Trocar multimercado por renda fixa premia poucos

Com a subida da Selic, o investidor voltou a ter ativos pagando 1% ao mês

Pontos-chave

  • Mas neste ano, os multimercados compensaram a parcimônia dos investidores
  • O aplicador focou no benefício de ser bem remunerado para não tomar risco

Apesar de os multimercados, na média, terem entregado retornos abaixo do CDI no ano passado, a troca para estratégias de renda fixa premiou investidores que fizeram essa transição apenas num intervalo curto de tempo: entre 27 de maio de 2021 e 15 de julho de 2021, e para alternativas que assegurassem retorno de 100% do CDI. Para todos os outros intervalos, a mudança não se mostrou vantajosa, considerando-se os resultados até o fim do primeiro trimestre de 2022.

É o que mostra um exercício feito pela gestora de recursos carioca JGP. Intrigado com a movimentação dos investidores conforme as taxas de juros foram subindo, Ilan Parnes, sócio integrante da área de relações com investidores da casa, considerou cada data como a potencial para a transferência de recursos. Tomou como base o índice de hedge funds (IHFA), referência para o segmento de fundos mistos, e o IMA-Geral, que representa uma cesta de títulos do Tesouro Nacional semelhante à composição da dívida pública interna, ambos calculados pela Anbima.

Quem saiu dos multimercados para carteiras renda fixa em 31 de dezembro de 2020, ponto de partida da amostra, estava com retorno 4,8% menor, na média, do que se tivesse permanecido investido na primeira classe até março de 2022. Aqueles que aguentaram por mais tempo e, por exemplo, fizeram a mudança no fim de outubro de 2021, estariam ganhando 1,6% a menos do que se ficassem onde estavam. Isso, sem considerar o imposto de renda pago no resgate para fazer a transferência dos recursos.

Multimercados estão se recupereando

Já no primeiro trimestre de 2022, os multimercados tiveram, em média, retorno equivalente a 267% do CDI. Em 2021, tinham apresentado rentabilidade equivalente a 94% do indexador. Ou seja, os fundos se recuperaram rapidamente este ano e compensaram a parcimônia dos investidores que permaneceram aplicados. “Nos últimos anos, o mercado tem tentado educar os investidores, que assim como em outros países, mais retorno representa mais risco também no Brasil. Não adianta achar que o título público livre de risco a 1% ao mês vai se perpetuar”, diz Parnes.

Com a rápida subida da Selic do início de 2021 para cá, de 2% para os atuais 11,75% ao ano, e a disparada antecipada das taxas futuras prefixadas, o investidor voltou a ver, com alguma facilidade, alternativas pagando 1% ao mês, incluindo títulos incentivados, em que há isenção de imposto de renda para a pessoa física. Mas é um erro de análise comparar o retorno passado versus o projetado, destaca Parnes.

“De maneira geral, a classe não foi tão bem, depois de um 2020 excepcional mesmo com a pandemia. No ano passado, o Banco Central fez uma leitura errada da inflação e pegou muita gente no contrapé. O investidor pensa: ‘se meu multimercado deu 3% e alguma coisa, abaixo do CDI, porque não vou para a renda fixa que tem uma taxa de 13%?”, e na verdade, não é uma comparação justa, olhar um ano para trás e um ano para frente”, afirma Parnes.

Remuneração acima do CDI

O sócio da JGP lembra que quando o gestor de multimercados capta o dinheiro, ele coloca em caixa e já roda em CDI, ou seja, quando a taxa sobe, os fundos conseguem se apropriar desse novo patamar. E é a partir dessa remuneração base que vai buscar alternativas que proporcionem retorno adicional.

Num ano cheio de incertezas, como a correção monetária pelo Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), guerra entre Rússia e Ucrânia e eleições no Brasil, Parnes destaca que as carteiras podem ser direcionadas para isso. “Se a eleição for horrorosa, [a gestão] vira [a carteira] para o outro lado, tem essa flexibilidade, faz o investidor capturar o bem e o mal do que vem pela frente.”

Os resgates dos multimercados se aceleraram no segundo semestre de 2021, quando o investidor sacou R$ 44,7 bilhões dessas carteiras, enquanto os fundos de renda fixa atraíram R$ 98,4 bilhões. Os fundos de ações, por sua vez, perderam R$ 10,6 bilhões, segundo cálculos da JGP, excluindo dessa conta os portfólios do tipo “investimento no exterior”, que podem ter uma parcela maior do patrimônio em ativos estrangeiros.

Renda fixa X multimercados

Pelos dados mais recentes da Anbima, considerando todas as categorias, os fundos de renda fixa captaram R$ 135,6 bilhões neste ano até 20 de abril. Os multimercados, porém, acumulavam saques de R$ 43,5 bilhões e as carteiras de ações perdiam R$ 36,9 bilhões.

Nessa dança do fluxo, Parnes avalia que o comportamento do investidor é meio natural porque nenhum outro país assegura o juro que o Brasil paga. “O aplicador voltou para o grande benefício de ser bem remunerado para não tomar risco e tem dificuldade em pensar em retorno real, pensa no nominal, tem dificuldade de calcular a inflação da sua cesta de consumo.”

“O investidor olha pelo retrovisor”

Na média, a Selic proporcionou retorno pouco acima de 4% no ano passado, mas o investidor já encontrava títulos bancários como CDBs, pagando remuneração mais alta à medida que as taxas futuras empinaram para cima diz Carlos Calabresi, sócio-gestor da Garde Asset. “Agora esse gap entre pré e Selic acabou e tem um monte de fundos multimercados em quatro meses dando retorno entre 13% e 15% no ano” afirma. “O investidor olha pelo retrovisor. A migração grande que se viu a partir de setembro de 2021 não parou ainda, só diminuiu. Com certeza, quando olhar os números da indústria, ele vai correr atrás, mas vai ser tarde.”

Dados compilados pelo Valor Data mostram que ao longo do ano passado, os bancos captaram R$ 141,1 bilhões via Certificados de Depósitos Bancários (CDB), mas até o início de abril havia um fluxo de saída de R$ 5,6 bilhões. O estoque de letras de crédito imobiliário e do agronegócio (LCI e LCA) e de certificados de recebíveis ligados aos dois segmentos, que tiveram incremento de R$ 135,1 bilhões em 2021, nos primeiros meses de 2022 somaram mais R$ 92,8 bilhões.

Pular de galho em galho é ruim para a carteira

Pular de galho em galho, mudando de fundos ou de indústria conforme o desempenho de curto prazo e os vaivéns da política monetária é a forma de obter resultados ruins para a carteira, diz Marcelo Ferman, sócio-gestor da Parcitas. “Quando faz alocação, o investidor precisa ter resiliência, esperar o rendimento de longo prazo, porque do contrário não aufere aquele ganho que só vem com o tempo.” Ele também engrossa o coro dos que vão contra o discurso de que multimercados performam pior em períodos de alta de juros. “Se o gestor achar que é o momento para ter só renda fixa, ele vai para a renda fixa no multimercado. O investidor pode ter o benefício da classe ficando aplicado, só que em vez de escolher títulos do Tesouro Direto vai ter um profissional escolhendo para ele.”

Mario Schalch, sócio-gestor da Neo Investimentos, considera haver potencial para a classe ver a volta do investidor dado o desempenho mais recente. “Os resultados do primeiro trimestre mostram que os multimercados são uma alternativa interessante de investimentos num ambiente de volatilidade”, diz. Esse é um fluxo que ainda não se vê, mas em conversa com alocadores ele percebe disposição para testar o apetite dos clientes para os fundos mistos. “Até porque existia propensão de migração da bolsa e dos multimercados para a renda fixa, os alocadores não estavam ativamente nesse esforço.”

Parnes, da JGP, observa que mesmo multimercados que exibiram resultados fantásticos sofreram com a onda de saques. De início de 2021 a março de 2022, apenas quem saiu dos multimercados entre fim de maio e metade de julho do ano passado levou vantagem.


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