutores, que são materiais utilizados para a produção de chips que compõem os aparelhos eletrônicos, houve uma escalada na demanda mundial por essa matéria-prima, justamente por causa da pandemia, que pressionou os fabricantes e, com isso, limitou a oferta”, explica Martins.

Ainda segundo o coordenador da FGV, tal carência de fornecimento adequado está levando as montadoras a utilizarem os semicondutores que têm para veículos com maior conteúdo tecnológico, motivo que, naturalmente, eleva o preço do automóvel. E, como a produção está em uma escala menor, ressalta, as pessoas acabam adquirindo o que está sendo ofertado pelas montadoras, que, por sua vez, priorizam a sofisticação para gerar mais receita e lucro.

Mas, apesar do cenário ainda nebuloso para o segmento automotivo, os brasileiros parecem estar otimistas para colocar os planos de comprar carros em prática neste ano. Uma pesquisa encomendada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ao instituto Webmotors Auto Insights mostrou que 95% dos entrevistados têm intenção de comprar ou trocar o veículo em 2021, com grande chance de realizar o negócio ainda no primeiro semestre do ano.

O preço deve subir

Milad Kalume Neto, diretor da Jato Dynamics, consultoria que atua na indústria automotiva em dezenas de países, vem percebendo que a crise de semicondutores na China já está mais controlada, com o mercado chinês, grande produtor global, obtendo resultados de produção próximos do período pré-pandemia. Ele pondera ainda que a tendência é que esse mesmo cenário seja visto na Europa, depois nos Estados Unidos e, posteriormente, na América do Sul. “É o que nós [da Jato] estamos esperando, partindo do princípio de que esse ano ainda será conturbado para o setor no Brasil”, afirma.

O executivo admite também que, quando se ouviu falar sobre a escassez de semicondutores no ano passado, a expectativa da empresa era de que, ainda assim, a produção de veículos ficasse em patamares adequados, sem muitas mudanças. “Mas erramos essa projeção e agora estamos jogando para o último trimestre de 2022”, confessa.

Conforme avalia Kalume Neto, a situação no mercado brasileiro deve mostrar certa estabilidade nas vendas do último mês de 2021, mas a perspectiva é a de que a recuperação do setor aconteça de forma mais contundente em 2023. Para 2022, a Jato tem uma projeção mais conservadora, com uma produção de cerca de 2 milhões de veículos.

E, quando se considera que a indústria local tem capacidade para produzir em torno de 5 milhões de veículos, mas está conseguindo apenas 2 milhões, acrescenta, as fábricas acabam ficando ociosas. Assim, as montadoras se veem sem outra alternativa a não ser aumentar o preço do carro para continuar tendo lucro. “Oferta extremamente limitada, matérias-primas pressionando o custo e ainda tem a demanda constante: ônus em cima das montadoras”, confessa o diretor da Jato Dynamics.

Martins segue a mesma linha e defende que, em nível global, existe uma tendência de normalização do fornecimento de semicondutores no setor automotivo mais para o fim de 2022, ou início de 2023. Ele lembra, porém, que as dificuldades encontradas pelo segmento durante a pandemia não dizem respeito apenas à falta de chips e outros materiais eletrônicos.

“A situação do frete contribuiu para a alta de preços dos automóveis, uma vez que o valor também aumentou, assim como o uso de contêineres encareceu. Portanto, com a normalização gradativa desses três segmentos, isso tende a favorecer a indústria e reduzir os preços dos carros 0 km”, afirma.

Em relação ao cenário dos seminovos e usados, o coordenador vislumbra um efeito dominó. Isto é, à medida que o processo de normalização de semicondutores vai ganhando força, explica, haverá um aumento na disponibilidade das frotas e, naturalmente, uma redução nos preços dos seminovos e usados. “Como não tem carro 0 km suficiente, as pessoas acabam optando pelo seminovo ou usado. Mas, com uma maior oferta de semicondutores e de veículos, os seminovos e usados tendem a ficar mais baratos”, diz.

Se você puder, é melhor esperar

Como o segmento automotivo ainda encontra dificuldades na cadeia de produção, Martins, da FGV, lembra que, quando se vale da razão, um dos pontos mais importantes para saber se 2022 vai ser um bom ano para comprar um carro é entender por quanto tempo o problema no fornecimento de semicondutores vai permanecer.

Pensando nisso, o profissional orienta que, se a pessoa puder esperar pelo segundo semestre, quando as perspectivas apontam para uma produção mais estável e uma equiparação de preços, vai encontrar mais oportunidades por um custo melhor. “Vale a pena esperar o melhor momento de compra”, afirma.

Como não cair em cilada?

Apesar de acreditar que a situação vai melhorar para o consumidor mais à frente, o coordenador da FGV reconhece que é difícil pensar que todas as marcas e até concessionárias estarão no mesmo estágio no que diz respeito à disponibilidade de carros. “Com volumes de produção diferentes, isso vai exigir uma pesquisa maior de preços para ver se, eventualmente, essas empresas vão ofertar outros modelos, de menor base tecnológica e com um preço mais em conta”, explica.

Além da importância da pesquisa de preço, ressalta, como a capacidade de consumo está retraída, as empresas acabam melhorando as condições de venda. Ou seja, ainda que a pessoa não consiga um desconto em cima do valor do veículo, as concessionárias criam condições de compra para facilitar a vida do consumidor.

Por outro lado, Kalume Neto defende a ideia de que não existe santo no mercado automotivo. “Todo mundo quer ganhar dinheiro, seja montadora, seja concessionária”. Ele pondera que, se está mais difícil negociar algum desconto nas lojas, é porque os carros que estão disponíveis estão sendo vendidos. Por isso, avalia, os consumidores não vão ter tanto sucesso na barganha neste momento. “Pode ser que o cenário mude a partir do meio do ano, mas, de qualquer forma, é importante ter essa ponderação”, afirma.

Há alternativas

Em algumas situações, considera Martins, diante do mau momento para o setor automotivo, vale mais a pena fazer uma assinatura de veículo do que adquirir um carro. Isso porque, ao fazer um contrato de três a quatro anos e pagar mensalmente o preço da assinatura, a pessoa não vai precisar desembolsar uma quantia equivalente ao que pagaria por um automóvel. Mas, ainda assim, é importante o consumidor analisar se esta é a melhor solução para a necessidade pessoal dele ou se é melhor entrar com um financiamento.

Para chegar a uma resposta, o diretor da Jato Dynamics entende que o consumidor deve colocar os prós e contras na ponta do lápis. “Se for uma pessoa que usa muito o carro no dia a dia, uma assinatura ou recorrer a um aplicativo como Uber não valem a pena. Mas, se o usuário fizer pouco uso do veículo, aí vale analisar outras modalidades antes de garantir um automóvel”, observa.


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