Duelo IF: JBS ou Marfrig, em qual investir?

Duas gigantes do setor de alimentos disputam a sua atenção como investidor

Pontos-chave

  • JBS leva vantagem no quesito escala
  • Rentabilidade da Marfrig é maior durante ciclos positivos para o setor

O setor de proteínas é visto como uma forma de se proteger da inflação com ações. Isso porque as empresas são grandes exportadoras e têm grande parte da receita em dólar. JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3) são as maiores do setor no Brasil. Mas qual ação é melhor? 

Para ajudar os investidores, a Inteligência Financeira apresenta o segundo conteúdo da série que compara sempre dois papéis, nosso Duelo IF. A ideia é que você entenda o momento de cada uma das empresas e, com as informações e recomendações de especialistas e analistas do setor, decida qual tem mais espaço na sua carteira. 

JBS x Marfrig

Primeiro, é importante apresentar as duas empresas. A JBS é a gigante do setor de proteínas e a dona de marcas como Seara, Friboi, Swift e Marba. A empresa opera no Brasil, China, Austrália, Estados Unidos e Canadá. A maior parte do faturamento da empresa vem da América do Norte. A companhia vende carne bovina e de aves, couro e margarinas.

Do outro lado, temos a Marfrig, líder global na produção de hambúrgueres e a segunda maior empresa de proteína bovina do planeta, atrás apenas da própria JBS. A companhia tem uma concentração maior em carne bovina e na operação nos Estados Unidos. Porém, também atua na Argentina, Chile e Uruguai. Suas marcas não são tão conhecidas porque a operação se concentra muito no fornecimento para outras empresas, como o McDonald’s.

Pontos positivos de ambas empresas

As duas empresas carregam características positivas em suas operações, não à toa são duas gigantes, mas cada uma tem suas particularidades. 

Marfrig tem maior rentabilidade

A concentração da operação da Marfrig nos Estados Unidos pode ser uma boa para a empresa. No primeiro trimestre, R$ 15,8 bilhões dos R$ 22,3 bi (70,8%) faturados vieram da operação na parte de cima do continente. Lá, a margem de lucro também foi maior: 15%, contra 6,4% na operação da América do Sul. 

“Fazer a maior parte das vendas em moeda forte é muito bom, dá uma força gigante à empresa. Isto ainda permite depender pouco do Brasil e conseguir fazer mais repasses de custo na América do Norte”, explica Flávio Conde Head de Renda Variável da Levante Ideias de Investimentos. 

A concentração da Marfrig também é maior quando olhamos para os produtos. O portfólio da empresa conta com produtos de maior valor agregado, o que impulsiona a rentabilidade da companhia. 

Um dos indicadores que mostra a diferença da Marfrig para a JBS é o Retorno Sobre Investimentos (ROI). Nos últimos cinco anos, a média do ROI da Marfrig é de 10,87%. Na JBS, a média do indicador é menor, de 6,64%. 

Outro número importante para analisar é o Ebitda ajustado, que foi de 12,3% na Marfrig no primeiro trimestre, contra 11,1% da JBS no mesmo período. 

Mas é importante ficar atento, porque o que agora se revela como força pode se tornar uma fraqueza. João Daronco, analista da Suno Research, explica que este é um mercado cíclico e que a Marfrig tende a ir melhor que outras empresas quando o setor vai bem, mas também tem resultados piores que a média quando o ciclo não é positivo. 

Participação na BRF

Em março deste ano, a Marfrig e seu controlador, Marcos Molina, assumiram o controle da BRF após votação no conselho de administração da companhia dona das marcas Sadia e Perdigão. A participação da Marfrig no capital social da BRF é de 33,25%. 

A avaliação de especialistas é que as empresas se complementam e que há muito valor a ser explorado em uma potencial fusão entre as empresas. “A Marfrig está na América do Norte, onde a BRF não está. Já a dona da Sadia atua no Oriente Médio e Europa, com operações que seriam complementares às da Marfrig. 

Outro ponto que causa otimismo nos analistas é complementariedade do portfólio das companhias. A Marfrig não trabalha com carne de frango, enquanto a BRF não tem em seu portfólio carne bovina. 

Pessimismo na Marfrig

Um fator que traz pessimismo, porém, é o retorno do investimento que a Marfrig já fez na BRF. Isso porque no dia 21 de maio do ano passado, a companhia comprou 24,33% das ações da concorrente, que fecharam o dia cotadas a R$ 25,63. Quase um ano depois, no dia 17 de maio, as ações valiam 44% menos. “Em vez de pegar o dinheiro gasto na transação para reduzir sua dívida, a Marfrig escolheu ficar sócia de outra empresa cujo resultado não é grande coisa”, avalia Flávio Conde, da Levante.

Diversificação da JBS

Comandada por Gilberto Tomazoni, a JBS tem no seu tamanho grande vantagem nessa disputa. Isso porque quanto maior a escala, maior o poder de negociação com fornecedores. Quando a JBS divulgou seu balanço, no dia 11 de maio, o valor de mercado da empresa era de R$ 80,3 bilhões. Na data de anúncio dos números do primeiro trimestre da Marfrig, a empresa valia R$ 12,7 bilhões. A diferença na receita líquida também é brutal: R$ 90,9 bilhões da JBS contra R$ 22,3 bilhões da Marfrig. 

Outro ponto importante para analisar na operação da JBS é a diversificação geográfica. A empresa está presente em 15 países e atua no importante mercado asiático. Como a produção de animais faz parte de um ciclo e cada país tem o seu, estar em vários países significa se proteger dos riscos que esses ciclos trazem. “O Brasil tem um ciclo, enquanto outros países têm outros e com distribuição geográfica os impactos dos ciclos são menores, porque são diluídos”, explica João Daronco. 

Fraquezas

Porém, nem tudo são flores. Existem riscos associados às duas empresas e conhecer esses fatores levará o investidor a fazer aportes mais realistas e montar posições que condizem com seu perfil de risco.

Endividamento

No quesito endividamento, a Marfrig sai perdendo na comparação com sua principal concorrente. O indicador de alavancagem, medido por dívida líquida divida pelo Ebtida ajustado, tem o mesmo valor para as duas empresas: 1,53x considerando os valores em dólar. 

Porém, ao olhar para a estrutura da dívida, a vantagem é da JBS, que tem apenas 13,15% da dívida bruta a ser paga no curto prazo, enquanto a Marfrig vai precisar lidar com 21,19% de sua dívida bruta rapidamente.

“O ciclo é positivo para o setor, por enquanto, mas se isto virar, a Marfrig pode não gerar tanto caixa para pagar dívidas e se encontrar em maus lençóis”, analisa João Daronco. Ou seja, neste quesito, o risco associado à Marfrig é maior. 

JBS patina na governança

Recentemente, o famoso Joesley Day completou cinco anos. No dia 17 de maio de 2017, houve a divulgação de uma conversa entre Joesley Batista, que estava na liderança da JBS, e o então presidente da República, Michel Temer, que dava autorização para que o empresário comprasse o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Desde então, há um risco de governança associado à JBS. “Já vimos os controladores envolvidos em várias polêmicas, é uma questão que precisa ser colocada no cálculo do investidor”, diz Daronco. 

Ações estão baratas?

Antes de fazer qualquer investimento é preciso avaliar se a relação entre custo e benefício é boa, certo? E segundo Flavio Conde, da Levante, o preço das duas ações é “convidativo”. 

O principal indicador usado na análise fundamentalista para avaliar se uma empresa está barata é o preço/lucro, que pega o valor de mercado de uma companhia e divide pelo lucro que a empresa apresentou. 

Em 17 de maio, o indicador P/L da Marfrig estava em pouco mais de 2,5. Na mesma data, a relação preço/lucro da JBS era de 3,77x. Nesse quesito, o indicador mostra que a Marfrig está mais barata que sua concorrente. 

Resultado: a vantagem é da JBS

A posição consolidada da JBS como líder do mercado de proteínas torna a ação menos arriscada e a escolha de Flávio Conde para a composição de uma carteira sólida e menos volátil. 

Ainda é preciso analisar que mesmo os pontos positivos da Marfrig trazem um grau de risco para o investidor: a posição da empresa na BRF pode ser boa para a companhia, mas a grande queda no preço das ações desanima, enquanto a maior concentração geográfica e de portfólio é boa para o momento atual, mas pode ser prejudicial ao acionista no futuro. 


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