Mulheres são avessas ao risco? A luta de Barbara Stewart, CFA, contra os estereótipos no mercado financeiro

Em entrevista exclusiva ao íon, a pesquisadora compartilhou os aprendizados de quase 30 anos atuando no mercado financeiro

Barbara Stewart, CFA, foi entrevistada pela IF sobre o papel das mulheres no mundo das finanças
Barbara Stewart, CFA, é uma pesquisadora e autora canadense especializada no tópico Mulheres e Finanças – Foto: Divulgação/Montagem Inteligência Financeira

Pontos-chave

  • O objetivo das mulheres é ter independência financeira
  • Para investir, é preciso começar a praticar, nem que seja com pouco dinheiro

“Mulheres não entendem sobre investimentos”. “Mulheres não querem entender nem falar sobre isso”. “Mulheres são avessas ao risco”. Foram mensagens como essas, amplamente reforçadas por diferentes atores da sociedade, que fizeram a canadense Barbara Stewart, CFA, mergulhar de cabeça nas pesquisas qualitativas e quantitativas sobre mulheres e finanças.

O ano era 2010. O mundo ainda estava em uma forte ressaca da crise econômica de 2008, e Barbara já atuava, na época, por 15 anos como gerente de portfólio de empreendedores de alta renda no Canadá.

“Os estereótipos negativos sobre mulheres e dinheiro não condiziam com o que eu via trabalhando no mercado financeiro. Nos dias mais difíceis da minha carreira, após a crise estourar, quando muitos clientes me ligavam nervosos com tudo o que estava acontecendo, percebi uma reação diferente das mulheres. Elas estavam mais focadas no longo prazo e no que havíamos desenhado como planejamento.”, contou Barbara em entrevista exclusiva ao íon.

Na luta contra os estereótipos, as principais armas foram a pesquisa e o compartilhamento de informações. De lá para cá, já são 12 anos publicando uma nova edição do Rich Thinking (pensamento rico, em tradução livre) sempre no Dia Internacional da Mulher.

A publicação contribui globalmente para a mudança no debate sobre o tema. Mesmo com a agenda apertada de março, mês em que o assunto recebe holofotes, Barbara conseguiu conversar com o íon e, a partir disso, destacamos aqui os melhores trechos dessa conversa enriquecedora. Boa leitura!

Como você escolhe o tema do relatório todos os anos e qual seu principal objetivo com o Rich Thinking?

Todos os anos, realizo entrevistas profundas com mulheres bem-sucedidas dos mais variados países e com diferentes histórias, contextos familiares, etc.

Ao final desse processo, eu mergulho nas entrevistas e encontro um assunto que tenha permeado as respostas delas para ser o principal tema da publicação. Este ano (2022), por exemplo, foi “Como as mulheres fazem dinheiro?”.

O meu objetivo é que mulheres, sejam elas jovens ou não, se inspirem nessas histórias de sucesso e pensem: “posso ser como essa pessoa”. Por isso que eu compartilho exatamente como elas tomam risco, como elas ganham dinheiro, quais são os temas que

estão radar. Neste ano, ainda que eu esteja no mercado há bastante tempo, eu conheci novos modelos de negócio.

Ao longo de todos esses anos de entrevistas e pesquisas, você encontra um denominador comum nas respostas que envolvem mulheres e investimentos?

Cada investidora é única, assim como cada investidor homem também é. No entanto, um denominador comum nas minhas pesquisas é que o primeiro objetivo das mulheres ao falarem sobre investimentos costuma ser “independência financeira”.Eu tenho uma carreira longa como gerente de portfólio e atendia homens e mulheres. Era parte do meu trabalho, é claro, perguntar o que as pessoas queriam alcançar, os seus objetivos por meio dos investimentos e os homens, muito raramente, respondiam algo como “quero ser independente financeiramente”. Já com as mulheres, 9 em cada 10 respondiam isso.

Nas suas primeiras publicações, uma das entrevistadas falou sobre guardar/investir o que ela chamou de “dinheiro do dane-se” que a possibilitaria sair, por exemplo, de um trabalho desagradável ou um relacionamento ruim. Seria nesse sentido?

Essa linha da independência financeira está sempre presente nas entrevistas. Às vezes, elas cresceram em uma situação difícil financeiramente ou de abuso e pensam: “como posso sair disso?”. Mas são diferentes contextos e diferentes histórias.

Uma atleta olímpica que eu entrevistei neste ano contou, por exemplo, que começou a praticar corrida para “correr de uma vida ruim”.

Uma outra entrevistada, que mora em Hong Kong, contou que cresceu com a sensação de que os pais abriram mão daquilo que realmente queriam na vida. Ela absorveu isso de uma maneira que a faz querer trabalhar, investir para ser livre e ser independente. Ou seja, para conquistar aquilo que deseja.

Você sempre reforça o que se tornou quase que um slogan da sua pesquisa: “mulheres não são avessas ao risco, mas sim conscientes dos riscos”. Pode explicar melhor?

A linguagem importa e muito. Essa mensagem negativa foi tão repetida ao longo dos anos que muitas mulheres acabam pensando e falando “sim sou avessa ao risco”, porque foi isso que sempre falaram para elas. Uma das minhas pesquisas quantitativas, de 2019, mostrou que menos de 10% das mulheres responderam ser “avessas ao risco”, quando se deparavam com outras opções de resposta. Na ocasião, ¾ das mulheres marcaram a opção “risco consciente”. E isso é positivo para um portfólio. Ter clareza, “fazer o dever de casa” antes de assumir o risco.


Você acredita que os estereótipos estão ficando para trás?

Muitos mitos continuam sendo espalhados por aí, mas a nossa pesquisa divulgada em janeiro mostrou que 64% das mulheres entre 18 e 29 anos nos Estados Unidos já investem ou estão planejando investir ainda esse ano.

As plataformas de investimento online têm contribuído para mudar o jogo assim como comunidades de mulheres em redes sociais para trocar experiências e informação.

De acordo com a pesquisa que a Barbara publicou em janeiro, 90% das mulheres (entre 18 e 59 anos) que já investem nos EUA usam plataformas online. Só no grupo acima de 60 anos que essa porcentagem cai para 40%.

Em uma publicação de 2013, uma das suas conclusões foi de que mulheres investem mais em causas e temas que importam para elas. Como isso se relaciona com investimentos ESG (Ambiental, Social e Governança, em português)?

Sobre investimento em ESG, acho que há alguns pontos que podemos destacar. Primeiro, seria uma questão de geração: na pesquisa de 2022, vimos que o número de mulheres entre 18 e 29 anos propensas a investir em ativos ESG é três vezes maior que no grupo acima de 60 anos. Como uma mulher acima de 60 anos, posso dizer que a minha geração não cresceu com essa mentalidade e que é muito bom ver essa nova geração de investidoras com esse apetite. Além disso, o interesse em investir em ESG – e aqui eu adiciono que temos que ter cuidado com esse termo que muitas vezes é usado apenas como marketing – é mais uma demonstração de que essas mulheres tomam riscos conscientes. Muitos desses ativos têm alta volatilidade por serem mais concentrados em determinados setores, por exemplo.

Por último, alguma dica para quem nos lê? Muitas pessoas ainda param quando chega aquele tal pensamento “deveria saber mais”.

Comece! Você vai errar, acertar, mas comece. Participe também de comunidades online, tenha contato com o assunto. Sobre o “deveria saber mais”, todo mundo tem essa sensação. Tenho 30 anos de mercado financeiro e ainda me pego pensando “deveria saber mais sobre isso ou aquilo”. Para investir, é preciso começar a praticar nem que seja com pequenos aportes.

“A prática é importante e necessária. Comece!”, concluiu Barbara com o entusiasmo de quem é apaixonada pelo que faz. Para saber mais sobre Barbara Stewart, CFA, e as pesquisas mencionadas neste artigo, acesse (em inglês): http://www.barbarastewart.ca/#1

*Texto escrito por Laura Maia, jornalista e CEA. Artigo originalmente publicado no Feed de Notícias do íon Itaú. Para ler este e outros conteúdos, acesse ou baixe o app agora mesmo.


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