José de Souza Martins: O que o preço da carne de pescoço diz sobre a política brasileira

A fome e a economia dos pobres foram capturadas pela voracidade do lucro amoral e cego do sistema econômico socialmente insensível

— Foto: Carvall

No supermercado da fome, o dos restos e resíduos de comestíveis, carne de pescoço de galinha, ossos de boi, espinhas de peixe, comidas de desvalidos que, no noticiário, revelam o que é a inventiva estratégia de sobrevivência dos milhões de famintos no Brasil. São componentes da visibilidade turva da melancólica situação social brasileira.

Há uma certa hipocrisia política em atribuir essa tragédia à pandemia. A pandemia apenas agravou o que já era grave. Tampouco se trata de algo restrito à incompetência de um governo irresponsável, embora lhe deva muitíssimo.

A coisa nos vem da imprudência de tentar fazer de conta que o Brasil é um país emergente, quase de primeiro mundo, e deixar a economia correr. Os teóricos do capitalismo de marginalização social “chutam”: basta copiar o modelo econômico dos países ricos para que todos os problemas sociais sejam resolvidos automaticamente e este também se torne rico. Mesmo que esteja se tornando cada vez mais pobre.

O Estado brasileiro entregou-se politicamente à possessão diabólica das leis econômicas. O preço da carne de pescoço, que se tornou alimento emergencial dos miseráveis e famintos, subiu. Ou seja, a fome e a economia dos pobres foram capturadas pela voracidade do lucro amoral e cego do sistema econômico socialmente insensível, de regras feitas unicamente para aumentar o muito dos que já têm tudo.

Os pobres são personagens invisíveis da bolsa de valores e do mercado financeiro. Por incrível que pareça, são lucrativos porque suas carências se traduzem em valorização do que não vale nada. Deveriam dar um Prêmio Nobel de Economia a quem explicasse o fato de que o preço da carne de pescoço, do cardápio dos pobres, baseado em itens praticamente do lixo, também sobe quando o dólar sobe. O estômago do pobre fica mais vazio enquanto bolsos ficam mais cheios.

É estranhíssimo que pobres e ricos não enxerguem isso, não façam comparações, não as traduzam em consciência e ação políticas em favor do bem comum. Entre os pobres, a fome e o abandono matam o espírito ao privá-lo de seu alimento primordial que é a esperança.

A política não foi inventada para ser cúmplice da economia nem do economismo. A política foi inventada para trazer a economia e o poder ao redil da civilização, controlar e regular suas tendências economicamente irracionais e socialmente destrutivas.

É a ordem social e seus valores que devem regular a ordem econômica. Quando isso não acontece, e não está acontecendo, a nação inteira se converte num país de párias, de sem destino, de famintos, de desabrigados. A falta de coragem, de responsabilidade e de competência dos políticos que podem acionar os mecanismos de correção da economia é indicativa de que estamos abandonados e órfãos.

Todos se lembram, certamente, do espetáculo de menoridade política que foi a reunião do governo de 22 de abril de 2020. E nela da afirmação imponente do ministro da Economia contra suposta tendência keynesiana nas propostas e ações de um dos ministros. Se tivéssemos um Keynes no Brasil, e sua teoria de renda e do emprego, certamente o país estaria longe da barbárie da situação atual. Livre do peso morto de gente que manda como capataz dos tempos da escravidão.

Os jornais garimpam, todos os dias, nas ruínas do país as novidades medonhas da miséria. Na esperança de que se desenvolva entre nós a consciência crítica de nossos problemas, de nossa vulnerabilidade social, do abismo que nos espera.

O cardápio de carne de pescoço se desdobra na forma que vai adquirindo a situação habitacional. Análise de Fernando Canzian na “Folha de S. Paulo” mostra que, em uma década, o número de favelas saltou de 6.329 para 13.151.

Em 1960, Carolina Maria de Jesus, que vivia na Favela do Canindé, lançou seu primeiro livro, “Quarto de Despejo”, graças ao empenho do jornalista e escritor Audálio Dantas. Carolina era personagem de uma humanidade invisível. Seu livro gritou por ela. Nele, São Paulo e o Brasil ficaram nus.

Hoje 24,5 milhões de pessoas passam fome no país. Não é fome de comer pouco. É fome de comer o insuficiente ou de não comer nada. Outros 74 milhões estão chegando perto dessa situação. São cerca de 100 milhões de mãos e braços que, sem trabalho e na incerteza da marginalização social, estão à espera de um novo corpo político e social chamado multidão.

Creio que seria muito mais prudente mobilizar a população para fazer uma profunda e radical reforma econômica e social, com gente capaz de fazê-la, com base no primado dos direitos sociais e da dignidade da pessoa. O Brasil precisa revolucionar suas estruturas fundamentais. Essa seria uma boa oportunidade para Deus aderir e confirmar que é mesmo brasileiro.

José de Souza Martins é sociólogo. Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de “Linchamentos – a justiça popular no Brasil”(Contexto).


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