Investidor sai de fundos de ações e pode perder a recuperação de ativos locais

Renda fixa já atraiu R$ 109,2 bilhões neste ano

Opções com papéis da Vale e da Petro
– Ilustração: Marcelo Andreguetti

Pontos-chave

  • Investidor está impaciente para esperar por uma recuperação
  • Fundos de ações tiveram ganhos de 5% de janeiro a março, abaixo dos 14,5% do Ibovespa

A alta da Selic deixou sequelas nos fundos de ações que viram o fluxo virar à medida que as taxas de juros subiram. Mesmo com a boa performance do Ibovespa no primeiro trimestre, muitas carteiras ficaram abaixo do referencial de mercado, concentrado em commodities e no setor financeiro. Com a renda fixa beirando retornos de 13% ao ano, e com nova alta da taxa básica adiante, o investidor se mostra impaciente para esperar a recuperação. Mas talvez deixe para trás uma das boas temporadas de valorização para os papéis ligados à economia local, segundo gestores.

De janeiro a março, os fundos de ações tiveram resgates líquidos de R$ 31,9 bilhões, dando continuidade à perda de tração observada desde setembro de 2021, com saídas de R$ 6,5 bilhões até dezembro, de acordo com dados da Anbima. Em contraste, a renda fixa já atraiu R$ 109,2 bilhões neste ano, enquanto os multimercados perderam dinheiro, com saques de R$ 41 bilhões. Esta última caixa inclui as carteiras “long bias” e “long short” que em geral concentram suas estratégias em Bolsa de Valores.

Na média, os fundos de ações puro sangue tiveram ganhos de 5% de janeiro a março, abaixo dos 14,5% do Ibovespa, cujo desempenho no período foi alimentado pelo capital estrangeiro que privilegia as “blue chips”, empresas de maior capitalização e liquidez na B3. As carteiras de “small caps”, de companhias com menor valor de mercado, apresentaram valorização de 6,6%.

No ano, até o dia 11, havia quase uma dezena de fundos de ações direcionais rodando acima do Ibovespa, de 11,6%, com destaque para o Alaska Black BDR (31,2%), Forpus (20,9%), RPS Selection (15,4%), Tower3 (13,8%) e Oceana (13,1%), seguidos por Ibiuna, Apex, XP e Sharp, com quase 12%.

“Muita gente não pegou o rali de commodities e quem acertou o macro mais desafiador conseguiu ir bem”, resume Ricardo Almeida, sócio-fundador da Tower Three. Foram as ações de Petrobras, Vale e bancos que ajudaram a gestora a capturar um pouco do fluxo externo que veio para a bolsa no primeiro trimestre. A exposição já está menor em matérias primas, com o portfólio agora mais voltado para o consumo, com adições de Lojas Americanas e Grupo Mateus, cita.

A carteira tem nomes como Arezzo, Intelbras, Iguatemi, Multiplan, Totvs, além de ligados à infraestrutura como Santos Brasil, CCR e Rumo. A percepção é que a maior parte do aperto monetário já foi feito e que à frente haverá uma inflexão. A equipe da Tower Three trabalha com um crescimento de PIB de 1% neste ano.

Como a diversificação para classes de maior risco é um movimento relativamente recente no Brasil, o comportamento de curto prazo do investidor acaba sendo mais acentuado, diz Luis Felipe Amaral, sócio-gestor da Equitas. Quando a Selic bateu os 2% ao ano em 2020, o brasileiro se viu sem alternativa.

“O investidor se encanta com o resultado de curtíssimo prazo, com o histórico, acha que vai continuar, se decepciona e sai”, diz. No último ano, porém, ele cita que de fato houve uma forte mudança de expectativas no Brasil e lá fora, com a inversão das políticas monetárias ultrafrouxas para o modo aperto.

Economia interna esquecida

Nas carteiras dos fundos de ações ativos, papéis ligados à atividade local acabam descolando dos principais papéis do Ibovespa, concentrado em commodities e bancos. “É onde gestoras como nós têm o seu histórico de crescimento, são as que mais sofreram com a migração para fora da renda variável, em especial de empresas que fizeram IPO nos dois últimos anos, ainda não tão conhecidas por investidores maiores e estrangeiros e com restrição de liquidez maior”, afirma Amaral. “O resultado disso é que nos dois, três últimos meses apareceram oportunidades gigantescas, de empresas com negócios saudáveis, qualidade de crescimento e diferencial competitivo, e a ação sendo massacrada ou que não andou pela dinâmica dos resgates.”

Como o estilo da gestão não é rodar muito a carteira, nos últimos oito meses a Equitas se concentrou em casos que considera de maior potencial de retorno. Quase 50% do portfólio é de posições formadas nos últimos 2,5 anos. Conhecida por ancorar ofertas de empresas novatas, a gestora tem na carteira nomes como a Mater Dei, de saúde hospitalar, e a 3tentos, varejista de insumos agrícolas que atua no sul do país e que começa a avançar pelo centro-oeste.

A rápida escalada da Selic, de 2% em 2021 até os 11,75% atuais, foi a vilã que dizimou o mercado de ações, especialmente os papéis relacionados ao ciclo doméstico e os casos de crescimento, diz Adriano Leite, sócio-responsável pela área de relações com investidores da Moat. Mas é justamente a percepção de que o grosso do ajuste já foi antecipado que deixa o time de gestão animado.

“Quando a gente olha a foto de Brasil, acha que está numa situação privilegiada porque a política monetária já foi feita, em algum momento vai se discutir o corte”, afirma Leite. “A moeda está, entre aspas, protegida com um carrego global único, de um juro real de quase 6% e um mercado que tem o que o mundo está buscando: commodities e empresas de valor. O Brasil é um ‘play’ de valor e está barato.”

Os fundos da Moat já estão posicionados para o que a gestão entende que será o próximo passo do fluxo, em cíclicas locais, como Hypera e Assaí, além de empresas financeiras e concessionárias de serviços públicos. Leite enxerga como natural esse vaivém do investidor porque muita gente que não tinha perfil para o risco, acabou migrando para a renda variável.

Como a maioria dos fundos de ações e long bias têm como referencial o Ibovespa ou o IPCA, muitas carteiras ficaram entre 10 e 20 pontos percentuais abaixo da chamada “linha d’água” para pagar performance aos distribuidores e assessorias de investimentos, diz Cristian Keleti, sócio-fundador da Alpha Key. “O incentivo para monetizar a carteira é pensar na receita de curto prazo, recicla o portfólio e depois volta”, afirma.

Mas com as ações ligadas à economia doméstica atrativas, a casa tem ido a campo com alocadores com perfil de médio e longo prazo. “Os fundos de pensão estão resgatando por causa da meta atuarial, mas as conversas com single e multi family offices vão na linha de que há empresas que a gente conhece, está dentro delas, que estão bem e podem multiplicar o preço em duas ou três vezes”, diz Keleti. “As domésticas estão extremamente descontadas, o ‘valuation’ não aceita mais desaforo, é muito difícil caírem mais, a não ser que haja uma debacle global.”

Logística, construção civil dedicada à baixa renda e shopping centers estão entre algumas posições da gestora. Keleti calcula que só o Shopping Iguatemi, na Faria Lima, em São Paulo, valha entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões, e na bolsa as ações do grupo que reúne cerca de 15 centros comerciais negociam com uma capitalização equivalente a R$ 5 bilhões. “Está muito assimétrico, tem construtora valendo menos do que o valor dela a custo.”

Os saques dos investidores das estratégias de ações já foi mais pronunciado e parece estar mais próximo do fim com o ciclo de alta de juros também mais perto de terminar, diz Diney Vargas, diretor da Apex Capital. “Já teve o movimento de ajuste de taxa, já se sabe que a economia não vai crescer, mas as perspectivas para 2023 já são melhores do que para 2022”, afirma. “Quando o cara tem um passivo que exige inflação mais taxa de juros de 5%, 6%, e o investimento em título público ou ativos semelhantes dão esse retorno, não há incentivo para tomar risco.”

Se até aqui foi o capital externo mais oportunista que alimentou certos setores na bolsa, agora o que se percebe é que o estrangeiro com perfil de mais longo prazo voltou a falar sobre o Brasil, diz Vargas. “O timing deles não é necessariamente agora, mas esse é o cara que se o mercado amanhã corrigir por conta da eleição, ele está pronto para investir.”

Com conteúdo do site Valor Investe, um veículo Globo Notícias


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