Juros a quase 50% ao ano na Argentina: oportunidade ou cilada?

Investimentos em títulos públicos vão muito além dos juros; entenda a relação de risco no curioso caso argentino

– Ilustração: Marcelo Andreguetti

Quem olha os juros no Brasil, atualmente em 12,75% ao ano, já pensa em boas oportunidades na renda fixa. Mas se apenas os dígitos altos que contassem, os investidores estariam de olho em países com números até maiores. E bota maior nisso: a nação campeã de juros altos da atualidade é a Argentina, que, na última semana, aumentou sua taxa básica para 49% ao ano.

Mas por que, então, os investidores estrangeiros procuram tanto o Brasil, o país vizinho com juros bem menores (pelo menos nas últimas décadas), e deixam para trás a “oportunidade portenha”, que, na teoria pura e simples, saltaria aos olhos?

O peso do risco de crédito

Sabe aquela vez que um amigo seu pediu dinheiro “emprestado” porque não tinha um trocado no bolso pra voltar pra casa, depois de gastar tudo na balada? Provavelmente, você nunca mais viu a cor da daquele dinheiro e, agora, fica com o pé atrás pensando no calote.

Esse sentimento acontece também no mundo dos investimentos, sobretudo na hora de aplicar em títulos públicos de diversos países do mundo.

Em tese, esse tipo de investimento deveria ser o mais seguro possível, mas casos como o da Argentina mostram que nem a proteção do governo é o suficiente.

Segundo dados de Carmen Reinhart, economista de Harvard, os hermanos já tiveram, de 1827 a 2020, pelo menos nove defaults, termo em inglês usado para o ato de não honrar dívidas. Ou seja, as diversas crises sequenciais na Argentina levaram o país a uma dívida externa difícil de pagar, tanto que as conversas de renegociação são frequentes com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No mercado financeiro, o risco-país é uma métrica frequentemente usada pelos investidores para avaliar se vale a pena deixar o dinheiro em determinados territórios. Esse indicador pode ser medido pelos movimentos dos Credit Fault Swaps (CDS), que são investimentos que funcionam como seguros contra os calotes. Em outras palavras, se a procura pelos CDS de um determinado país aumenta, quer dizer que o risco de calote ficou maior.

O fator risco-país

De acordo com dados de 16 de maio, retirados da Bloomberg, o CDS de 5 anos da Argentina, que está na casa dos 20%, reflete a profunda crise econômica dos nossos vizinhos.

Comparativamente, o CDS de 5 anos do Brasil está em pouco mais de 2%. “Isso significa que a Argentina precisa pagar 18% ao ano a mais do que o Brasil em termos de risco de crédito. É um diferencial muito forte”, explica Martin Iglesias, especialista do Itaú em alocação de ativos.

E aí, vale o risco?

Mesmo em um cenário econômico desafiador, sempre tem aquele investidor que lança a máxima: “em toda crise, há sempre uma oportunidade”. Mas será que os juros a quase 50% na Argentina valem a pena levando todo esse risco?

Iglesias explica, que além do alto risco de calote evidenciado pelo histórico de defaults e pelos níveis do CDS, há uma questão até anterior para levar em consideração: a inflação.

A Argentina acumula uma alta no nível geral de preços de aproximadamente 55% nos últimos 12 meses, o que nos leva a discussão dos juros reais. “O investidor sempre precisa pensar em termos reais, levando em conta a inflação. Então, certamente, ele não levará esses 50% ao ano de juros argentinos no bolso, fora o risco de ele nem ver esse dinheiro por causa do risco de crédito”, diz o especialista do Itaú.

*Texto escrito por Leonardo Pinto. Artigo originalmente publicado no Feed de Notícias do íon Itaú. Para ler este e outros conteúdos, acesse ou baixe o app agora mesmo.

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