Estreias de empresas na Bolsa perdem fôlego

O ano começou mal para os IPOs, apesar da dinheirama dos estrangeiros entrando na B3 e da alta do Ibovespa

Ilustração traz representação abstrata de um IPO: a oferta pública inicial de ações de uma empresa
– Ilustração: Marcelo Andreguetti/IF

Pontos-chave

  • No ano passado, 46 empresas abriram capital
  • Os gestores estão cada vez mais seletivos

O Brasil estava caminhando para bater seu recorde de IPOs no ano passado, mas as estreias das companhias na Bolsa de Valores perderam fôlego no quarto trimestre e assim continuam. O ano de 2022 começou bem mal para as aberturas de capital, apesar da dinheirama dos estrangeiros entrando na B3 e da alta do Ibovespa desde o começo de janeiro.

O país teve 46 IPOs no ano passado, mas nos dois primeiros meses deste ano, nenhuma companhia estreou na Bolsa. Ainda chama atenção as desistências: 14 companhias suspenderam os planos de fazer IPO, no aguardo de um momento melhor.

Por que o número de IPOs está caindo?

Um acúmulo de problemas ligados ao cenário macroeconômico explica essa desaceleração das aberturas de capital, conforme os analistas. Agora, o principal deles é a guerra na Ucrânia, que acabou completamente com o clima para estrear na bolsa, que já andava ruim, de acordo com os especialistas. As guerras aumentam exponencialmente a incerteza, porque ninguém sabe quando elas acabarão e o tamanho do estrago que causarão, e é comum que as companhias desistam de estrear na bolsa durante esses momentos.

É claro que haverá exceções, mas a expectativa é que boa parte das empresas seja impactada pela invasão da Rússia na vizinha, seja pela alta no preço das commodities ou pela logística mais difícil para fornecer ou receber insumos, por exemplo, o que acaba aumentando custos.

Juros acima do esperado

Além disso, a inflação persistente leva o Banco Central a aumentar os juros acima do esperado para controlá-la. Consequentemente, os juros mais altos atraem os investidores para a renda fixa e a Bolsa perde atratividade. Outros problemas são as incertezas fiscais e políticas, já que não se sabe se o novo presidente eleito em outubro colocará em prática a agenda econômica de agrado do mercado.

Esses motivos causam volatilidade e tiram o apetite dos investidores pelos IPOs. Nesse cenário, os investidores preferem comprar ações de companhias mais conhecidas e com mais liquidez. As empresas mais tradicionais da B3 são ligadas a commodities, como Petrobras e Vale, e bancos. É para esses papéis que o dinheiro que entra na bolsa tem ido mais.

Então, quando os investidores começam a buscar menos as ações das estreantes, as companhias necessitam diminuir o seu preço para conquistá-los, muitas vezes abaixo da faixa estabelecida. É a lei da oferta e da procura na economia. Se há demanda, as empresas abrem capital. Se não há, desistem ou aguardam outro momento para oferecer seus papéis pelo preço desejado ou perto disso. “As companhias querem captar o máximo de dinheiro possível e o melhor momento será quando as perspectivas futuras estiverem melhores, tanto no cenário macroeconômico quanto no setor de cada uma”, afirma Guilherme Paiva, analista da gestora Rio Gestão.

Situação piorou

O que acontece é que o cenário mudou. “O que está acontecendo agora é que muitas empresas haviam adiado o IPO no ano passado, as condições de mercado se deterioraram rapidamente e agora elas decidiram cancelar as ofertas”, acrescenta. Ele conta que a casa costuma investir em poucos IPOs e que, agora, está ainda mais seletiva.

Assim, as desistências das companhias eram esperadas pelos analistas e são um sinal de que não dá para qualquer companhia ofertar ações por qualquer preço. A expectativa é que 2022 não tenha nem perto do número de estreias na bolsa de 2021. Talvez, o ano não tenha nenhuma abertura de capital. Se acontecer uma retomada, deve ser apenas no quatro trimestre, clareado o cenário da guerra e da eleição.

“É difícil os IPOs voltarem ao patamar do primeiro semestre do ano passado ainda neste ano, a não ser que aconteça alguma surpresa relevante”, afirma Miguel Vieira, líder de fusões e aquisições da consultoria Peers. Ele ressalta que, além da alta de juros incentivar a migração para a renda fixa, ela também encarece as dívidas das companhias, o que as torna menos atrativas.

Não é a melhor hora para abrir capital

Para as empresas, o mercado está ruim, mas nem todas as companhias são ruins, de acordo com analistas. “As empresas podem ter um bom resultado e esse apenas não ser o melhor momento para estrear na Bolsa. Podem ser companhias excelentes, que só não querem aceitar preço baixo”, afirma Danielle Lopes, sócia e analista da casa de análise Nord Research. “Mas algumas têm endividamento relevante”, pondera.

Flavio Conde, responsável por renda variável na casa de análise Levante, acrescenta uma pimenta no debate. Na análise dele, no primeiro semestre do ano passado, houve uma “festa de IPOs”, antes represados por causa da pandemia. Nessa festa, os investidores estavam pouco seletivos e houve um exagero de ofertas, segundo Conde.

Algumas companhias chegaram a estrear na Bolsa na mesma semana e os analistas e gestores não conseguiam estudar a fundo sobre todas as empresas. Na avaliação de Conde, faltava comunicação das companhias com o mercado e histórico de informações financeiras, além de muitas delas estarem com dificuldades financeiras, e mesmo assim as empresas foram para a bolsa em massa.

“O mercado estava muito bonzinho no primeiro semestre. Alguns IPOs saíram por preços muito altos e depois deram prejuízo. Então, agora os gestores são cortejados e estão mais seletivos. É o mercado que está recusando as companhias, por causa do cenário microeconômico delas. É a situação das empresas que está ruim”, afirma.

Com 37 anos de mercado, ele destaca que as aberturas de capital são cíclicas e que sempre após anos de boom, vem uma ressaca, ainda mais agora, em meio à alta de juros. “Os gestores não querem se arriscar em IPOs de companhias que mal conhecem se têm Petrobras, Vale e Itaú para comprar”, diz.

Na análise de Conde, as poucas ofertas que saírem este ano, se saírem, serão um sinal de que a empresa é boa. Além disso, este deve ser o ano das ofertas subsequentes, também chamadas de “ follow-ons”, quando as empresas já fizeram IPO e realizam uma nova oferta para captar dinheiro. Comprar ações em ofertas de companhias que já estão no mercado é menos arriscado, além de ser uma operação com mais liquidez.

As ofertas subsequentes são muito menos dependentes de condições de mercado que os IPOs. Em fevereiro, a BRF e a Alpargatas emplacaram ofertas assim e levantaram R$ 5,4 bilhões e R$ 2,5 bilhões, respectivamente.

Com reportagem do Valor Investe


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